Especiais da Jornada de Literatura 2001:

ULBRA

Atraso de salários expõe contradições

Foto: René Cabrales
Não há exemplo no Estado de empreendimento de ensino que tenha experimentado expansão tão vertiginosa, inclusive geográfica, na última década, quanto a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). A instituição conta hoje com um complexo educacional que abrange universidades, escolas e centros tecnológicos espalhados por seis estados do país. No total, os 13 campi da Ulbra dão guarida a mais de 70 mil estudantes, oferecendo cursos de graduação e pós-graduação, além de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. Apesar deste poderio todo, a universidade deixou de cumprir um de seus compromissos mais básicos: pagar em dia o salário de agosto aos professores.

Paulo César Teixeira

olocar-se como uma das mais importantes instituições de ensino do país não foi o bastante para a Ulbra. Ela esparramou-se por outros setores da economia com iniciativas carregadas de ousadia e modernidade. Investiu pesado num complexo de saúde que inclui hospitais, unidades ambulatoriais e central de dignóstico, distribuídos por nove municípios gaúchos. Sem levar em conta o plano de saúde e, especialmente, o novo hospital do campus de Canoas, prestes a ser inaugurado, equipado com o que há de mais moderno em tecnologia hospitalar. Na área de comunicação, está presente com uma rede de emissoras de rádio FM, gráfica, editora e telecentro. No campo do esporte, a Ulbra ganhou projeção nacional graças a um audacioso investimento em marketing, que resultou em títulos e performances marcantes em várias modalidades esportivas.

Tudo começou há 29 anos com o curso de Administração da então Faculdades Canoenses, ministrado em salas de aula do colégio Cristo Redentor. Logo depois foram implantados os cursos de Ciências Contábeis e de Arquitetura e Urbanismo. Em 1978, foi adquirido o terreno na vila São Luís, em Canoas, onde hoje está instalado o campus central numa área de 272,3 mil metros quadrados de obra construída e mais 40 mil em construção. O salto para além das fronteira gaúcha foi dado em 1984, quando a universidade abriu uma frente em Ji-Paraná, em Rondônia. A unidade inaugurada mais recentemente no Norte do país está na capital do estado, Porto Velho, e fez o primeiro vestibular em 28 de julho deste ano, com 142 inscritos. É da Ulbra o campus universitário tido como o mais moderno do oeste paraense, plantado no município de Santarém. O gigante pôs os pés também em Manaus (AM), Palmas (Tocantins), Goiatuba e Itumbiara (GO). No Rio Grande do Sul, a expansão iniciou em 1989, quando a Ulbra instalou-se em Guaíba e São Jerônimo. Atualmente, conta com seis campi em solo gaúcho, atuando também em Cachoeira do Sul, Gravataí, Carazinho e Torres.

A expansão geográfica foi interpretada pela opinião pública como conseqüência de uma confortável situação financeira vivida pela instituição. O plano de saúde, por exemplo, aparentemente, vai de vento em popa. No último trimestre, foram abertas novas unidades de atendimento em Sapucaia do Sul, Cachoeirinha, Novo Hamburgo e Canoas. A rede própria passará a contar com 15 unidades e a Ulbra já anunciou que, em breve, outras virão em Viamão, Alvorada e Nova Santa Rita. No total, o plano atende a 55 mil pessoas, 32 mil oriundas de planos empresariais. A meta era bater na casa de 70 mil usuários até o final de setembro, como disse o diretor do Plano de Saúde, Milton Machado, ao Jornal da Ulbra, na edição de agosto.

Não é lógico um gigante com braços voltados para tantas direções enfrentar dificuldades em cumprir compromissos tão básicos quanto manter em dia a folha salarial de professores. Por essa razão, causou perplexidade o atraso de 13 dias para o pagamento do salário de agosto. O assombro se justifica. Afinal, vislumbra-se aí um paradoxo: de um lado, a falta de recursos para honrar a folha de pagamento na data prevista e, de outro, a magnitude da estrutura física e da imagem institucional da Ulbra – que inclui um prosaico Museu do Automóvel de 9,3 mil metros quadrados, que tem até um tanque de guerra, junto a um chafariz com mastro de 42 metros de altura (o segundo mais alto da América Latina), o equivalente a um prédio de 16 andares.

Só o assalariado que não recebe em dia pode dimensionar a sensação de desamparo que, invariavelmente, desaba sobre o trabalhador numa circunstância como essa. O cotidiano se transforma numa cascata de tragédias domésticas. Não bastasse isso, os professores foram castigados com a ausência de uma explicação oficial da Reitoria. E, na falta de uma justificativa oficial, o campus de Canoas se transformou, nas duas primeiras semanas de setembro, num caldeirão de boatos. Os nervos ficaram à flor da pele, e não era para menos. “Em 11 anos trabalhando na Ulbra, foi a primeira vez que aconteceu. Afetou a vida de todos. Contas em débito automático estouraram, cheques pré-datados foram devolvidos e houve gente reclamando que não tinha dinheiro para fazer o rancho no supermercado”, relata uma professora que, por motivos óbvios (a exemplo dos colegas que prestaram depoimento ao Extra Classe), não quer se identificar. “A situação se tornou mais grave à medida em que, para grande parte dos professores, a Ulbra é a única fonte de renda”, acrescenta ela.



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