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Política
americana
Luis
Fernando Verissimo
A
centro-esquerda manteve o poder dort, dort (ali, ali)
na Alemanha, com a vitória do SPD de Schroeder. Já
tinha vencido, recentemente, na Suécia. O mundo não
está, afinal, despencando para a direita. Talvez só
deslizando. Qualquer análise de tendências eleitorais
na Europa tem que descontar a questão dos imigrantes, que
atravessa fronteiras políticas e fura interpretações
ideológicas. Nem todo o voto antiimigrante é fascista
e nem todo voto na centro-esquerda é necessariamente tolerante
com os ex-colonizados de várias cores que hoje enchem as
calçadas das ex-metrópoles, oferecendo Vuitton falso
e sentimento de culpa. Com relação à invasão,
direita x esquerda, na Europa, é uma briga entre xenófobos
e apenas preocupados. De qualquer maneira, na Suécia e
agora na Alemanha a maioria preferiu manter a cabeça, mesmo
precariamente, no lugar.
Mas toda a política no mundo se tornou supérflua
com a decisão americana de assumir a sua prepotência
e julgar o resto da humanidade não pelos desafios que possa
representar a seus interesses, o que é a função
da política externa de qualquer país, mas pela sua
posição diante da prepotência assumida. Uma
Fortaleza América declarando abertamente que o seu ultraje
lhe dá o direito de atacar quem quiser, quando quiser e
determinando que quem não é cúmplice é
inimigo é, em termos apenas de fria curiosidade histórica,
uma potência inédita. A Roma imperial, a Espanha
das conquistas, a França de Napoleão, a Alemanha
nazista e as rússias do Stalin não são precedentes
adequados para os Estados Unidos propostos por Bush. Nenhuma tinha
a superioridade técnica para impor sua vontade com a mesma
força, ou uma cultura nacional tão impregnada pela
idéia da própria excepcionalidade. Na medida em
que é a reação dentro dos Estados Unidos
à mistura de paranóia e chauvinismo que se seguiu
ao 11/9, e que ameaça tanto leis e direitos internos quanto
presumidos inimigos externos, que determinará onde acaba
esta loucura, a política americana passou a ser a única
que conta. E todos os outros fatos políticos do mundo adquiriram
a pouca importância relativa de uma eleição
para vereador em Lá Vai Bola, município da Grande
Cafundó.
Ou então é o contrário: toda a política
do mundo passou a ser, de um jeito ou de outro, política
americana. Até a de Cafundó. Mesmo a pálida
reação do Schroeder à compulsão americana
de bombardear o Iraque ajudou na sua vitória. E basta ler
o que escreve a respeito de uma possível vitória
do PT nas eleições presidenciais brasileiras a imprensa
reacionária americana, e seus repetidores aqui, para concluir
que poderemos muito bem estar elegendo um alvo natural para futuro
ataque especulativo. Não do capital financeiro contra o
real, mas dos B-52 contra Brasília e os presumíveis
locais onde o Lula estará construindo suas bombas nucleares
com o dinheiro do narcotráfico.
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