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Cultura de
resistência
Divulgação
Trabalhar
a cultura como ferramenta de inclusão social e definir políticas
de atuação e financiamento da cultura, para enfrentar
os desafios da globalização. Essas são as propostas
chave que compõem a Agenda da Cultura, principal resolução
da 1ª Reunião Pública Mundial de Cultura, realizada
nos dias 16 e 17 de setembro em Porto Alegre. A Agenda será
levada a debate durante o III Fórum de Autoridades Locais
pela inclusão Social, dentro das atividades do III Fórum
Social Mundial, que se realizará de 23 a 28 de janeiro de
2003, na capital gaúcha.
Ana Esteves
oincidência
ou não, a reunião, que contou com representantes
do Brasil, Espanha, Itália, Argentina Colômbia e
Uruguai, ocorreu simultaneamente ao 9º Porto Alegre Em Cena
(foto acima), que neste ano bateu de frente com o modelo de culturas
hegemônicas do mundo globalizado, trazendo espetáculos
com fortes características regionais. Conforme o secretário
de cultura de Barcelona, Jordi Marti, neste momento o que assistimos
é o fenômeno social da globalização.
É a invasão do sistema econômico na
esfera cultural. A cultura está condicionada, como nunca,
ao mercado. Isso provoca muitos efeitos negativos, tanto na criação
artística, quanto nos valores e na forma de relação
das comunidades, porque o mercado tende a convertê-los em
produtos e os usos culturais em consumo. Marti afirmou ainda
que é preciso estabelecer normas de defesa às tendências
negativas da globalização, criando uma nova cartografia
das políticas culturais, em busca de modelos alternativos
à maior participação do poder público
no terreno cultural.
Tal aparato de defesa, citado pelo Secretário
catalão, tem sido utilizado por uma das mais tradicionais
capitais culturais do mundo. A prefeitura de Florença abriu
um debate político sobre o tema da globalização
e está realizando um trabalho com o objetivo de transformação
da cidade. Ao invés de sermos apenas um enorme museu,
alimentado pelo turismo global, de massa, pretendemos transformar
a cidade em uma grande fábrica de cultura incentivando
a produção cultural, investindo em tecnologia e
buscando incentivos, afirmou o Secretário de Cultura
de Florença, Sérgio Goretti. De acordo com ele,
o objetivo é construir um projeto participativo, com o
envolvimento dos cidadãos e do público internacional.
Isso não significa colocar em segundo plano o grande
patrimônio histórico e cultural da cidade, ao contrário,
significa valorizar e investir em tecnologia, completa Goretti.
Segundo ele, se, de um lado, a criação do Euro abriu
novas perspectivas de integração econômica,
de outro, criou uma nova interrogação sobre a valorização
da identidade cultural, histórica e social dos países
europeus. Como conciliar a internacionalização
da economia e de mercados com a necessidade de recuperar os valores
locais? A sociedade precisa encontrar uma resposta para esta interrogação.
A prefeitura da cidade, berço do Renascimento, também
está desenvolvendo um modelo alternativo de dinâmica
cultural, que visa proporcionar maior acesso dos seus cidadãos
à vida cultural. O objetivo do governo local é
o de ampliar as possibilidades de acesso de todos os componentes
da comunidade. Esse trabalho é de extrema importância
principalmente no momento em que vivemos tomados pela mídia
e pela tecnologia multimídia. O caráter econômico
não poderá, nem deverá ser substituto das
questões culturais e sociais, completa Goretti.
Para a Secretária Municipal da Cultura de Belo Horizonte,
Celina Albano, a formação de uma sociedade mais
justa e mais harmônica tem de estar apoiada no aprimoramento
individual dos seus cidadãos e isso só é
possível quando se oferece a cada um deles a oportunidade
de participar na criação, na transformação,
na permuta e no consumo de um acervo cultural, que amplie seu
conhecimento, alargue seus horizontes, aprofunde sentimentos e
que seja principalmente capaz de tocar seu coração.
A arte quebra barreiras e ajuda indivíduos e grupos
a se inserirem num mundo em constante transformações,
no qual as concepções de trabalho mudam velozmente
e as formas de tomada de decisão exigem o máximo
de criatividade e de coragem para tentar o novo. A cidade, que,
neste contexto, revelar-se forte na área de cultura terá
maiores possibilidades de assegurar seu futuro nos campos da criação
tecnológica e científica e da solidariedade social,
afirma. De acordo com ela, a cultura contribui para a inclusão
pela sua centralidade no processo de desenvolvimento social,
sendo considerada um componente fundamental para o exercício
da cidadania; essa importância é atribuída
ao poder da cultura como possibilitadora do sentimento de pertença
nos indivíduos, de aumento da auto-estima, necessária
para a construção da vida em sociedade. Por outro
lado, é também através da cultura que os
indivíduos se reconhecem como sujeitos capazes de criar
e recriar sua própria existência, a participação
no processo cultural, portanto, permite a difícil aprendizagem
no convívio com as diferenças e adversidades, o
que contribui para o desenvolvimento de uma cultura democrática.
Celina conta que a prefeitura de Belo Horizonte está promovendo
uma série de iniciativas culturais visando à inclusão.
