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A burocracia
que mata
René
Cabrales
O
mesmo Brasil que é elogiado no exterior por sua política
de prevenção e tratamento à AIDS ainda
não consegue atingir a população de rua,
que continua morrendo pelas complicações decorrentes
da doença. Para essas pessoas, ter ou não remédio
grátis não faz diferença. O que os afasta
da saúde é a dificuldade de aderir a um tratamento
quando a fome e a falta de um teto para se abrigar falam mais
alto sem contar com a forma burocrática e a linguagem
pouco adequada com que são atendidos nos centros de referência.
Rosane Butho
m
setembro deste ano, enquanto a Coordenação Nacional
de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e
AIDS, do Ministério da Saúde, recebia da Organização
Panamericana de Saúde (OPAS) uma menção
honrosa por sua determinação, conhecimento
e dedicação à saúde pública
no Brasil, Neri Martins Carvalho, 20 anos, fazia pela
terceira vez a primeira consulta como portador de HIV. Desde
que soube que era soropositivo para o vírus, em março
de 2000, Carvalho tentou usar os medicamentos antiretrovirais
duas vezes. Numa delas, quando começou a sentir os primeiros
efeitos colaterais, deixou de tomá-los até que,
um dia, sob efeito do álcool, ingeriu 50 comprimidos
de uma só vez.
Carvalho passa seus dias na rua. De vez em quando, dorme no
abrigo noturno, em Porto Alegre. Usuário de loló
e de maconha, diz que contraiu o vírus numa relação
sexual. Mesmo sabendo que tem HIV, compartilhou seringas com
cocaína injetável. Como é HIV positivo,
quer agora conseguir a carteira de passe livre nos ônibus
e se aposentar pela doença. Ainda não conseguiu
encaminhar os papéis porque perdeu o documento de identidade.
Nesse meio tempo, abandonou novamente o tratamento. Usou os
remédios durante cinco meses, mas se sentia enjoado,
sem fome efeitos do próprio medicamento
e parou de tomá-los outra vez.
Na turma de Carvalho, ele não é exceção.
As dificuldades de convencer os moradores de rua a se tratarem
são parecidas. O primeiro desafio é ir fazer o
exame do HIV. Além do exame de sangue, é preciso
não sucumbir ao sono ao ouvir uma palestra com nomes
estranhos, nem sempre muito bem explicados. O que significa
mesmo CD4? Que bicho é esse que pode acabar com as células
de defesa do organismo? Segundo passo: pegar o resultado. Quem
quer saber sem tem o vírus da AIDS quando, para muitos,
ele é sinônimo de morte, por mais que os médicos
digam o contrário? Se for positivo, tem de marcar uma
consulta. E depois, fazer mais exames. Carga Viral. CD4. Tuberculose.
Hepatite. Algumas vezes, dá até para fazê-los
no mesmo lugar. Quando não dá, começa a
peregrinação rumo aos locais indicados. Alguns
têm de ser feitos em jejum. O pessoal encarregado de dar
as instruções às vezes é impaciente.
Como lembrar do dia de voltar para receber os resultados? Onde
guardar os papéis para não esquecer? Depois, marcar
nova consulta. Não dá para descuidar da data em
que abre a agenda de marcação, senão perde
a chance de ser atendido, talvez no mês seguinte, porque
geralmente não há vaga para o mesmo mês.
Essa via crucis faz com que boa parte dos moradores de rua não
chegue até a metade do caminho. É mais fácil
começarem a se tratar encaminhados pela emergência,
em situações-limite (infecções,
principalmente), do que buscarem os postos de atenção
básica.
Para estas pessoas, o HIV é só mais um problema.
Não há o que comer, onde morar, nem relógio
para saber o horário de tomar a medicação.
Quem está nos abrigos e albergues ou mantém contato
com o pessoal da abordagem na rua tem mais possibilidade de
aderir ao tratamento. Alguns precisam pedir ajuda até
para pegar o ônibus e ir ao posto de atendimento, porque
são analfabetos. Como vão conseguir então
ir de um lugar a outro para fazer todos os exames necessários?
