A Paranóia
como estratégia
There is a strong sense that America has the opportunities,
obligations and threats associated in the past with empires:
that it can set the rules that govern international relations,
while at times operating outside them itself; but also that
ultimately it alone can enforce those rules, a rule which makes
it the prime target of anyone who dislikes them
The Economist, 5 de julho de 2002
José
Luis Fiori *
m
ano depois, já foi dito quase tudo sobre o 11 de setembro
de 2001. Artigos e mais artigos, livros, análises rigorosas,
impressões, explicações, lembranças
e uma longa discussão sobre seu impacto mundial. À
primeira vista, uma ruptura radical com o mundo projetado pela
era Clinton, onde a utopia da globalização
se completava, na década de 90, com o sonho de um mundo
sem fronteiras nem guerras e de uma sociedade civil mundial,
governada por uma democracia cosmopolita. À medida que
o tempo passa, contudo, fica cada vez mais claro que os atentados
de Washington e New York cumpriram um papel inesperado, numa
luta de poder dentro do establishment da política externa
norte-americana, que já vinha sendo travada desde o fim
da Guerra Fria. E a verdade é que, nesta batalha, os
atentados acabaram dando ganho de causa (pelo menos até
agora), aos interesses e idéias consagrados pela nova
Doutrina Bush, uma estratégia internacional que foi desenhada
pela primeira vez, em 1989, por um grupo de trabalho liderado
pelo atual vice-presidente, Dick Cheney, ex-Secretário
de Defesa do governo do velho Bush. Na sua primeira versão,
a nova doutrina propunha, como novo objetivo central da política
externa americana, impedir o surgimento depois do fim
da União Soviética de qualquer nação
ou aliança de nações que pudesse rivalizar
com os Estados Unidos, que já dispunham, naquele momento,
de 725 bases militares e 300.000 soldados, fora do território
americano. Estas idéias foram transitoriamente engavetadas
durante os governos democratas da década de 90, mas foram
retomadas com a volta dos republicanos e da dupla Bush/Cheney.
Os atentados e a transformação do terrorismo no
novo inimigo bipolar dos Estados Unidos não alterou o
objetivo inicial da nova doutrina, mas modificou substancialmente
o seu encaminhamento estratégico. A própria definição
do inimigo foi alterada três vezes, pelo menos, depois
do 11 de setembro: primeiro foram as redes terroristas
, depois o eixo do mal, e, finalmente, os estados
produtores de armas de destruição em massa,
categoria que inclui neste momento quase todos
os aliados americanos na guerra do Afeganistão. O novo
adversário não é uma religião, ideologia,
nacionalidade, civilização ou um estado, e pode
ser redefinido a cada momento pelos próprios Estados
Unidos, sendo portando variável e infinitamente
elástico. Mas, por trás desta elasticidade,
o que está sendo proposto é um projeto de contenção
universal junto com a defesa de um novo direito exclusivo
dos Estados Unidos: o direito de fazer ataques preventivos
para mudança de regimes, em países que protejam
terroristas ou produzam armas de destruição de
massa, ou, o que é mais insólito, em países
que os Estados Unidos considerem que algum dia possam vir a
produzir ou proteger terroristas.
A novidade estratégica, entretanto, não pára
por aí. A natureza invisível e onipresente do
novo inimigo permitiu uma outra redefinição aparentemente
mais sutil, mas absolutamente crucial. Donald Ramsfeld, atual
Secretário de Defesa dos Estados Unidos, sintetizou a
novidade num artigo publicado no Foreign Affairs de maio/junho
de 2002: We decided to move away from the old threat-baseds
strategy that had dominated our countrys defense planning
for nearly half a century and adopt a new capabilities-based
approach: one that focuses less on who might threaten us, or
where, and move on how we might be threatened and what is needed
to deter and defend against such threats. Instead of building
our armed forces around plans to fight this or that country,
we need to examine our vulnerabilities and then fashion our
forces as necessary to deter and defeat that threat.
O novo inimigo dos Estados Unidos, portanto, já não
seriam mais uma nação ou aliança de estados
territoriais, nem mesmo uma rede terrorista internacional, seria
as próprias vulnerabilidades dos norte-americanos.
Mas quais são estas vulnerabilidades? Quem as define?
Em que campo se situam ? O próprio Rumsfeld tenta esclarecer
o problema ao defender, no mesmo artigo, a construção
de um sistema inexpugnável contra qualquer coisa que
possa ameaçar os americanos; contra o desconhecido,
o incerto, o inesperado. Uma ameaça que pode vir
do espaço e ser nuclear, mas também pode ser cibernética,
biológica, química e pode estar no ar, na terra,
na água, nos alimentos, enfim em centenas de veículos
ou lugares diferentes, porque é pouco provável
que alguém queira rivalizar ou competir com os Estados
Unidos numa guerra convencional. Como a assimetria é
enorme, os adversários só poderiam enfrentar os
americanos utilizando sua própria tecnologia, de maneira
inesperada. Neste sentido, tudo pode se transformar numa arma,
principalmente as inovações tecnológicas
dos próprios americanos. E tudo pode se transformar num
alvo, em particular as coisas mais prezadas e desprotegidas
dos norte-americanos. Deste ponto de vista, portanto, tem razão
Donald Rumsfeld: a arma dos inimigos será muito provavelmente
de origem norte-americana e seus alvos não-convencionais
serão vulnerabilidades de toda e qualquer
natureza, que os próprios americanos terão que
descobrir. É isto que explica a proposta do governo Bush
de criar uma rede cidadã de espionagem, constituída
por milhões de homens e mulheres comuns que gastariam
parte dos seus dias controlando e vigiando seus próprios
vizinhos. E é isto que explica, também, um ponto
muito estranho do plano contra ataques terroristas, enviado
ao Congresso pelo presidente George W. Bush, no mês de
junho de 2002, propondo a criação de equipes
vermelhas que planejariam ataques contra os Estados Unidos,
pensando como terroristas, para descobrir os pontos fracos da
segurança americana. É como se a escalada
aos extremos de que nos fala Von Clausewitz, na sua teoria
da guerra, tivesse chegado ao limite da loucura com o desaparecimento
de adversários competitivos, e os Estados Unidos estivessem
se transformando em inimigos de si mesmos. Sim, porque se as
equipes vermelhas cumprirem seu papel com eficiência,
para não desperdiçar o dinheiro do contribuinte
norte-americano, elas terão por obrigação
que competir e superar a própria segurança americana.
Mas, atenção, neste caso as equipes vermelhas
poderão descobrir novas vulnerabilidades antes da própria
defesa americana, e não é impossível imaginar,
pelo menos no campo da especulação, que, em nome
da eficiência e do cumprimento do seu objetivo patriótico,
as equipes vermelhas acabem cometendo o erro de
atacar os próprios Estados Unidos.
* Cientista
Político