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A
fábrica de escândalos
Fotos:
René Cabrales
Nascido
em Miniapolis (Estados Unidos), o professor John B. Thompson está
radicado na Inglaterra desde 1970. Aos 51 anos, leciona Sociologia
na Universidade de Cambridge e tenta desvendar os meandros das relações
da mídia com o poder e as instituições. Ganhou
o prêmio Amalfi, um dos mais importantes na área de
Ciências Sociais, na Europa. No Brasil, tem três livros
publicados Ideologia e cultura moderna: teoria social
crítica na era dos meios de comunicação de
massa, A mídia e a modernidade: uma teoria social
da mídia e O escândalo político:
poder e visibilidade na era da mídia, pela editora
Vozes. Este último ele lançou na PUCRS, durante o
Seminário Internacional de Comunicação Cultura,
poder e tolerância em um mundo complexo, em setembro.
Em entrevista ao Extra Classe, Thompson esmiuça sua teoria
do escândalo político e se mostra curioso diante da
especificidade da política brasileira.
Paulo César Teixeira
Extra
Classe O fenômeno do escândalo político
é um atributo de sociedades desenvolvidas ou é um
fenômeno universal?
John B. Thompson A idéia do escândalo
é muito antiga. Pode ser remetida ao início da era
clássica grega e até mesmo ao pensamento judaico.
A palavra escândalo surge ainda, no século 16, nas
línguas romana, francesa, portuguesa e inglesa. Você
pode encontrá-la também na literatura panfletária
do século 17 e do século 18. Mas, neste caso, era
uma literatura de agressão e blasfêmia contra os
monarcas. Uma mudança significativa acontece na virada
do século 18 para o 19, quando o termo é desvinculado
do sentido de blasfêmia e passa a se referir a um tipo particular
de evento, intimamente ligado à imprensa. Temos aí
a emergência de um novo fenômeno, que é o escândalo
como um evento de mídia. É, portanto, um fenômeno
moderno.
EC Qual é a principal característica do
escândalo político?
Thompson É o fato de revelar, através
da mídia, uma série de atividades que, até
então, eram escondidas e caracterizavam alguma forma de
transgressão. No século 19, havia uma série
de escândalos na Inglaterra, na França e em outros
lugares. Então, você situa o século 19 como
o local de nascimento do escândalo político. Mas
é o século 20 que se torna, de fato, o lar do escândalo
político. Uma vez que ele foi inventado, torna-se um gênero
narrativo e, logo adiante, uma arma da luta política. Essa
arma ganha importância e fica cada vez mais forte a partir
da década de 60 por uma série de razões.
EC Que razões são essas?
Thompson Uma delas é o desenvolvimento das tecnologias
de comunicação. Os líderes políticos
já tinham grande visibilidade através da imprensa
escrita. Mas, com o desenvolvimento da mídia eletrônica,
em especial a televisão, essa visibilidade se acentua.
Eles se tornam personagens com características identificáveis.
Cada vez mais, buscam se apresentar como indivíduos comuns.
E a questão da personalidade, do caráter, passa
a ser mais importante para a vida política. Tudo aquilo
que, antes, permanecia oculto nos bastidores da ação
política, vem a público com as novas tecnologias
de vigilância e investigação câmeras
escondidas, fitas de gravação, grampos de telefone,
etc. Com isso, é possível captar, documentar e depois
veicular o que está escondido. Neste sentido, a fronteira
entre eventos públicos e privados torna-se obscura. Ações
e posicionamentos que, até então, os políticos
julgavam manter no domínio do privado, passam a ser transmitidos
para uma ampla audiência. Bill Clinton e a estagiária
Monica Lewinsky descobriram o fenômeno na própria
carne.
EC De que forma o escândalo é resultado
de uma transformação política?
Thompson Há também a mudança da
cultura política. A política tradicional estava
fundamentada nas diferenças entre as classes sociais. Havia
crenças muito fortes e uma nítida oposição
entre esquerda e direita. Mudanças estruturais da sociedade
contemporânea provocaram um crescimento de fatias do eleitorado
não conectadas aos partidos de direita ou esquerda. Surge
um novo eleitor, cujas opções políticas não
estão comprometidas com as convicções das
gerações anteriores. Emerge o que eu chamo de política
da confiança. Nesta nova cultura política, o escândalo
assume uma significação poderosa, porque coloca
em questão a credibilidade dos líderes. Por outro
lado, quanto mais os partidos encontram dificuldades de se identificar
com as bases da política tradicional (esquerda e direita),
mais eles têm que procurar novos meios de se diferenciar
um do outro. Se conseguem identificar transgressões de
normas praticadas pelos adversários, como corrupção
ou abuso de poder, podem usar isso como arma para tirar vantagem
política.
EC O senhor quer dizer que o embate ideológico
está condenado a segundo plano? Vale mais a imagem que
remete a características pessoais do político?
Thompson Não significa que seja uma coisa ou
outra. Certamente, continua sendo muito importante que os partidos
tenham os seus programas. Mas, junto com isso, a política
da confiança tem se tornado mais e mais relevante. Não
são coisas que se excluem mutuamente, porque estão
intimamente ligadas. O que me parece indiscutível é
que a política da confiança se tornou quase inevitável.
Tanto mais a concepção de uma política sustentada
em classes se dissolve, mais importante se torna a questão
do caráter. Se um líder político apresenta
uma proposta ou programa, a tendência do eleitor é
perguntar: Afinal, esta pessoa é confiável?
