Especiais da Jornada de Literatura 2001:

ULBRA

Alterações nas relações apontavam uma crise

Paulo César Teixeira

A bem da verdade, os sinais de turbulência na Ulbra já se manifestavam há algum tempo. Na década de 90, a folha era paga no dia 30 de cada mês. Era uma antecipação, já que a convenção coletiva da categoria determina que o pagamento seja feito, no máximo, até o dia 5 (e não no quinto dia útil do mês). A partir de março de 2000, foi possível perceber alterações bruscas na relação da universidade com o quadro docente e funcional, que indicavam dificuldades futuras. Um dos indícios foi o enxugamento de gastos que afetava diretamente o professor. No ano passado, por exemplo, uma grande parcela teve a carga horária reduzida, com a conseqüente diminuição salarial. O episódio resultou numa ação coletiva impetrada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), que está em tramitação na Justiça do Trabalho de Canoas. No início de 2001, a Ulbra surpreendeu o quadro docente com a redução dos descontos concedidos na taxa de matrícula para os filhos dos professores. Foi outra atitude de pouca amplitude dentro de uma suposta política de redução de gastos. Para a Ulbra, é uma economia insignificante. Para os professores, um peso a mais no orçamento apertado de cada mês.

Mas, bem ou mal, a série de medidas que atingia diretamente os professores apontava a existência de problemas financeiros, que acabaram se confirmando. Nos últimos meses, os salários passaram a ser depositados somente no dia 5, já perto da meia-noite, quase no dia 6, o que causava apreensão aos professores, na medida em que os valores custavam a aparecer nos extratos bancários. Finalmente, o não-pagamento em dia do salário de agosto trouxe à tona as dificuldades de caixa da Ulbra. Diante do fato, o Sinpro/RS tomou imediatamente a iniciativa de solicitar uma reunião com os representantes da instituição, com o objetivo de resolver o impasse e garantir o pagamento da multa resultante do atraso – até o sexto dia, ela é de 05% ao dia; a partir do sétimo dia de atraso, fixa-se em 10%. Demonstrada a ineficácia da pressão política, o Sinpro/RS entrou com ação de cumprimento na 3a Vara da Justiça do Trabalho, em Canoas, acompanhada do pedido de antecipação de tutela. Na prática, se acatada, a medida judicial asseguraria o imediato pagamento dos salários e também da multa. O juiz Luiz Henzel marcou a audiência inaugural do processo para o dia 15 de outubro, além de dar um prazo de cinco dias para que a Ulbra apresentasse suas justificativas. Devido à lentidão da Justiça do Trabalho em notificar a universidade, o prazo acabou na realidade se alargando para dez dias e se revelou inócuo, uma vez que, ao fim dele, os salários já estavam na conta dos professores. Permanece, entretanto, a demanda judicial para o pagamento da multa.

Procurada pela reportagem do Extra Classe, através de sua assessoria de imprensa, a Ulbra não quis se pronunciar. Em meio à crise, a única atitude tomada pela universidade, no sentido de prestar um esclarecimento ao corpo docente, foi enviar um coordenador de curso a cada prédio do campus de Canoas, para anunciar que o débito seria quitado (com a multa) no dia seguinte, promessa que, na ocasião, não se cumpriu. Outra promessa dada pelos coordenadores era a de que o Banco do Brasil cobriria os cheques devolvidos. No vácuo da indignação e da falta de respostas, os rumores proliferaram. Um deles dava conta de que, para estar apta a ser reavaliada pelo MEC, que está para recredenciar as universidades do país, a Ulbra tivera que quitar dívidas de longa data com a Previdência Social, o que consumira os recursos disponíveis para pagar a folha. Outro boato era o de que a universidade estaria endividada por força dos gastos na compra de equipamentos do novo hospital.



Leia também:


 - Atraso de salários expõe contradições
 - Toneladas de equipamentos importados


 

Fale com o Extra Classe