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Os
erros podem piorar a situação dos menores
Um
erro na abordagem pode piorar ainda mais a vida das crianças
e dos adolescentes violados em seus direitos. Em vez de protetor
dos direitos da criança e do adolescente, a má atuação
dos conselheiros por vezes transforma a figura do Conselho Tutelar
no próprio vilão. É assim para B. S., 32
anos (sua identidade é preservada porque ela teme represálias).
Mãe de seis crianças, com idades de 2, 3, 4, 6,
11 e 13 anos, tornou-se moradora de rua quando decidiu que não
queria mais apanhar do marido. Passou a freqüentar os abrigos
da cidade, fugindo dos conselheiros tutelares, com medo de que
lhe tirassem os filhos. Um dia, diz, no desespero de não
ter o que comer, admite que perdeu o controle e espancou a filha
mais velha. A vizinha denunciou o fato para o Conselho Tutelar.
O conselheiro botou a boca em mim. Minha filha ficou 15
dias num abrigo. Lutei, lutei e ela tá de volta,
diz B. S.
Para B.S., o Conselho Tutelar não tem função
nenhuma: Eles não ajudam, só sabem humilhar
a gente. No abrigo em que estou, tem uma assistente social que
vive ameaçando tirar meus filhos, diz que vai chamar o
Conselho para recolher. Ela quer que eu consiga serviço
para mim e creche para as crianças. A maior tá estudando,
mas para os outros é difícil conseguir creche, cada
um tem uma idade diferente. Uma vez, um conselheiro a criticou
por colocar tanto filho no mundo. Eles deviam sentar, conversar,
perguntar se precisa de tratamento com psicóloga, mas são
brutos demais, reclama. R.R., 18 anos recém-completados,
é outro que sempre fugiu dos conselheiros tutelares. Eu
não sabia se iam me levar para casa ou para a prisão,
lembra. Só numa semana, caí várias
vezes no Conselho, por bagunça: eu quebrava os vidros dos
ônibus. Ele tinha 13 anos na época. Foi para
a rua aos sete anos. Continua vivendo ali. Dorme embaixo das marquises
dos prédios e diz que perdeu tudo o que tem por causa da
droga, o loló. De Conselho Tutelar, agora, sabe apenas
que uma representante costuma visitar sua casa para perguntar
pelo irmão mais novo, que anda faltando no colégio.
L., 10 anos, nem isso sabe. Tem mais cinco irmãos. Mas
fica sozinho na esquina de uma grande avenida de Porto Alegre,
aos finais de semana, pedindo trocos para os motoristas dos carros
que param na sinaleira. Vai para a rua, longe de casa, com uma
vizinha, Marli, que fica na sinaleira do outro lado da avenida,
com a filha de três anos no colo, enrolada num cobertor.
Ela sabe que desse jeito tem mais chance de amolecer o coração
dos motoristas e ganhar algum dinheiro. Há um ano ela leva
a menina junto.
O Conselho Tutelar já me pegou várias vezes,
mas nunca me ajudou, reclama. Eles dizem que se me
pegarem de novo vão tirar a criança.
Que identidade é essa que o Conselho está
criando?, questiona o advogado Kaminski. Como presidente,
durante quatro anos, da Corregedoria dos Conselhos Tutelares,
órgão encarregado de julgar as denúncias
sobre a atuação dos conselheiros tutelares, ele
ouviu queixas sobre conselheiros que botaram o dedo na cara dos
usuários, ameaçaram ou fizeram encenação
amedrontando as crianças para que cumprissem as regras
ditadas por ele, e até sobre indícios de abusos
libidinosos. Analisou processos contra conselheiros tutelares
que desviavam casos para advogar por conta própria, e outros
que iam além da sua função, agindo fora do
horário em vinculos de amizade com as famílias.
Kaminski participou da criação do manual de orientação
de condutas do Conselho Tutelar de Porto Alegre, que virou modelo
para o manual adotado no Estado. Também é autor
de uma tese intitulada O Conselho Tutelar, a Criança e
o Ato Infracional: Proteção ou Punição?
Ele tem uma certeza: a sociedade está despreparada para
assumir o Conselho Tutelar da forma como o órgão
foi projetado. É um órgão para colocar
o dedo na ferida, e não ficar apagando fogo as pessoas
querem que os conselheiros tirem crianças da sinaleira,
ou recolham as que usam drogas na rua, não é essa
a função. Apenas tirar a criança que
fica esmolando na rua, sem oferecer uma outra fonte de renda,
não ajuda em nada. O conselheiro tutelar deve ser aquele
que cobra uma atitude de quem deve atuar nesses casos.
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