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Cidade
de Deus: a marca da exclusão
César
Fraga
Chega às
livrarias, em momento oportuno, a versão revisada do romance
de estréia em ficção de Paulo Lins, Cidade
de Deus (Cia das Letras, 408 pags). A obra é um retrato
das transformações sociais pelas quais passou o
conjunto habitacional Cidade de Deus (RJ), desde a pequena criminalidade
dos anos 60 até situação caos de violência
generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos
anos 90. O próprio autor criou a definição
neofavela, em oposição à favela
antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem romântica.
Este também é o cenário do já polêmico
filme homônimo que vêm despertando fúria e
paixões, além de debates estéticos como há
muito não se via na cena cultural brasileira, principalmente
depois da excelente repercussão no Festival de Cannes.
| Divulgação |
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Paulo
Lins afirma que o olhar interno
é a essência tanto do livro como do filme
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O livro,
por sua vez, se baseia em fatos reais. O próprio Lins viveu
mais de 30 anos na Cidade de Deus. E para quem achou que o filme
era muito violento, o livro é bem mais. São olhares
distintos de formas distintas de expressão. Grande parte
do material utilizado para escrevê-lo, conforme o próprio
Lins descreve na entrevista abaixo, foi coletado durante os oito
anos (entre 1986 e 1993) em que o autor trabalhou como assessor
de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e as
classes populares do Rio de Janeiro, o que influenciou bastante
a linguagem da edição anterior, com cerca 550 páginas.
O autor também é professor e poeta.
Extra Classe Que tipo de diferença existe entre
a nova edição de Cidade de Deus e a anterior?
Paulo Lins Tive muitos problemas com a tradução
do livro no exterior, em países como França, Inglaterra,
EUA, Dinamarca, Suécia devido às gírias e
tudo mais. Além disso o livro era muito grande. Assim,
resolvi fazer algumas adaptações. Outra coisa é
que na época em que escrevi a primeira versão estava
sobre forte influência dos antropólogos e sociólogos,
de uma pesquisa a qual fazia parte e isso acabou afetando o meu
texto. E foi justamente essa parte que eu acabei cortando, diminuindo
consideravelmente o número de páginas.
EC Muitos críticos falam da banalização
da violência nos capítulos iniciais do teu livro.
Isso também foi atenuado na nova versão?
Lins Não. A violência continua toda lá.
Trata-se de realidade e não de banalização.
EC Como autor do livro vê a adaptação
cinematográfica e as polêmicas geradas. Há
muita distância entre o filme e o livro?
Lins O filme guarda o olhar interno de um mundo segregado.
Tanto no livro como no filme não existe ambientação
fora da favela. Este também é o ponto de vista do
livro. E esta é justamente a grande marca da exclusão
social que tanto eu como os diretores e roteiristas quisemos passar.
EC Existe alguma coisa de autobiográfico no livro?
Lins Apesar de ter vivido 30 anos lá, não
tem nada de mim ali. Nenhum alter ego, a não ser o olhar.
EC Depois de toda essa projeção com um
livro de estréia, quais são os planos para o futuro?
Lins Acabei de filmar dois episódios para a
Rede Globo, no Brava Gente, em que escrevi e dirigi. Estou preparando
um longa com o Breno Silveira, dessa vez sobre o universo da Zona
Sul do Rio de Janeiro. E no ano que vem devo concluir um livro
que é ambientado em um manicômio judiciário,
nos anos 30, no bairro do Estácio. A idéia agora
é trabalhar com loucura e crime.
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