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EC -
Aqui no Brasil fala-se muito da apatia do povo, principalmente
das novas gerações que estão chegando sem entusiasmo, treinadas
no individualismo, sem esse espírito de classe.
McLaren
- Nos Estados Unidos há também essa atitude resignada
frente à mistificação de que como a economia está florescendo,
como nunca se vendeu tanto e o nível de emprego ainda está bom
- embora sejam, na sua maioria, empregos temporários. As pessoas
acham que, a fim de se manter no topo, têm de se resignar. E isso
acontece como? Diminuindo as demandas nos sindicatos, pensando
que devem se resignar pelo fato de a força de trabalho estar perdendo
poder. Apenas nas universidades está havendo uma certa reação,
e isso é otimista. Mas, fora isso, vejo o que vocês vêem aqui:
resignação. Os ativos, detidos por 358 bilionários no mundo, excederam
as rendas agregadas de países com 45% da população do mundo, exacerbando
a divisão ricos e pobres da forma mais grotesca imaginável. Os
norte-americanos reclamam da pornografia, mas para mim isso é
uma grande pornografia. Eu me deprimo muito quando olho para esses
números, porque fico pensando que esses ricos odeiam os pobres.
Essa burguesia não suporta nem a visão desses pobres e se irrita
quando os vê. Eles não enxergam a própria responsabi-lidade e
não se sentem respon-sáveis pela pobreza que eles estão gerando.
EC -
Nesse caso, o que os educadores devem fazer? Qual é o melhor caminho
para abreviar um pouco esse fosso?
McLaren
- Eu não posso estar no lugar do outro, mas posso vê-lo
dentro de mim e também ver-me nele. Mas eu nunca presumiria falar
pelo outro, que é perfeitamente capaz de fazê-lo por si mesmo.
Eu só posso tentar criar condições para que os outros falem com
suas próprias vozes, que não necessitam ser filtradas por mim.
Mas se eles falarem por suas próprias vozes não há garantia de
que sejam ouvidas. Estou tentando é educar os ouvidos da classe
dominante branca para que saiba escutar. Não estou tentando educar
os olhos e os ouvidos dos oprimidos, por que estes só podem educar
a mim. Não tenho como falar por eles, mas posso falar com eles.
Isso é muito importante: falar em solidariedade com o oprimido
e não falar por ele.
EC -
Na prática, o que o senhor recomenda aos educadores a partir da
teoria do multiculturalismo revolucionário?
McLaren
- Há várias coisas, mas em primeiro lugar eles deveriam
relacionar os processos de grupo que ocorrem dentro da sua sala
de aula com o processo capitalista. Precisam desenvolver uma práxis
dialética que permita fazer uma relação entre a vida cotidiana
e esses processos de globalização. Também devem ser capazes de
auxiliar os alunos a ver essa dialética e tornar-se pesquisadores
desse cotidiano. Assim, eles podem desenvolver um senso de responsabilidade
pelos seus desejos, sonhos e ações. Mas a menos que eles entendam
como os sonhos e desejos são produzidos - por meio da percepção,
racionalidade, emoção - é muito difícil tomar a ação política.
Precisam usar as experiências de vida de seus alunos e da comunidade
como base do currículo. E o maior desafio não se dá entre os estudantes,
mas entre os pais. Ouvi muitos dizerem que não queriam saber desse
papo de revolução. Querem que eu simplesmente ajude seus filhos
a progredir, conquistar. É claro que temos de ajudá-los a ser
bem-sucedidos, enquanto por outro lado os capacitamos a estar
dispostos a mudar. Eu seria extremamente hipócrita se dissesse
que não quero meus alunos bem-sucedidos. Mas a consciência é imprescindível
para a prática revolucionária, embora ela (a consciência) não
garanta nenhum resultado de mudança. E tampouco de sucesso.
Dóris
Fialcoff
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