Será que manterá a palavra? A questão
da credibilidade se torna cada vez mais ligada à plataforma
programática de qualquer político.
EC Mas o eleitor não corre o risco de ser manipulado
pela imagem do político, construída pela mídia?
Os escândalos não podem ser forjados ou, pelo menos,
explorados por quem domina a mídia?
Thompson Sim, você tem toda a razão. A
questão que eu exploro é: por que o escândalo
ganhou tanta importância? Para entender o problema, você
tem que reconstruir a evolução da cultura política.
Nas sociedades de democracia liberal, a aquisição
e o exercício do poder político dependem de uma
outra forma de poder, que eu chamo de poder simbólico.
É a capacidade de persuadir e influenciar as pessoas, ou
seja, conseguir que os outros acreditem em você. Como se
exercita o poder simbólico? Quando você exercita
o poder econômico, precisa de dinheiro. Agora, se quiser
exercer o poder simbólico, terá que recorrer à
reputação, credibilidade, confiança. Só
assim terá condições de persuadir os outros.
O escândalo é absolutamente perigoso neste contexto,
porque ameaça diminuir ou esgotar estes preciosos recursos.
EC O exemplo da governadora do Maranhão, Roseana
Sarney, ilustra bem este processo de esgotamento da credibilidade?
Thompson Quando você olha o caso de Roseana,
percebe que, quando o dinheiro foi identificado nos cofres de
sua empresa, ela e o marido Jorge Murad tentaram várias
vezes dar explicações para o fato, mas faltou credibilidade.
Quanto mais eles tentavam explicar, menos crível se tornava
a versão que apresentavam. A reputação e
a credibilidade dela foram esgotadas. Você pôde perceber
isso nas pesquisas eleitorais, com uma queda absolutamente dramática
da governadora, em março e abril. Nas hierarquias do próprio
partido, o PFL, ficou evidente que ela perdera a credibilidade
para persuadir os seguidores que deveriam apoiá-la. Então,
teve que se retirar da corrida presidencial.
| Agora,
se quiser exercer o poder simbólico, terá
que recorrer à reputação, credibilidade,
confiança. Só assim terá condições
de persuadir os outros. O escândalo é absolutamente
perigoso neste contexto, porque ameaça diminuir
ou esgotar estes preciosos recursos. |
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EC
No Brasil, alguns políticos aparentemente ficam imunes
à onda de escândalos que se abate sobre suas carreiras
públicas, como Paulo Maluf, em São Paulo. A popularidade
do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em Alagoas, não
demonstra ter arrefecido após o impeachment. A própria
Roseana Sarney mantém intacta sua base de apoio no Maranhão.
Como explicar estes fenômenos?
Thompson Algumas vezes, os recursos do poder simbólico
podem ser esgotados permanentemente. A carreira do político
é destruída para sempre, como a de Richard Nixon
no episódio de Watergate. Mas há casos em que ele
se atira a uma luta constante e permanente para reconstruir os
recursos danificados do capital simbólico. Na Inglaterra,
o exemplo clássico é o de Peter Mandelson, coordenador
de mídia e comunicação do Partido Trabalhista.
A carreira de Mandelson uma das lideranças do novo
trabalhismo inglês mais próximas do primeiro-ministro
Tony Blair tem sido atingida por um escândalo após
o outro. Em certos momentos, ele se retira de cena e começa
a trabalhar para reconstruir o capital simbólico. Acredito
que o mesmo aconteça no Brasil.
EC Aqui, alguns políticos, como Maluf, não
precisam necessariamente sair de cena. Ao contrário, para
setores do eleitorado, seu prestígio permanece inalterado,
apesar da avalanche de denúncias contra ele. No Maranhão,
Roseana Sarney igualmente preserva a credibilidade.
Thompson Embora eu não seja, de forma alguma,
um perito nas questões da política brasileira, me
parece interessante analisar as conseqüências do escândalo
político no Brasil. Creio que é necessário
estabelecer diferenças dos níveis regional e nacional.
Roseana Sarney perdeu a credibilidade em nível nacional,
mas ela tem boas razões para acreditar que, no Maranhão,
onde sua família tem uma grande quantidade de capital simbólico
acumulado, a situação continua sob controle. Ela
pode construir uma campanha política viável, focada
para aquela região. O poder simbólico da família
Sarney no Maranhão é abundante, mas, por outro lado,
é completamente insuficiente na arena nacional. Gostaria
de acrescentar que esta me parece ser uma especificidade do cenário
brasileiro, que é extremamente curiosa para mim.
EC O senhor estudou a fundo a relação
entre mídia e sociedade, em seus múltiplos aspectos.
O que poderia dizer a respeito do papel do educador diante da
influência dos meios de comunicação de massa
na formação de crianças, jovens e adolescentes?
Thompson No âmbito do processo educacional, é
preciso que os professores trabalhem mais a natureza e o processo
de construção e desenvolvimento das mensagens da
mídia. É muito importante romper com a idéia
de que a mídia é algo convencional, habitual, quase
natural, restrita ao senso comum. É necessário perceber
que ela constrói ativamente o mundo em que vivemos. Me
parece importante que tenhamos uma atitude reflexiva e uma abordagem
crítica a respeito da natureza e do papel da mídia
nas sociedades modernas.
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