Pode haver necessidade de conduzir alguém pela
mão, admite Marcelo Araújo Campos, presidente
da Associação Brasileira de Redutores de Danos
(Aborda). Às vezes, isso é necessário para
quebrar o círculo vicioso não me atendem,
então não vou. Na visão de Campos,
esse levar pela mão serve para educar tanto
o usuário como os servidores públicos, que nem
sempre sabem lidar com alguns pacientes, como os de drogas injetáveis,
e podem ter uma atitude defensiva, causando constrangimento.
Os bons serviços (e principalmente os trabalhadores
que lidam diretamente com as populações marginalizadas)
podem atuar como ponte entre usuários e os locais de
atendimento, permitindo a essa parcela da população
se apropriar dos bens sociais disponíveis, e aos serviços
se tranqüilizarem para recebê-los de maneira não
(ou menos) segregante.
A segregação impede avanços: Os profissionais
que estão nos locais de referência para atender
são os primeiros a te ignorar, reclama Fátima
Machado, 42 anos, portadora do HIV e conselheira do Conselho
Municipal de Entorpecentes de Porto Alegre. Quando não
se é bem recebido, não há estímulo
para voltar. Para quem usa drogas, o acesso é mais difícil
porque existe muita discriminação, diz Fátima.
Márcia Colombo, do Programa de Redução
de Danos de Porto Alegre, reconhece: em algumas unidades, há
entre os profissionais de saúde, despreparo, preconceito
e medo de ser agredido por essa população. Para
amenizar o problema, estão sendo feitos cursos de capacitação.
Ministério admite não ter políticas
para este público
O médico Luiz Fernando Marques, consultor da Organização
Mundial de Saúde para AIDS, recomenda ir além.
Ninguém vai conseguir ajudar o outro se ele mesmo
está mal se não se pode dar um aumento
ao funcionário público, por que não ouvi-lo
e oferecer algo gratificante, que o faça aderir a uma
nova proposta de atuação?. A saída,
na visão de Marques, é acolher as pessoas e responder
às suas demandas.
Por um lado, deve haver mais abrigos e locais onde quem está
na rua possa se lavar, se alimentar, encontrar ajuda jurídica
e médica. Por outro, os lugares de referência para
exame e tratamento de HIV/AIDS devem ser centralizados, sem
burocracia, com mais profissionais capacitados, mais espaço
em sua agenda para as primeiras consultas e flexibilidade
para atender também os pacientes sem consulta marcada.
Além disso, é preciso ter uma assistência
social para ajudar com algum benefício, pelo menos de
alimentação ou transporte.
Quando há distribuição de ranchos nos centros
de referência para HIV, eles não são suficientes.
Temos de fazer a escolha de Sofia, desabafa Neiva
Isabel Raffo Wachholz, coordenadora do ambulatório do
Serviço de Assistência Especializado de DST/AIDS
da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Só
o ambulatório onde ela trabalha distribui cem cestas
básicas, mas como dar conta da demanda, já que,
conforme seus cálculos, 70% da população
que se trata ali deveria receber ajuda?
O abandono freqüente do tratamento pelos moradores de rua
tem feito os médicos reavaliarem suas orientações.
Se a pessoa não tem como aderir ao tratamento de
forma efetiva, ela pode se complicar ainda mais, começando
a usar o remédio e deixando de tomar, porque cria resistência
ao medicamento, esclarece a enfermeira Isete Maria Stella,
coordenadora da Política Municipal de DST/AIDS de Porto
Alegre. Agora só se inicia a medicação
se o paciente estiver convencido da necessidade, sabendo que
vai enfrentar efeitos adversos.
Isete observa que o soropositivo cria uma espécie de
condição mágica em que ignora
o problema de saúde, mesmo sabendo que tem o vírus.
Monitoramos há dois anos uma menina que vive na
rua, mas fazê-la vir a cada quatro meses para a revisão
é difícil, porque não sente necessidade,
conta Isete. Quando alguém começa a tomar o antiretroviral
e a ter efeitos colaterais, tende a pensar que aí sim
é que está ficando doente. Fátima cansou
de ouvir moradores de rua dizerem que tomar o remédio
para AIDS é pior, porque um amigo usou o medicamento
e morreu. Ela tenta desmistificar: Quem morreu depois
de tomar o remédio é porque já estava muito
debilitado, e aí não há antiretroviral
que reverta a situação.
