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Tempo
de dividir (continuação)
As
lideranças separatistas atribuem os dados à má
vontade de antigos e atuais governantes. Nunca fizeram nada
por nós. Não têm tempo para nos ouvir,
critica o prefeito de Barra do Quaraí, Eli Manoel Rosa
(PTB), que nasceu em Venâncio Aires. Os entusiastas da emancipação
estão certos de que o novo Estado nasceria leve como pluma
não teria dívidas! Até os inativos
da Previdência estadual continuariam recebendo do governo
do Rio Grande do Sul, já que apenas os aposentados após
a vigência do novo mapa passariam a integrar um Instituto
ainda a ser criado. Imaginam que as despesas com pessoal não
ultrapassariam 34% das receitas. É tanta a certeza em sobra
de caixa que planejam atrair indústrias com a concessão
de incentivos fiscais.
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A
única mudança importante ocorrida na economia
da
metade sul foi a introdução da cultura do
arroz há 60 anos, o
que é considerado insuficiente
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Mas,
afinal, do que viveria o novo Estado? É uma fábula
o que dá para fazer. 83% do carvão mineral do Brasil
está embaixo de nossos pés. Temos o segundo maior
porto marítimo do país (Rio Grande) e o maior porto
seco da América Latina (Uruguaiana), afirma Irajá
Rodrigues. E tem mais: a maior lagoa doce do mundo (dos Patos)
está na metade sul, o que ajudaria a implantar um turismo
capaz de rivalizar com Gramado. Com a emancipação,
a metade sul sonha recuperar a economia florescente que experimentou
quando era o centro econômico, político e cultural
do Estado. Tanto que, no século XIX, eram os gaúchos
do norte que queriam se separar. Em 1877, iniciou-se um movimento
na Câmara de Vereadores de Cruz Alta para a criação
da Província da Serra, contra o poder dos barões
da parte meridional. Como se sabe, não foi adiante.
Por que a região sul empobreceu? Ficamos com o estigma
de terra insurrecta após a ousadia de fazer uma revolução
contra o Império, diz Rodrigues. A partir da Guerra
dos Farrapos (1835-1845), as elites econômicas da metade
sul não pararam de trombar com as autoridades provinciais
e do poder central. A Revolução de 1893 é
um marco na virada da hegemonia política no Estado. Liderado
por Gaspar Silveira Martins, o sul se levantou contra a Constituição
escrita pelo presidente do Estado, Júlio de Castilhos,
que lhe dava poderes totais para governar sem ouvir ninguém.
Vitorioso nos campos de batalha, o castilhismo impôs como
represália que a região vivesse à míngua.
O governo estadual reduziu gradativamente os investimentos
num processo que se agravou com o passar do tempo e transformou
o sul numa região produtora de miseráveis, que se
espalharam para dentro dos centros urbanos da metade norte,
afirma o historiador Décio Freitas.
A
tese da perseguição política responsabiliza
também Getúlio Vargas, que liquidou o Banco Pelotense,
em 1931. Era o terceiro maior banco do país. O patrimônio
da instituição incluía áreas nobres,
onde está hoje o aeroporto Antônio Carlos Jobim (ex-Galeão)
e a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro,
orgulha-se Rodrigues. Contam que apenas uma fazenda do Pelotense
deu origem a cinco municípios em Minas Gerais e outra fez
nascer duas cidades no Espírito Santo. O banco estava quebrado
de tanto emprestar aos pecuaristas, cada vez mais atolados em
dívidas. Getúlio ainda é considerado culpado
por decretar grande parte da metade sul área de segurança
nacional, o que inibiu investidores externos.
Outra corrente descarta a teoria persecutória. A
secessão é uma teoria que reduz a crise a um problema
fiscal, quando a causa é estrutural e tem a ver com a falta
de diversificação dos produtos da região,
afirma o presidente da Fundação Estadual de Economia
e Estatística, José Antônio Alonso. Para ele,
não aplicar os ganhos da pecuária em outros ramos
da economia foi fatal. Se o Texas tivesse ficado apenas
com o boi, não estaria produzindo hoje computador. Mas
os americanos tiveram a sorte de achar petróleo, o que
mudou o perfil da economia. A única mudança
importante na metade sul foi a introdução da cultura
do arroz, há 60 anos, o que é considerado insuficiente.
A partir da metade da década de 60, a carne bovina
enfrentou a competição aguda de frangos e suínos.
Os pecuaristas do sul ficaram ainda mais acuados quando ganharam
a concorrência das pastagens do Centro-Oeste brasileiro,
lembra o presidente da FEE.
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Todos
os municípios do RS com mais de 60% da área
ocupada por propriedades acima de 500 hectares estão
na metade sul
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Separada
ou ainda aninhada em território gaúcho, a metade
sul precisa encontrar saídas. Não há
solução de curto prazo. Mas a região tem
água abundante e sol suficiente para produzir um choque
de diversificação agrícola que a salvará
num prazo mais longo, afirma Alonso. Sugere seguir o exemplo
das viticulturas na própria região de Livramento.
A implantação de outras culturas e de sistemas mais
cooperativos implica rever o tamanho das propriedades no
mapa gaúcho, todos os municípios com mais de 60%
da área ocupada por propriedades acima de 500 hectares
estão na metade de baixo.
O historiador Décio Freitas citado como referência
teórica pelos separatistas brinca que foi adotado
pelos separatistas após dar palestra na Câmara Municipal
de Bagé. Mas se diz independente e crítico
e admite ser improvável que vote a favor da
cisão num plebiscito. É possível que,
ao levantar a bandeira separatista, queiram apenas usá-la
como poder de barganha, especula Freitas. Ao pensar numa
saída para a região, lembra uma conversa com Getúlio
Vargas em 1946, na fazenda Santo Reis, em São Borja. Perguntei
a ele por que não fizera a reforma agrária. Respondeu
que ela viria por si mesma com a industrialização.
Só que, para a metade sul, não houve industrialização,
nem reforma agrária.
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A
METADE SUL EM NÚMEROS
|
| Área
- 154.204 km 2 (54% do RS) |
| População
- 2.503.758 milhões de habitantes (25% do RS) |
| Municípios
- 108 (497 no RS) |
| PIB
- R$ 12.250.631.851,00 (18% do RS) |
| Renda
per capita - R$ 4.892,89 (RS: R$ 7.001,10) |
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| Representação
Política |
| Secretários
estaduais - 1 |
| Assembléia
Legislativa - 8 deputados (de um total de 55) |
| Deputados
na Câmara Federal - 4 (bancada de 31) |
| Representante
no Senado - 1 (total de 3) |
| PROJEÇÕES |
|
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RS
(hoje)
|
Novo
Estado (projeção)
|
| Gastos
com pessoal X Receitas Correntes |
77%
|
34%
|
| Secretários
e equivalentes |
32
|
10
|
| Desembargadores
no Tribunal de Justiça |
137
|
07
|
| Deputados
Estaduais |
55
|
33
|
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