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ULBRA
Atraso de salários expõe contradições
Foto:
René Cabrales
Não
há exemplo no Estado de empreendimento de ensino que
tenha experimentado expansão tão vertiginosa,
inclusive geográfica, na última década,
quanto a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). A instituição
conta hoje com um complexo educacional que abrange universidades,
escolas e centros tecnológicos espalhados por seis estados
do país. No total, os 13 campi da Ulbra dão guarida
a mais de 70 mil estudantes, oferecendo cursos de graduação
e pós-graduação, além de Educação
Infantil, Ensino Fundamental e Médio. Apesar deste poderio
todo, a universidade deixou de cumprir um de seus compromissos
mais básicos: pagar em dia o salário de agosto
aos professores.
Paulo
César Teixeira
olocar-se
como uma das mais importantes instituições de ensino
do país não foi o bastante para a Ulbra. Ela esparramou-se
por outros setores da economia com iniciativas carregadas de ousadia
e modernidade. Investiu pesado num complexo de saúde que
inclui hospitais, unidades ambulatoriais e central de dignóstico,
distribuídos por nove municípios gaúchos.
Sem levar em conta o plano de saúde e, especialmente, o
novo hospital do campus de Canoas, prestes a ser inaugurado, equipado
com o que há de mais moderno em tecnologia hospitalar.
Na área de comunicação, está presente
com uma rede de emissoras de rádio FM, gráfica,
editora e telecentro. No campo do esporte, a Ulbra ganhou projeção
nacional graças a um audacioso investimento em marketing,
que resultou em títulos e performances marcantes em várias
modalidades esportivas.
Tudo começou há 29 anos com o curso de Administração
da então Faculdades Canoenses, ministrado em salas de aula
do colégio Cristo Redentor. Logo depois foram implantados
os cursos de Ciências Contábeis e de Arquitetura
e Urbanismo. Em 1978, foi adquirido o terreno na vila São
Luís, em Canoas, onde hoje está instalado o campus
central numa área de 272,3 mil metros quadrados de obra
construída e mais 40 mil em construção. O
salto para além das fronteira gaúcha foi dado em
1984, quando a universidade abriu uma frente em Ji-Paraná,
em Rondônia. A unidade inaugurada mais recentemente no Norte
do país está na capital do estado, Porto Velho,
e fez o primeiro vestibular em 28 de julho deste ano, com 142
inscritos. É da Ulbra o campus universitário tido
como o mais moderno do oeste paraense, plantado no município
de Santarém. O gigante pôs os pés também
em Manaus (AM), Palmas (Tocantins), Goiatuba e Itumbiara (GO).
No Rio Grande do Sul, a expansão iniciou em 1989, quando
a Ulbra instalou-se em Guaíba e São Jerônimo.
Atualmente, conta com seis campi em solo gaúcho, atuando
também em Cachoeira do Sul, Gravataí, Carazinho
e Torres.
A expansão geográfica foi interpretada pela opinião
pública como conseqüência de uma confortável
situação financeira vivida pela instituição.
O plano de saúde, por exemplo, aparentemente, vai de vento
em popa. No último trimestre, foram abertas novas unidades
de atendimento em Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Novo Hamburgo
e Canoas. A rede própria passará a contar com 15
unidades e a Ulbra já anunciou que, em breve, outras virão
em Viamão, Alvorada e Nova Santa Rita. No total, o plano
atende a 55 mil pessoas, 32 mil oriundas de planos empresariais.
A meta era bater na casa de 70 mil usuários até
o final de setembro, como disse o diretor do Plano de Saúde,
Milton Machado, ao Jornal da Ulbra, na edição de
agosto.
Não é lógico um gigante com braços
voltados para tantas direções enfrentar dificuldades
em cumprir compromissos tão básicos quanto manter
em dia a folha salarial de professores. Por essa razão,
causou perplexidade o atraso de 13 dias para o pagamento do salário
de agosto. O assombro se justifica. Afinal, vislumbra-se aí
um paradoxo: de um lado, a falta de recursos para honrar a folha
de pagamento na data prevista e, de outro, a magnitude da estrutura
física e da imagem institucional da Ulbra que inclui
um prosaico Museu do Automóvel de 9,3 mil metros quadrados,
que tem até um tanque de guerra, junto a um chafariz com
mastro de 42 metros de altura (o segundo mais alto da América
Latina), o equivalente a um prédio de 16 andares.
Só o assalariado que não recebe em dia pode dimensionar
a sensação de desamparo que, invariavelmente, desaba
sobre o trabalhador numa circunstância como essa. O cotidiano
se transforma numa cascata de tragédias domésticas.
Não bastasse isso, os professores foram castigados com
a ausência de uma explicação oficial da Reitoria.
E, na falta de uma justificativa oficial, o campus de Canoas se
transformou, nas duas primeiras semanas de setembro, num caldeirão
de boatos. Os nervos ficaram à flor da pele, e não
era para menos. Em 11 anos trabalhando na Ulbra, foi a primeira
vez que aconteceu. Afetou a vida de todos. Contas em débito
automático estouraram, cheques pré-datados foram
devolvidos e houve gente reclamando que não tinha dinheiro
para fazer o rancho no supermercado, relata uma professora
que, por motivos óbvios (a exemplo dos colegas que prestaram
depoimento ao Extra Classe), não quer se identificar. A
situação se tornou mais grave à medida em
que, para grande parte dos professores, a Ulbra é a única
fonte de renda, acrescenta ela.
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