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Justiça
“A injustiça
é é relativamente fácil de aturar, é a justiça que fere.” A frase
de H. L. Mencken se adapta ao Brasil, onde aprendemos a conviver
com a injustiça indignando-nos, passageiramente, com tudo e mudando
nada, a não ser a retórica da nossa falsa inconformidade. Elegemos
e reelegemos as mesmas estruturas políticas, não porque elas mudem
de origem ou de hábitos mas porque mudam de discurso. Como o seu
compromisso com a mudança e com a justiça é sempre da boca e da
tribuna para fora, é sempre retórica, basta mudar a retórica -
e uma ou outra cara - para assegurar a sobrevivência. Sabemos
como ninguém verbalizar nossos problemas e as suas soluções, mas
na hora de trocar a eloqüência pela prática preferimos ficar no
discurso, e a eloqüência da acomodação, ou da capitulação, é a
mesma da indignação. Para deixar de ver o mundo pela ótica de
Marx e passar a vê-lo pela ótica do FMI não é preciso mudar de
cara, não é preciso nem mudar de óculos, basta ajustar a eloqüência.
É, sim, relativamente fácil conviver com a injustiça. No Brasil,
não fazemos outra coisa há anos. E sempre pelo método mais simpático,
o da desconversa.
Quanto
à segunda parte da frase de Mencken, o Brasil também é a prova.
A justiça fere. Ou feriria, catastroficamente, se fosse aplicada
com toda a pureza e o rigor dos seus princípios básicos. Imagine-se
o caos, no campo e nas cidades, se de uma hora para a outra fosse
instalada no país, por uma mágica, a equanimidade absoluta. Não
uma utópica sociedade sem classes e conflitos, não uma totalitária
justiça sem recursos ou clemência, mas o simples conceito de direitos
e oportunidades iguais para todos, revogados todos os sofismas
em contrário. Alguém já disse que uma condição para que o estado
constitucional sobreviva no Brasil é que a Constituição não seja
levada muito a sério. Poderia se dizer, com a mesma sabedoria
ou cinismo, que uma condição para que a justiça funcione mais
ou menos no Brasil é não exigir que ela funcione melhor, mais
disposta a contrariar interesses, revolucionar costumes, aplicar
a retórica e dar dentes ao discurso. Ou seja, mais disposta a
ferir.
Ainda o livro
de memórias da Esther Williams, em que ela conta tudo sobre maridos
exploradores e namorados estranhos, como o Jeff Chandler, que
se vestia de mulher e preferia sapatos Gucci.
Gostei de
saber que Esther Williams não tem nada a dizer no seu livro contra
outro contemporâneo, o Victor Mature, a não ser que era um namorador
compulsivo. Defendo a tese que a evolução da vida no planeta teve
um único fim, o de produzir Victor Mature. Desde as primeiras
amebas boiando no caldo primevo, não havia outra intenção na Natureza
senão a de, através de milênios e milênios de tentativa e erro,
chegar ao Victor Mature. Tudo que se desenvolveu entre o protoplasma
e o Victor Mature foram equívocos descartados. Você, eu, o rinoceronte
etc. somos as sobras do processo. Há quem sustente que o que motivou
a matéria a evoluir foi a busca da sua própria superação, que
o fim desejado era a inteligência artificial, o computador, finalmente
o conhecimento que independe do corpo e dos sentidos e portanto
torna o homem, a penúltima etapa antes da perfeição, obsoleto.
Não era. Era o Victor Mature. Seus peitorais e a sua cara de burro
satisfeito, a matéria no seu estágio supremo de autojustificação.
Feito o Victor
Mature, a evolução perdeu o sentido. E morto o Victor Mature,
resta à vida orgânica mais alguns anos de irrelevância sobre a
Terra antes de desaparecer por completo, já que sua missão está
cumprida. Este sentimento de fim de tudo, esta premonição de que
estamos entrando num milênio supérfluo - até, quem sabe, todos
estes desastres naturais - não passam, no fundo, da ausência do
Victor Mature. E é confortador saber que, ao contrário do Jeff
Chandler, se Victor Mature alguma vez usou sapatos Gucci, foram
dos pra homem. A espécie está de alguma forma redimida da sua
pretensão e da sua brevidade.
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