|
|


|

Mais
de 500 candidatos para cada vaga
Na
quarta eleição para Conselhos Tutelares realizada
em Porto Alegre, este ano, inscreveram-se 525 pessoas. Do total,
433 obtiveram um resultado acima da média exigida (incluindo
30 que ingressaram com um mandado de segurança) e estarão
concorrendo a uma vaga para o cargo nas eleições
em 30 de setembro. Todas as questões se basearam em fatos
reais, e talvez isso explique a dificuldade enfrentada por alguns
candidatos. Hábitos se criam agindo repetidamente.
O ECA é muito novo, vai demorar algum tempo para criar
novos hábitos, observa o advogado André Karst
Kaminski, assessor jurídico da Procuradoria Geral do Município
e um dos integrantes da comissão que elaborou a prova em
Porto Alegre. Todas as questões com baixo índice
de acerto estavam previstas no ECA ou dependiam da concepção
de mundo de cada pessoa, argumenta.
Na prática, os casos levados aos Conselhos Tutelares devem
sempre ser avaliados por um colegiado, nunca individualmente,
para evitar que concepções pessoais atrapalhem uma
decisão. Principalmente, concepções ultrapassadas.
Muitos ainda trabalham no esquema anterior ao ECA, como
comissários de menores, preferindo retirar
a criança da família e colocá-la em abrigos,
critica Rodrigo Stumpf Gonzalez, advogado e cientista político,
membro do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.
Depois de eleitos, os conselheiros passam por cursos de preparação.
Mas eles aprendem mesmo a aplicar o ECA é no dia-a-dia,
sob pressão. Se o salário para quem exerce o cargo
parece alto para o padrão brasileiro, acaba sendo muito
pouco para uma função tão delicada. Não
só pela dedicação exclusiva, ou pelos plantões
à noite e nos finais de semana, mas principalmente pela
carga emocional e riscos a que se submetem. E durante três
anos (ou seis, se reeleito), o conselheiro tem de abdicar de sua
atividade profissional e, muitas vezes, colocar em segundo plano
sua vida pessoal. Houve muitos momentos em que fiquei em
dúvida se valia a pena, lembra Leci Soares Matos,
45 anos, conselheira em segunda gestão na Microrregião
4, que abrange Partenon e Lomba do Pinheiro.
Moradora há 23 anos do Campo da Tuca, em Porto Alegre,
Leci deixou de ser monitora em creches comunitárias e auxiliar
de enfermagem num hospital psiquiátrico para se dedicar
somente ao trabalho no Conselho Tutelar. Durante anos havia atuado
no Movimento Assistencial de Porto Alegre (Mapa) e acompanhou
de perto os primeiros passos para tornar o CMDCA uma realidade.
Presidente da Associação Comunitária do Campo
da Tuca, tinha boa penetração na vila, o que ajudou
a ganhar a simpatia dos moradores. Havia atuado também
com crianças em situação de risco nas ruas.
Nem com todo esse preparo ela conseguiu escapar da
angústia em sua nova função.
Nos primeiros seis meses, ficou muito abalada. Aprendeu na marra
a ter jogo de cintura e a analisar caso a caso, não se
deixando levar pelas aparências. Tive de mudar meus
conceitos. Antes, eu achava que o maior fator de abuso sexual
e violência era o alcoolismo e a drogadição.
Descobri que, às vezes, o abuso ocorre em famílias
em que nem se imagina que isso pode acontecer, e o pai até
demonstra ser muito preocupado com os filhos, relata. A
mesma mulher, que tinha ganas de punir os agressores com a pena
de morte, foi aos poucos ouvindo a palavra dos técnicos
e especialistas e hoje compreende que o agressor tem de ser tratado
também. A maioria dos abusadores foi vítima
quando criança, explica.
Leia também:
- Conselhos
Tutelares: A teoria, na prática, é outra
- Os
erros podem piorar a situação dos menores
- Uma tarefa
difícil até para quem está preparado
- A
sociedade também é responsável
|
Fale
com o Extra Classe
|