|

A
sociedade também é responsável
Mesmo
que seja solucionado o entrave da falta de preparo dos conselheiros,
será preciso um esforço concentrado do resto da
sociedade como um todo. Saraiva reconhece o despreparo dos próprios
juízes (muitos deles atuando no Interior). A matéria
do Direito da Infância e da Juventude não é
uma disciplina autônoma nos cursos, e no concurso para juiz
é um item perdido, não uma disciplina especial,
lembra. Há dois anos, a Delegacia da Criança e do
Adolescente Vítima organiza cursos de capacitação
para o Ministério Público, Juizados e Conselhos
Tutelares, numa tentativa de aproximar os diversos órgãos
para desenvolverem um trabalho de equipe interdisciplinar. A policial
civil e psicóloga Suzana Braun entende que a integração
é importante para melhorar o atendimento de crianças
e adolescentes. Precisamos de pessoas mais identificadas
e comprometidas. Às vezes percebemos que os conselheiros
nos trazem casos de maus- tratos, mas parecem mais preocupados
com a demanda por atender do que com o caso em análise
no momento. E cada criança tem o direito de ser escutada,
o tempo que for necessário.
Na prática, falta muito ainda para melhorar a atuação
dos conselheiros, não só do ponto de vista de qualificação
pessoal. Além das kombis, instrumento de trabalho, é
preciso outros veículos menores, para chegar até
os morros e locais de difícil acesso. E infra-estrutura
de apoio para encaminharem as situações que lhes
chegam. Lutamos muito para ter um Núcleo de Apoio
à Família, recorda Leci. Faltam creches, locais
para atendimento psicológico das crianças e suas
famílias, abrigos transitórios com espaço
para vínculos profissionais, pessoas nas escolas com capacidade
de fazer cumprir o ECA. A lista inclui ainda uma central de vagas
para abrigagem. Para não termos de ficar procurando
vaga com uma criança que já sofreu na família
e continua sofrendo até conseguir um lugar, ressalta
Leci.
Há outro aspecto nem sempre levado em consideração
quando se fala em desqualificação dos conselheiros.
Quem é que cuida da saúde mental deles para
que, mantendo a indignação, possam encaminhar com
lucidez os casos?, pergunta a socióloga Vera Ponzio,
representante da Secretaria do Governo na comissão eleitoral
e membro da secretaria executiva do CMDCA. Para ser um conselheiro,
ressalta Vera, é preciso manter a sensibilidade e ter o
distanciamento necessário.
O frei Luciano Elias Bruxel, vice-presidente do CMDCA e presidente
da comissão eleitoral, lembra que o processo de exclusão
social e as relações econômicas fragilizaram
o ser humano. Há situações dramáticas
de abuso de todos os tipos não podemos ser preconceituosos
e achar que acontecem somente entre os pobres, diz Bruxel.
A demanda pelos Conselhos Tutelares é altíssima,
a rede de entidades ainda não dá conta de todo o
atendimento e, por um lado, ainda há uma parcela da sociedade
que vê a criança como culpada da situação
e não como um sujeito de direito. Na visão de Bruxel,
não basta apenas qualificar melhor os conselheiros. A sociedade,
como um todo, deve se preparar e assumir sua responsabilidade
neste processo.
Leia também:
- Conselhos
Tutelares: A teoria, na prática, é outra
-
Mais
de 500 candidatos para cada vaga
- Os
erros podem piorar a situação dos menores
- Uma
tarefa difícil até para quem está preparado
|