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De
dentro da escuridão
Relato
jornalístico do cotidiano do São pedro, feito há
25 anos, ajudou a derrubar os muros da instituição
Renato
Dalto
A noite
cai sobre o grande hospi tal do bairro Partenon, em Porto Alegre.
No alojamento, pacientes passeiam lado a lado mas mergulhados
na profunda solidão dos próprios delírios. Sussurram a ninguém
frases desconexas:
- E a gente
começa a cantar: felicidade...
- Canta baixinho
senão eu te dou uma injeção!
- Paizinho....
- Me matem!
Podem me dar choque elétrico!
- Eu não sou
louco.
Essa
noite jamais será esquecida pelo jornalista Sérgio Capparelli.
Está registrada na página 10 do jornal Folha da Manhã do dia 30
de outubro de 1974, a segunda reportagem de uma série de cinco.
A série foi o marco para uma discussão que hoje ganha força: fazer
do Hospital Psiquiátrico São Pedro um lugar onde a doença mental
não seja segregada por muros, celas e tratamentos marcados pela
dor e o sofrimento. O repórter decidiu vivenciar a experiência
de um interno e propôs a matéria ao jornal. Capparelli foi internado
por um colega a pretexto de ter problemas mentais. Influenciado
pela leitura dos anti-psiquiatras, uma corrente alternativa da
psiquiatria cultuada especialmente na década de 70, queria justamente
fustigar o que se discute hoje: por que segregar a doença mental,
quais os tênues limites entre sanidade e loucura?
Passados 25
anos de uma reportagem que entrou para a história do jornalismo
gaúcho, a questão ganha força justamente num momento em que se
implanta o projeto “São Pedro Cidadão”, uma série de iniciativas
para humanizar o tratamento da saúde mental. Olhando para o passado,
Capparelli põe em dúvida a qualidade da reportagem que fez. “Não
é uma grande reportagem, mas foi oportuna porque levantou essa
discussão sobre abrir as portas dos manicômios”, diz. Na época,
ele havia voltada da Europa, onde morou na Alemanha e Inglaterra.
Saiu de casa permeado pelo espírito dos tempos, uma mochila
nas costas e passagem só de ida. Acompanhou algumas experiências
européias, onde nos manicômios prosperavam os chamados “coletivos”,
em que os internos geriam o próprio hospital. Leu “A Morte da
Família”, de Ronald Laing, e outros autores como David Cooper.
Estava impregnado pela visão de uma psiquiatria anti-convencional,
que não demarca uma fronteira ortodoxa entre normalidade e loucura.
Na volta a
Porto Alegre, foi trabalhar na Folha da Manhã e propôs a matéria
sobre o São Pedro. Um colega apresentou-o com uma história: estava
em surto devido a uma frustração amorosa. Capparelli lembra detalhadamente
como entrou no hospital: tinha cabelos compridos e barba grande,
vestia calça jeans remendada com couro e uma jaqueta do exército
israelense e trazia o livro “Tratado de Magia Prática” debaixo
do braço. Passou pela triagem, ganhou diagnóstico de maníaco
depressivo e o número de registro 013890-7. O HSP estava superlotado,
com 5 mil pessoas. E ele foi para a ala mais pesada, disposto
a descrever os horrores que esperava ver. E viu: “Ele parecia
um animal acuado quando a enfermeira comprimiu o êmbolo fazendo
saltar umas gotas de líquido transparente. As pessoas normais
que o seguravam firmaram os pés no cimento e José do Patrocínio
disse mais uma vez que não queria ser dopado. A enfermeira disse
“tanto pior para ti”, e localizou com agulha as veias azuladas
que lhe sulcavam o moreno do braço”.
É verdade
que, hoje, muita coisa mudou no São Pedro. Circulam pelo hospital
882 internos (752 moradores e 130 pacientes). No último dia
29 de junho, quando o hospital completou 115 anos, foram desativadas
as celas onde os pacientes em surto eram isolados e começou a
se buscar uma nova relação entre o manicômio e a sociedade. “Estamos
trazendo as pessoas aqui para dentro, fazendo atividades com corais
de escolas, com o pessoal do carnaval, com o estágio voluntário
e fazendo um trabalho intenso no bairro por meio do conselho do
Orçamento Participativo”, explica a psicóloga Eva Isabel Tejada,
do setor de projetos especiais do HSP. Sérgio Capparelli, hoje
professor de comunicação da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, olha com simpatia todo esse movimento. A loucura, diz
ele, pode estar sempre mais próxima do que se imagina. Pode estar
dentro de casa, e varia de acordo com os padrões que se impõe
à normalidade.
No cotidiano
da Irmã Paulina, que cuida doentes mentais do HSP desde 1951,
acumularam- se algumas imagens terríveis, como os internos chegando
ao hospital amarrados e empilhados na boléia de um caminhão. Ela
embarga a voz ao lembrar. “A primeira coisa que providenciávamos
era a comida e um banho”. Porque aí já não se sabia se era loucura
gerando a miséria humana ou a miséria humana gerando a loucura.
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30
horas de internação
A
irmã Paulina lembra como chegavam os internos ao São Pedro.
“Vinham deitados na carroceria de um caminhão, com camisa
de força e amarrados. Imagina como essas criaturas chegavam
aqui”, descreve, lembrando que, na década de 50, havia pessoas
vindas do interior ou das ruas da capital. Todos ganhavam
o São Pedro: mendigos, alucinados, gente abandonada nas
ruas. Eram epopéias marcadas pela dor.
Agarrem
ele! Pisem no peito dele para firmá- lo contra o chão!
Isso, agarrem no pescoço, isso, no pescoço! Capparelli descreve
assim a maneira com que dominaram um paciente. Durante
as 30 horas que permaneceu no São Pedro, tinha claramente
o objetivo de mostrar que a psicologia tradicional fracassou.
Na quarta reportagem da séria, demonstrava números assustadores:
“O Estado tem 700 mil neuróticos, 500 mil oligofrênicos,
70 mil psicóticos e 175 mil alcoólatras”. Isso há 25 anos.
Andando pelo pátio do São Pedro, a psicóloga Eva Isabel
Tejada olha para os muros e reflete: “O que as pessoas
têm é medo da própria loucura, medo do contágio, e por isso
segregam o diferente”. Derrubar essas barreiras será, a
partir de agora, uma tarefa cotidiana. Terão que trabalhar
com os familiares dos internos, com os setores da comunidade,
com atividades educativas. Agora em outubro ocorre a Semana
da Criança do HPSP. Haverá brincadeiras, música, corte
de cabelo, orientações sobre saúde bucal, teatro de rua
aberto a todo o público e escolas do bairro. Tudo para
inverter uma lógica sem resultados: a dor não traz de volta
a sanidade mental.
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