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FÓRUM
SOCIAL DA ARGENTINA
O Império contra-ataca
Jéferson Assumção,
especial de Buenos Aires
m
no Fórum Social Temático da Argentina (FSTA), de
22 a 25 de agosto, é de que ele ajudou a consolidar a identidade
do movimento antiglobalização econômica. E
num momento importante. Acirra-se a consolidação
do poder global dos Estados Unidos, dispostos a não deixar
escapar a oportunidade criada pelo 11 de setembro.
A estratégia é reforçar o capitalismo em
todos os cantos do mundo, conforme o próprio presidente
George W. Bush afirmou no último 11 de setembro, no artigo
A Liberdade deve triunfar, publicado no The New York
Times. O texto é uma aula de globalização.
A partir dele, se pode entender com mais clareza o que os Estados
Unidos querem e aonde os movimentos sociais pretendem chegar com
a idéia de um outro mundo possível, mesmo slogan
do FSTA.
Na data em que se lembrava um ano dos atentados de Nova York,
Bush afirmou ver na tragédia a oportunidade de um
grande triunfo da liberdade sobre todos os seus antigos adversários.
Além disso, os Estados Unidos, segundo o presidente, aceitam
de bom grado sua responsabilidade de liderar esta grande missão.
A arma para acabar com a intolerância e universalizar a
paz? O livre comércio, princípio único
e base do sistema que os Estados Unidos supõem ser o melhor
para o desenvolvimento de um mundo justo. Pois é contra
esse mesmo princípio, já esclarecido nos dois últimos
Fóruns de Porto Alegre, que os movimentos sociais avançaram
em Buenos Aires na construção de seu próprio
programa mínimo. Nele, a base não é
o comércio, mas o ser humano.
Antimilitarista, antiglobalização neoliberal e antiimperialista.
Assim se definiram os cerca de oito mil manifestantes que participaram
em Buenos Aires de uma grande assembléia de vizinhos que
diagnosticou a crise da região e as vias de superação.
O tema foi o neoliberalismo, responsável pela degradação
dos países periféricos do capitalismo, por catástrofes
climáticas, pela continuidade da realidade de 840 milhões
de adultos famintos no mundo e 160 milhões de crianças,
o aumento de casos de AIDS na África encurralada
pelo sistema, que não vê no continente nenhuma oportunidade
de negócios e pelo crescimento assustador
da população pobre na Argentina. Há 25 anos,
os argentinos pobres eram 6% da população. Hoje,
53%.
Participaram pessoas de todo o continente e até de países
europeus. Mas foi da Bolívia uma das mais importantes presenças.
O deputado Evo Morales, cocaleiro boliviano que quase foi eleito
presidente de seu país nas últimas eleições,
demonstrou ser um líder latino-americano que desponta como
alternativa política nos Andes. Suas conferências
foram tão concorridas quanto as dos candidatos da esquerda
argentina para as próximas eleições, marcadas
para março de 2003. Elisa Carrió e Luiz Zamora são
os dois grandes nomes dos movimentos populares e que personificam
hoje anseios de boa parte da população que, em dezembro
de 2001, derrubou o ex-presidente Fernando De La Rúa.
Luiz Zamora, um intelectual, discursa com a mesma desenvoltura
tanto pela filosofia política quanto pelas experiências
mais recentes de autogestão, economia solidária
e democracia participativa em prática em toda a Argentina,
país que hoje é um laboratório de sobrevivência
ao neoliberalismo. Um desses movimentos é o chamado Barrios
de Pié, com boa presença no Fórum. Ligados
à Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), os comitês
Barrios de Pié estão presentes em praticamente todas
as cidades argentinas e organizam a população. Ajudam
a politizar a indignação para que ultrapasse o mero
espontaneísmo e o assembleísmo.
Outra parte dos movimentos sociais que demonstraram sua forma
de luta no Fórum da Argentina são os piqueteiros.
Formados por grupos de desempregados, são grande fonte
de dor-de-cabeça do governo Duhalde. Só este ano,
eles fizeram mais de 800 protestos na Grande Buenos Aires, o que
dá uma média de cerca de três piquetes diários.
