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Nuances
Luis
Fernando Verissimo
Paris
Todas as indicações são de que continuo
vivo. Atravessamos o Atlântico sem sustos. Confesso que
procurei, entre nossos co-viajantes na sala de espera e
de espera, e de espera do aeroporto Kennedy a cara de alguém
capaz de seqüestrar nosso vôo da United para Londres
e forçá-lo a pousar no colo da rainha, e não
procurei entre os brancos. As circunstâncias nos transformam
em calhordas: se entre os passageiros aparecesse o Caetano Veloso
com uma barba mais comprida, eu não embarcaria. Não
ajudou o fato de todos os seguranças do aeroporto de Heathrow,
em Londres, terem exatamente o tipo físico que alertaria
os seguranças do aeroporto Kennedy, inclusive alguns com
barbas e turbantes, apenas uma amostra da grossa confusão
em que nós e o Bush estamos nos metendo. Nos Estados Unidos
há uma grande preocupação em poupar a população
árabe e muçulmana da indignação geral,
mas já houve mortes e é difícil fingir que
raça e religião não dominarão o que
vem por aí. Bush usou o termo cruzada por ignorância,
mas pode ter sido o prenúncio de uma volta da clara divisão
dos mundos que havia na Idade Média uma simplificação
que também escondia interesses e projetos que nada tinham
a ver com o Deus de cada lado, mas que foi a responsável
pela maior parte do sangue derramado. A tendência americana
a simplificar é uma contrapartida assustadora às
mortíferas simplificações dos fundamentalistas
fanáticos. O que o mundo mais precisa no momento é
de gente disposta a insistir que não é bem assim,
que nada, nunca, é bem assim. Precisamos de sofismas, desconversa
e peraís generalizados. Precisamos, urgentemente, de protelação
criativa. Ou os simples nos matam.
Exemplo de
nuance salvadora, impensável no tempo das cruzadas: uma
das maiores angústias do pessoal do mercado quando a bolsa
de Nova York abriu depois do holocausto era como se comportaria
a casa real da Arábia Saudita, que tem muitos bilhões
investidos em ações americanas. Suas majestades,
parece, mantiveram a fé no capitalismo de papel e ajudaram
a manter as perdas num nível tolerável. As guerras,
tradicionalmente, eram boas para a indústria. Ainda não
se sabe como a primeira guerra do século 21, de Bush, afetará
a economia pós-industrial, já que também
será a primeira guerra da globalização. Talvez
não seja, literalmente, um bom negócio, e as razões
comerciais atenuem a indignação. A interpenetração
racial é outro exemplo de complicação bem-vinda.
Mouros e cristãos já não se distinguem nem
geograficamente com a mesma clareza de antigamente.
Enquanto esperava
o vôo para Paris no aeroporto de Londres, fiz uma coisa
estranha. Comprei uma gravata. Sei não, mas acho que foi
um gesto de confiança de que a civilização
continuará.
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