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A
cidadania ameaçada
Paulo
Cesa *
As grandes
cidades brasileiras hoje estão praticamente inabitáveis, muitas
delas assemelhadas a São Paulo, que possui um habitat construído
denso e verticalizado. Porto Alegre vem de algum modo resistindo.
A capital dos gaúchos é diferente das demais cidades do país.
Optou por um crescimento controlado, limitando índices construtivos
e a altura dos seus edifícios. O porto-alegrense tem uma estima
especial por seus bairros e ruas, onde há uma presença intensa
da vegetação no ambiente construído, condições razoáveis de insolação
e aeração e uma certa coexistência de arquiteturas do passado
e do presente. E isto tudo implantado num sítio natural raro,
às margens do Guaíba. O cidadão porto- alegrense está referenciado
a esta configuração de paisagem onde se dá a fruição da sua vida.
Há um sentimento de identidade e cidadania ligados a este ambiente.
Estes valores creditaram a Porto Alegre o título de capital brasileira
com melhor qualidade de vida do país.
Entretanto,
o que propõe o 2.º Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental
de Porto Alegre (PDDUA), em análise na Câmara de Vereadores? Propõe
uma quebra de escala violenta, com o aumento de índices construtivos
e edifícios com 45 metros para a cidade conformada entre o Guaíba
e a 3.ª Perimetral, a chamada Cidade Formal, e nos Corredores
de Centralidade em direção a Alvorada. A prefeitura pretende
realizar a venda de índices através da Lei do Solo Criado para
fazer caixa e, para isto, vai praticamente dobrar os índices
atuais, disponibilizando um grande estoque de metros quadrados.
Um adensamento que a infra-estrutura da cidade não comporta e,
na outra ponta (curiosamente), nem existe demanda, pois o crescimento
populacional de Porto Alegre é vegetativo.
Adensar mais
para quê, se já temos no trânsito engarrafamentos que chega?
Isto nos remete para a construção de um habitat massificado, árido
e insalubre. O impacto ambiental será negativo. A rua, espaço
da cidadania, deverá desaparecer. Cidadania entendida como o
direito de viver na pólis, o direito à interação política e cultural
no espaço urbano, ao habitat qualificado. A cidade espelha hoje
um habitat de relativa qualidade porque adotou padrões internacionais
para definir densidades, equipamentos, áreas verdes e atividades
contidos no plano atual. O 2.º PDDUA prevê a volta a varrer dos
espigões repudiados em tempos passados pela população, quando
estes deveriam ser excepcionalidades, localizados estritamente
em pontos da cidade em que a sua presença não seja impactante.
As torres propostas com 45 metros ou 16 pavimentos significam
dobrar a altura dos edifícios que hoje dominam a paisagem conformada
pelo 1.º PDDU. Como ficarão as relações de vizinhança? Os recuos
em relação às divisas foram, pasmem, reduzidos. Há situações em
que é permitido construir 18 metros ou seis pavimentos nas divisas.
Como ficará a coexistência de quem já obedeceu recuos com estes
paredões cegos nas suas divisas? Só lhe restará fechar as cortinas,
acender a luz e ligar ventilador ou ar condicionado.
Que cidade
será esta? Uma espécie de São Paulo? Quem ganha com isto? Sabe-se
quem perde: a maioria da população. É difícil de entender, mas
o Plano parece estar muito ao sabor de interesses do mercado imobiliário.
A Administração Popular, de tantos acertos, nesta questão do
Plano Diretor está devendo. Insiste com este modelo, apesar das
vozes contrárias, e que não são poucas. Não podemos involuir,
contrariar nossa tradição de um crescimento mais espraiado,
onde a democratização é dos benefícios e não dos prejuízos.
* Paulo
Cesa é arquiteto e professor
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