Juntam-se a esses movimentos os trabalhadores, organizados, a
maioria, na CTA. Essa é a única central que tem
permissão dos piqueteiros para participar das mobilizações.
O grande desafio da CTA, agora, é juntar os pequenos partidos
de esquerda e, aos moldes de sua irmã no Brasil, a Central
Única dos Trabalhadores (CUT), apoiar um candidato de consenso
entre os movimentos sociais para a presidência. O provável
candidato sai dos nomes de Eloisa e Luiz Zamora. Quem sabe, até,
os dois juntos. Tentarão barrar a ascensão de Carlos
Menen, que quer voltar ao poder, e de Rodrigues Sá, que
está nas frentes nas intenções de votos.
| O
Brasil é o norte |
Uma
coisa é certa. Todas as atenções políticas
tanto de Argentina, como Uruguai, Paraguai - agora com novo
risco de golpe - e demais países sul-americanos, estão
voltadas, é claro, para seu gigante vizinho. A esquerda
brasileira e seus símbolos PT, CUT e MST são
cultuados e servem de inspiração para outros
países. Nas salas das conferências da Universidade
de Buenos Aires (UBA), onde ocorreu o Fórum, era visível
o poder da mística dos brasileiros, ao serem anunciados
integrantes desses movimentos. Foram longamente aplaudidos
por uma população que se emociona ao ver as
boas chances de vitória do PT nas eleições
brasileiras. Luiz Zamora, por exemplo, afirmou que um sucesso
de Lula teria um impacto regional inegável, e, quem
sabe, até mundial.
O sindicalista uruguaio Lalo Fernandes expressou emocionado
sua esperança ao afirmar que uma vitória
do PT seria um desafio para toda a região. Foi
esse o fio condutor dos debates na Argentina: a certeza de
que o Brasil tem um papel importante a desempenhar no continente,
caso se concretize uma vitória da esquerda. Também
daria impulso para a realização de um antigo
sonho latino-americano. A união dos países do
continente seria a saída na busca de construção
de um bloco independente, que poderia estar à altura
do que o sindicalista argentino Pedro Waresco chama de o
papel civilizador que a América Latina pode desempenhar.
Contra a Alca, a saída, na opinião de consenso
dos integrantes do Fórum, só pode ser a união
dos mais fracos. Por isso, as eleições no Brasil
interessam não só aos brasileiros como a nossos
vizinhos e aos investidores internacionais. Uma eventual guinada
do modelo econômico brasileiro poderia ter implicações
imediatas nos países ao redor e contagiar toda a América
Latina. As conseqüências disso para os interesses
estadunidenses poderiam ser importantes. E não se sabe
que tipo de reação os EUA colocariam em prática
na região. O Plano Colômbia, assim como os planos
Puebla Panamá e o Pacto Andino são formas de
estender os tentáculos dos Estados Unidos pela América
do Sul, caminho que o presidente Bush vem demonstrando querer
seguir.
Ainda contra isso, o Fórum da Argentina consolidou
também a idéia de que as lutas sociais em países
diferentes fazem parte da mesma disputa global contra um modelo
que também age e tem conseqüências globais.
Enquanto na América Latina os esforços estão
concentrados no combate à Alca (cerca de 16 milhões
de brasileiros participaram do plebiscito de 1º a sete
de setembro, e que culminou com o Grito dos Excluídos),
na Ásia a prioridade é barrar o processo crescente
de militarização, intensificado pelos Estados
Unidos. Na Europa, o movimento enfrenta o reaparecimento de
ideologias fascistas, decorrente do fracasso do modelo neoliberal;
na África, a exclusão de milhões de seres
humanos exige a formulação de alternativas políticas
e econômicas imediatas. É por isso que, depois
desse fórum sobre o neoliberalismo, serão realizados
outros encontros temáticos, um em Israel, sobre a paz,
outro em Florença, Itália, chamado Fórum
Social Europeu, e outro na Índia. Todos serão
preparatórios para o encontro de janeiro em Porto Alegre,
onde ocorrerá nova rodada de produção
de alternativas. |
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