Os técnicos do Ministério da Saúde admitem
que existe um vazio para tratar desta população
e têm buscado suprir a demanda com a ajuda de organizações
não-governamentais. Mas começam a pensar em outras
alternativas para ampliar seu alcance. Em outubro, será
lançada uma pesquisa em seis capitais Porto Alegre,
Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Belém
para fazer uma contagem e definir a situação
de saúde de quem vive em situação de rua.
Segundo Henriette Ahrens, assessora técnica da área
de Prevenção, foram elaborados questionários
para detectar os casos de tuberculose, hepatite e DST/AIDS.
O Levantamento das Pessoas em Situação de Rua
está sendo organizado pela Secretaria de Estado da Assistência
Social, órgão do Ministério da Justiça.
Ao mesmo tempo, o setor de prevenção da Coordenação
Nacional de DST/AIDS está propondo organizar equipes
móveis para ir até a população de
rua e dar encaminhamento às suas necessidades de vacinas
e exames médicos, no molde do Programa de Saúde
da Família, já em funcionamento.
A proposta só será possível se tiver apoio
dos órgãos de Assistência Social e Saúde
dos governos estaduais, diz Henriette. Mais do que isso: se
estiver de acordo com o que querem e do que precisam os moradores
de rua. Quem pode nos dizer como incluir populações
marginalizadas não são apenas os técnicos
dos serviços, mas principalmente os usuários,
ressalta Campos, da Aborda. Aliás, só assim
essas pessoas vão tomar o remédio: quando virem
que não se trata de ordem do médico,
mas de benefício próprio, acredita.
R.R.O.,
24 anos, soube que era positiva para HIV quando ganhou sua
filha, há dois anos. Não pude amamentar,
explica. Começou a tomar remédio, mas o medicamento
acabou e ela não voltou mais para buscar. Está
sem documentos, avisa que tem problema na cabeça
e não consegue trabalho |
Aids: Só
mais um problema
Tequila,
26 anos, ficou sabendo que é soropositiva em março
de 2000. O marido usava drogas injetáveis, os dois
transaram sem camisinha. Hoje ele está preso, ela
dorme num abrigo da Prefeitura. Reclama que há dois
meses está faltando preservativos no presídio
e, quando os dois mantêm relações sexuais,
não usam nada para se proteger. Em novembro do ano
passado, fez o CD4 (exame que mede a capacidade de defesa
do organismo em relação ao HIV) que deu 541
acima dos 350, o que indica que ainda não
tem de tomar remédio. Tinha de voltar a fazer o exame
(Pode baixar de uma hora para outra, explica)
e medir a carga viral, mas perdeu o horário da consulta
em setembro e agora não sabe quando vai marcar de
novo. |
| Claudio
Santos de Souza, 38 anos, é responsável
pela ONG Vida Positiva, de São Paulo (www.soropositivo.org)
que tem como objetivo reintegrar os portadores do
HIV ao mercado de trabalho. Aos 32 anos, Souza viveu
seis meses na rua como portador do HIV. Nessa época,
tinha dificuldade de tomar os remédios. Os
que exigiam jejum eram fáceis de lidar. Mas,
uma hora após tomar o medicamento DDI, tinha
de comer algo para aliviar o estômago. Muitas
vezes eu deixava de tomar o DDI porque sabia que não
tinha nada para comer depois. Outros remédios
exigem a ingestão de proteínas, e era
difícil conseguir um bife. Para quem
está na rua, a AIDS é só mais
um problema, porque antes do HIV vem a fome e o frio,
afirma. |
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| Há
dois meses vivendo na rua, Jackson, 20 anos, está
parando ultimamente num abrigo noturno. Acha que se
infectou com HIV numa relação sexual
sem camisinha com uma mulher. Viu amigos que usavam
drogas injetáveis morrerem de Aids. Fez o exame
do HIV há um mês, mas não pegou
ainda o resultado. Atualmente desempregado, diz que
não tem tempo para buscar o exame.
Tenho medo de que dê positivo, admite. |
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