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A guerra
dos números
Disputa na aprovação
do Orçamento 2000 trouxe de volta as brigas de campanha
e as discussões sobre participação popular
Gilson
Camargo
A definição
da proposta do orçamento para o estado no ano 2000 reacendeu o
clima de disputa eleitoral no Rio Grande do Sul, com direito a
mobiliza-ções, discursos inflamados e denúncias entre deputados
de oposição e a bancada governis-ta na Assembléia.
A proposta
inicial, elaborada através do Orçamento Participativo, foi entregue
ao Legislativo em 15 de setembro. De 13 a 26 de outubro, o orçamento
será submetido às audiências públicas da Comissão de Finanças
e Planejamento da Assembléia. Num cronograma paralelo, de 1
a 25 de outubro, o orçamento passa pela avaliação das assembléias
populares municipais promovidas pelo Fórum dos Conselhos Regionais
de Desenvolvimento (Coredes). Depois disso, o OP deverá ser votado
em plenário, até o final de novembro, e devolvido ao Executivo.
“O orçamento é uma peça de ficção no que diz respeito ao incremento
da receita com aumento da arrecadação de impostos, além de não
especificar as prioridades eleitas pela população”, ataca o líder
da bancada do PMDB, deputado Mário Bernd, que aposta no “Fórum
Democrático” como instrumento de oposição ao Orçamento Participativo.
A nova consulta, avisa o parlamentar, vai inserir emendas ao projeto
do Executivo.
A
elaboração da proposta orçamentária mobilizou 190 mil pessoas
em 644 assembléias do Orçamento Participativo, realizadas nos
467 municípios do Estado ao longo de cinco meses - de março a
julho. Entregue no dia 15 de setembro pelo governador Olívio Dutra
ao presidente da Assembléia Legislativa, deputado Paulo Odone,
o processo - de quase duas mil páginas - apresenta contornos de
ineditismo por ter sido elaborado, pela primeira vez na história,
com a participação direta da população nas assembléias do Orçamento
Participativo. E prevê dotações orçamentárias para áreas como
Educação e Saúde de acordo com os percentuais previstos na Constituição.
Totaliza R$ 8,8 bilhões, dos quais R$ 751 milhões se destinam
a investimentos.
Os principais
gastos, incluindo serviços, projetos e investimentos, elegem
a Educação como prioridade absoluta no próximo exercício, com
uma dotação orçamentária de R$ 1,913 bilhão (valor que corresponde
a 35% da receita líquida de impostos, percentual estabelecido
pela Constituição Estadual); a Agricultura, com R$ 222,6 milhões
(apresenta um crescimento real de 50,5% sobre o orçamento para
o setor em 1998); e a Saúde: R$ 416 milhões ou 10% da receita
tributária líquida, também conforme o preceito constitucional.
Bernd não vê novidades no orçamento e argumenta que esses percentuais
são definidos pela Constituição, embora nunca tenham sido cumpridos
pelos governos anteriores.
“Esta proposta
vem embebida, encharcada e fecundada pela participação popular.
Contém a esperança e o sonho de participação de milhares de pessoas.
Esperamos que não seja transfigurada pela Assembléia Legislativa,
que é um poder legítimo e insubstituível. É a melhor proposta
de orçamento que o Estado já teve em sua história, mas ainda
não é perfeita”, advertiu o governador Olívio Dutra ao entregar
a Odone o documento recém finalizado pelo Conselho Estadual do
OP.
O repasse
do orçamento para a Assembléia mobilizou militantes dos partidos
da coligação em um ato público misto de comemoração e receio
de que as decisões do Orçamento Participativo viessem a ser descaracterizadas
por emendas dos parlamentares. “A oposição não entende que, nesse
primeiro ano, tivemos que administrar com um orçamento antidemocrático”,
argumentou o deputado Vieira da Cunha (PDT) de cima do carro
de som estacionado em meio à multidão, em frente ao Piratini.
Na fachada
do prédio da Assembléia, assessores de deputados de oposição
estenderam uma enorme bandeira do PMDB na janela e receberam
vaias. Capaz de interromper o ato por alguns minutos, a provocação
confirmava a disposição do PMDB e das demais bancadas de oposição,
de combater o Orçamento Participativo através do Fórum Democrático
Permanente, instalado no dia 02 de agosto durante um encontro
entre deputados estaduais e federais e o ex-governador Antônio
Britto. A partir daquela data, o Fórum passaria a ser o cavalo-
de-batalha da oposição na tentativa de descaracterizar a proposta
orçamentária como resultado do Orçamento Participativo.
A assessoria
técnica do PT na Assembléia e o deputado Ronaldo Zulke cobram
transparência da Casa em relação às despesas geradas pelo Fórum
depois que um documento com o timbre do PMDB de Sapucaia do Sul
circulou com uma declaração atribuída ao prefeito Valmir Martins,
de que “o Fórum Democrático é uma bandeira de luta do PMDB em
contraponto ao Orçamento Participativo, aparelho partidário do
atual governo”. A resposta da bancada governista veio na forma
de um pedido de informações à Mesa sobre as despesas geradas pelo
Fórum. “Uma análise dos gastos da Assembléia no sistema de administração
financeira do Estado revela que foram gastos no primeiro semestre
deste ano R$ 1,63 milhão em publicidade, a maior parte para a
veiculação das propagandas do Fórum Democrático; e R$ 3,25 milhões
em outros serviços de comunicação, rubrica na qual estão incluídas
as contratações de rádio e demais serviços de comunicação”, denunciou
Zulke. Além dos mais de R$ 4,8 milhões gastos em publicidade
e contratações de emissoras de rádio sem licitação para cobrir
as reuniões, segundo o governo, cada Corede teria solicitado R$
10 mil (são 22 Coredes ao todo) para a realização das audiências
públicas. “As despesas da Assembléia são divulgadas on line no
computador de cada deputado e as despesas com os Coredes são
uma resolução da Mesa. Se tiver que dar R$ 10 mil e depender da
minha vontade, vamos dar, porque esse orçamento vai ser o mais
autêntico e mais participativo”, argumenta o deputado Paulo
Odone.
Os deputados
de oposição, questionam a ausência de detalhamento das obras
no projeto e a expectativa de receita com base no aumento da
arrecadação de impostos, entre outras fontes. O governo investe
na redução do déficit (despesa maior que a receita) de R$ 1,2
milhão herdados do governo anterior para R$ 387,8 milhões. As
receitas, de R$ 8,424 bilhões da administração direta, mais
transferências de R$ 388 bilhões para a administração indireta,
totalizam o orçamento de R$ 8,8 bilhões para o ano 2000. A previsão
é de que a diferença entre receita e despesa seja coberta pelo
aumento de 9,5% na arrecadação de ICMS, conforme projeções da
Secretaria da Fazenda e do Trabalho. E prevê a redução de 13%
para 5% no comprometimento da receita líquida com pagamentos da
dívida pública.
Bernd também
acusou o governo de “omitir” do orçamento as prioridades definidas
pelo OP. Segundo ele, uma escola técnica reivindicada pela população
em Dom Pedrito não constaria no documento. O peemedebista lança
mão da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para cobrar do governo
a lista de prioridades definidas pela população no orçamento e
acredita que haveria uma manobra por parte do governo. Para Décio
Favaretto, coordenador do Conselho Estadual do Orçamento Participativo
(COP) o orçamento do Estado deve ficar acima da disputa entre
governo e oposição. “A elaboração do orçamento é uma questão que
envolve a sociedade e vamos cobrar isso do governo.
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