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Anjo diarista
Elisa
Lucinda
Passou
um anjo aqui em casa hoje.
Eu o amo. Ele que por minhas mãos limpou meu quarto e encheu
a mesa de flores vivas refrescando seus rabinhos na água.
Pôs velas perto dessas flores e iluminou minha alma. Tirou
a poeira velha que já considerava minha eterna inquilina
e ainda por cima despejou uns passados que na minha vida já
estavam expulsos e sem pagar o aluguel. Que mel o anjo que varreu
meu templo e incensou o quarto quatro vezes nos quatro cantos.
Passei em
frente ao espelho para lustrar os vidros e vi ele rindo pra mim
assim meio de lado. Ele é uma espécie de diabo,
esse anjo danado que me fode de vez em uma só faxina com
um monte de ontens e anteontens que precisam ser extirpados como
calos.
Artista, meu
anjo é calista e não deixa marcas. Tudo agora parece
novo, como pés aliviados e já não dói.
A idéia-mãe era apenas achar uma maquininha de calcular
de estimação que se houvera perdido quiçá
entre as roupas ou papéis, não sei. Sei que ele,
sábio, tomou meu corpo e suas dobraduras, meu corpo e sua
imensurável capacidade de se agachar n vezes, ainda que
não seja para o sexo, e no caminho da procura foi limpando
as coisas, se espichando pra cima como se já fosse o céu
o teto rebaixado da morada minha. Gracinha incansável,
a tudo revirou, organizou, selecionou: Botas, calcinhas, guimbas,
poesia. Espanou métodos de bruxaria doméstica: Tarôs,
I chings, quiromancias. Depois, quando estava tudo cheirando a
mirra e ele já estava distraído e confundido com
o bom ar da casa, avistei uma pochete jogada e esquecida debaixo
da mesa. Parecia regressa de uma velha festa, parecia atirada
bêbada de um vestido... Peguei a bolsa e voltei a mim com
a maquininha de calcular na mão. Estava dentro desta insuspeitável
bolsinha. Como os grandes mistérios: O começo da
viagem. Um dia eu quero que o mesmo anjo passe na minha vida como
passou hoje aqui em casa e que, na procura organize todos os meus
órgãos e itens e me ache toda pelo caminho.
elisalucinda@radnet.com.br
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