|

De volta para o futuro
Nei
Lisboa
Que
a coluna deste mês sirva apenas para desejar a todos uma
ótima eleição. Não quero influenciar
ninguém nessa hora em que a reflexão íntima
deve pesar acima de tudo. Aliás, em nome da imparcialidade,
ofereço espaço para o contraditório em episódio
recente e pouco conhecido da campanha eleitoral o caso
da jornalista Renata Giraldi e da visita do candidato José
Serra a Palmas, capital do Tocantins.
No tarde do dia 20 de setembro, matéria assinada pela repórter
e veiculada no site da Agência Estado, com o horário
de 13h07, descrevia em detalhes o sucesso da visita de José
Serra à cidade a sua participação
em carreata por bairros pobres, pela avenida principal, o comício
no qual reunira cerca de vinte mil pessoas. Apesar do visível
empenho de Renata, no entanto, a extensa reportagem esteve disponível
por pouco tempo. No horário de 17h40, surgiria outra matéria
com a asinatura da mesma repórter, a qual aqui transcrevo:
A assessoria de campanha do candidato do PSDB à Presidência,
José Serra, informou nesta sexta-feira que foi cancelada
a visita dele a Palmas onde participaria de uma carreata e comício.
A explicação da assessoria é que o avião
de Serra não consegue levantar vôo de São
Paulo em função das fortes chuvas que caem na cidade.
Capisce?
O cineasta Jorge Furtado, que trouxe à baila o assunto
através de e-mail distribuído e muito bem documentado,
qualifica-o como uma evidência extrema do jornalismo
de oportunidade, o que suspeito seja um eufemismo para a
publicação de mentiras em troca de mufunfa. Jorge,
cuidado com a precipitação. Aparentes paradoxos
podem derivar de singelos fenômenos naturais. Ou mesmo de
preferências exóticas do divino, haja visto a Nossa
Senhora dos Vidros do Brasil. Enfim, é aqui que pretendo
oferecer, em defesa da Renata Giraldi e da Agência Estado,
ao menos três hipóteses que desfazem a inconsistência
entre as matérias veiculadas.
A) Qualquer um que assistiu aos episódios da série
De volta para o futuro sabe que um simples raio pode
fornecer a propulsão necessária para uma viagem
no tempo. Se no caso do filme o veículo era um carro, o
que dizer do avião do Serra, estacionado no aeroporto de
Cumbica em meio a uma tempestade? Uma descarga elétrica
de exata magnitude poderia levar o aparelho ao passado do mesmo
dia em Palmas, e no seu retorno um outro (ou o mesmo) raio talvez
apagasse tudo o que acontecera, exceto pela matéria da
Renata, escrita durante o comício e guardada no bolso de
um assessor do candidato. O que é que a matéria
estava fazendo no bolso do assessor? Ora, não compliquem.
B) Estar ou não em determinada hora em algum lugar pode
ser bastante relativo. O próprio José Serra já
deu mostras disso, estando e não estando na posição
de candidato do governo durante a campanha. Mas se acham que a
hipótese não se sustenta sem uma referência
corpórea, um sósia ou assemelhado que possa ter
sido visto e confundido pelos habitantes de Palmas, aviso que
a região é dada a ocorrências ufológicas
e místicas de espécies variadas. E quem pode dizer
onde andará o ET de Varginha?
C) Não é bem uma hipótese que vá inocentá-la,
mas pode ao menos gerar alguma compaixão reabilitadora.
No mesmo dia, com o horário de 17h41, portanto um minuto
depois da notícia do cancelamento da viagem de Serra a
Palmas, a Agência Estado publicava a seguinte notícia:
Mulher é presa com 1.036 pedras de crack.
Pô, pega leve, Renata.
Como eu dizia no início, ótima eleição
para todos. E, olha: nos candidatos que eu vou votar, quando se
noticia que chegaram lá, é porque já estavam
a caminho há muito tempo.
|