São oficinas de rádio, de circo, de artes
plásticas para jovens e crianças que formam nosso
público-alvo.
Para a diretora do departamento de cultura de Montevideo, Sílvia
Altmark, os direitos culturais, são considerados
direitos humanos e as políticas culturais são políticas
sociais e representam uma das ferramentas mais poderosas para
a conservação da democracia. Sílvia
falou sobre a Carta dos Direitos Vecinales de Montevideo, criada
em 1998, no 50º aniversário da Declaração
dos Direitos Humanos. Nela afirmamos que em Montevideo temos
o direito de sermos nós mesmos, e podemos tranqüilamente
mudar a palavra Montevideo por qualquer nome de cidade, país
ou região que trabalhe a igualdade. Na carta, apresentamos,
entre outras coisas, a proposta para melhorar a qualidade e a
gestão de nossas propostas municipais na área cultural.
O documento, um manifesto contra os efeitos da globalização,
cita a importância de estimular o desenvolvimento da vida
cultural e da comunidade: todas as pessoas, independente de sua
condição econômica, política ou social,
têm igual direito a produzir cultura e ter acesso aos bens
e serviços culturais. Sílvia afirmou que o
setor público e da cultura do país está totalmente
voltado para os desafios da globalização. Estamos
trabalhando com o PEC, o Plano Estratégico de Cultura,
um processo transdisciplinar, integrador, participativo que incorporará
a visão externa dos gestores públicos. Tem a missão
de integrar cadeias e organizações internacionais
que tenham experiência na formulação e gestão
de cultura. Nada pode justificar a marginalidade das políticas
culturais, numa sociedade onde o conhecimento é fundamental.
Omitir aos cidadãos os direitos culturais é um grande
dano à democracia e ninguém pode justificar a impossibilidade
real de viver a cultura, completou.
O representante da Rede Mercocidades, José Alberto Pinto
Neves, apresentou diversas iniciativas que serão desenvolvidas
até o final deste ano e durante todo o próximo.
São trabalhos desenvolvidos dentro do processo de
conscientização de cultura, do seu reconhecimento
como direito básico, para criticamente trabalhar a questão
da cidadania. Tais ações abrangem diversos
campos, como o da cultura e ação social, com o lançamento
do Prêmio Mercocidades Cultura que contemplou em 2002 projetos
em execução que fizessem a ponte da ação
cultural como agente de recuperação do cidadão.
O Terra Latina com 30 mil imagens captadas por crianças
da rede escolar dos seis países que compõem o Mercosul.
Ao final será dado um prêmio para a criança
que compuser o melhor registro de sua cidade. A Rede Mercocidades
tem ainda o Ação Cultura e Literatura através
da Companhia de Poetas, que lançará um livro, reunindo
textos de poetas contemporâneos e intelectuais que participam
da Rede. De acordo com Neves, existe uma grande preocupação
da Mercocidades com o papel da cultura na sociedade atual. Por
isso, elegemos para o plano de ação de 2003 o tema
cultura e seus novos desafios, como a formação profissional
do agente cultural, as inovações tecnológicas
e o impacto social da cultura.
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Reunião
discutiu perspectivas de uma cultura
democrática e não excludente
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Outra deliberação
da 1ª Reunião Pública Mundial de Cultura propõe
a formação de um comitê das cidades para defender
políticas públicas de cultura no Fórum Social
Europeu, que se realizará em novembro, em Florença.
Também deverá ser criado o observatório Mundial
de Cultura em parceria com a Unesco, que vai elaborar novos critérios
para medição do grau de desenvolvimento cultural
das cidades.
| No
FSM o tema voltará ao debate |
No
dia 23 de setembro, durante o lançamento do III Fórum
Social Mundial, em Porto Alegre, o representante da secretaria
nacional do FSM-2003, Gustavo Codas, indicou a direção
dos debates que ocorererão de 23 a 28 de janeiro próximos,
em Porto Alegre. As primeiras duas edições
do Fórum desencadearam um processo de revisão
do modelo neoliberal em todo o mundo e a sua terceira edição
terá como principal função elaborar estratégias
para a implementação das alternativas e propostas
acumuladas nesse período, explica. De acordo
com ele, será dada ênfase à falência
do modelo neoliberal e se dirá não
à política armamentista do governo Bush.
As discussões do FSM2003 serão baseadas
em cinco eixos temáticos: Desenvolvimento Democrático
e Sustentável; Princípios e Valores, Direitos
Humanos e Diversidade; Mídia, Cultura e Contra Hegemonia;
Poder Político, Sociedade Civil e Democracia; Ordem
Mundial Democrática e Paz.
As inscrições de delegados para o FSM-2003 já
estão abertas. Poderão ser inscritos todos os
que atuarem junto a iniciativas, organizações
e movimento sociais, caracterizando-se como representantes
de entidades da sociedade civil, através de uma ficha
que está disponível no site do FSM www.forumsocialmundial.org.br.
O valor da inscrição é de U$ 50,00 por
organização e U$ 25,00 por inscrição
adicional. As inscrições de oficinas propostas
por delegados podem ser feitas através da mesma ficha,
durante os meses de novembro e dezembro de 2002. O prazo final
para inscrição de oficinas é dia 29 de
novembro, deste ano. |
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