|

Pelo bom senso
Nei
Lisboa
Que
fase, a deste mundinho, terrores e imagens pra não se esquecer
tão cedo. Os sinais de que algo assim estava por acontecer
eram bastante evidentes, a tensão entre a riqueza e a miséria,
entre o poder e o abandono, havia atingido limites insuportáveis.
Mas eu sinceramente acreditava que o caminho da razão,
do diálogo, fosse ganhar a frente e impedir os alucinados
do planeta de encaminhar nossas vidas para mais um século
de violento apartheid humano. Agora é sacudir a poeira
e lutar para reverter esse quadro, o que não há
de ser nada fácil.
Tudo o que de pior pode nos oferecer o arsenal de insensatez dos
Bushes dessa vida, dos guardiões do Império, será
agora justificado e respaldado por uma maciça indignação
popular no Primeiro Mundo, pela ausência de um direito internacional
efetivo, pela solidariedade aterrorizada dos países ricos
ocidentais, de seus aliados e até de alguns notórios
desafetos. E o que se pode esperar do outro lado, de insanos fundamentalistas
suicidas, se não que reeditem seus ataques? O mundo islâmico,
um quarto da população do planeta, sentir-se-á
na prática acuado e atacado, por mais que a retórica
o poupe, então não é difícil de imaginar
que uns tantos troquem o estudo do Alcorão por um curso
de pilotagem aérea. Também não falta, mundo
afora, quem endosse de forma indireta a tese do Grande Satã,
dizendo que os norteamericanos tiveram o que mereciam, que estavam
pedindo, etc. Aliás, é o que mais se ouve por aqui,
junto com piadinhas trágicas que o bom humor do brasileiro
absolve. Mas convém revisar essa tese, em especial àqueles
que moram em andares altos.
O que aconteceu em Nova Iorque é na verdade, simplesmente
e sem ressalvas, o horror. E é de se lamentar também
a hora, justamente quando movimentos internacionais de contestação
tentam se organizar, procurando agir dentro de uma atmosfera de
pressão legítima e pacífica, de discussões
sobre a globalização, sobre a questão racial,
de construção de um consenso sobre a indispensável
correção de rumo nos caminhos da humanidade. Com
certeza essas manifestações passarão a ser
rotuladas na mesma prateleira do terror e violentamente reprimidas.
Numa hora como essa, o próximo Fórum Social, em
Porto Alegre, pode ser o espaço certo para que o bom senso
volte à ordem do dia, se conseguir manter-se desintoxicado
de antiamericanismos caricatos - e de agentes do FBI.
|