Especiais da Jornada de Literatura 2001:

 


Tempo de dividir (continuação)

As lideranças separatistas atribuem os dados à má vontade de antigos e atuais governantes. “Nunca fizeram nada por nós. Não têm tempo para nos ouvir”, critica o prefeito de Barra do Quaraí, Eli Manoel Rosa (PTB), que nasceu em Venâncio Aires. Os entusiastas da emancipação estão certos de que o novo Estado nasceria leve como pluma – não teria dívidas! Até os inativos da Previdência estadual continuariam recebendo do governo do Rio Grande do Sul, já que apenas os aposentados após a vigência do novo mapa passariam a integrar um Instituto ainda a ser criado. Imaginam que as despesas com pessoal não ultrapassariam 34% das receitas. É tanta a certeza em sobra de caixa que planejam atrair indústrias com a concessão de incentivos fiscais.

A única mudança importante ocorrida na economia da
metade sul foi a introdução da cultura do
arroz há 60 anos,
o que é considerado insuficiente

Mas, afinal, do que viveria o novo Estado? “É uma fábula o que dá para fazer. 83% do carvão mineral do Brasil está embaixo de nossos pés. Temos o segundo maior porto marítimo do país (Rio Grande) e o maior porto seco da América Latina (Uruguaiana)”, afirma Irajá Rodrigues. E tem mais: a maior lagoa doce do mundo (dos Patos) está na metade sul, o que ajudaria a implantar um turismo capaz de rivalizar com Gramado. Com a emancipação, a metade sul sonha recuperar a economia florescente que experimentou quando era o centro econômico, político e cultural do Estado. Tanto que, no século XIX, eram os gaúchos do norte que queriam se separar. Em 1877, iniciou-se um movimento na Câmara de Vereadores de Cruz Alta para a criação da “Província da Serra”, contra o poder dos “barões” da parte meridional. Como se sabe, não foi adiante.

Por que a região sul empobreceu? “Ficamos com o estigma de terra insurrecta após a ousadia de fazer uma revolução contra o Império”, diz Rodrigues. A partir da Guerra dos Farrapos (1835-1845), as elites econômicas da metade sul não pararam de trombar com as autoridades provinciais e do poder central. A Revolução de 1893 é um marco na virada da hegemonia política no Estado. Liderado por Gaspar Silveira Martins, o sul se levantou contra a Constituição escrita pelo presidente do Estado, Júlio de Castilhos, que lhe dava poderes totais para governar sem ouvir ninguém. Vitorioso nos campos de batalha, o castilhismo impôs como represália que a região vivesse à míngua. “O governo estadual reduziu gradativamente os investimentos num processo que se agravou com o passar do tempo e transformou o sul numa região produtora de miseráveis, que se espalharam para dentro dos centros urbanos da metade norte”, afirma o historiador Décio Freitas.

A tese da perseguição política responsabiliza também Getúlio Vargas, que liquidou o Banco Pelotense, em 1931. “Era o terceiro maior banco do país. O patrimônio da instituição incluía áreas nobres, onde está hoje o aeroporto Antônio Carlos Jobim (ex-Galeão) e a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro”, orgulha-se Rodrigues. Contam que apenas uma fazenda do Pelotense deu origem a cinco municípios em Minas Gerais e outra fez nascer duas cidades no Espírito Santo. O banco estava quebrado de tanto emprestar aos pecuaristas, cada vez mais atolados em dívidas. Getúlio ainda é considerado culpado por decretar grande parte da metade sul área de segurança nacional, o que inibiu investidores externos.

Outra corrente descarta a teoria persecutória. “A secessão é uma teoria que reduz a crise a um problema fiscal, quando a causa é estrutural e tem a ver com a falta de diversificação dos produtos da região”, afirma o presidente da Fundação Estadual de Economia e Estatística, José Antônio Alonso. Para ele, não aplicar os ganhos da pecuária em outros ramos da economia foi fatal. “Se o Texas tivesse ficado apenas com o boi, não estaria produzindo hoje computador. Mas os americanos tiveram a sorte de achar petróleo, o que mudou o perfil da economia.” A única mudança importante na metade sul foi a introdução da cultura do arroz, há 60 anos, o que é considerado insuficiente. “A partir da metade da década de 60, a carne bovina enfrentou a competição aguda de frangos e suínos. Os pecuaristas do sul ficaram ainda mais acuados quando ganharam a concorrência das pastagens do Centro-Oeste brasileiro”, lembra o presidente da FEE.

Todos os municípios do RS com mais de 60% da área ocupada por propriedades acima de 500 hectares estão na metade sul

Separada ou ainda aninhada em território gaúcho, a metade sul precisa encontrar saídas. “Não há solução de curto prazo. Mas a região tem água abundante e sol suficiente para produzir um choque de diversificação agrícola que a salvará num prazo mais longo”, afirma Alonso. Sugere seguir o exemplo das viticulturas na própria região de Livramento. A implantação de outras culturas e de sistemas mais cooperativos implica rever o tamanho das propriedades – no mapa gaúcho, todos os municípios com mais de 60% da área ocupada por propriedades acima de 500 hectares estão na metade de baixo.

O historiador Décio Freitas – citado como referência teórica pelos separatistas – brinca que foi “adotado” pelos separatistas após dar palestra na Câmara Municipal de Bagé. Mas se diz “independente e crítico” e admite ser “improvável” que vote a favor da cisão num plebiscito. “É possível que, ao levantar a bandeira separatista, queiram apenas usá-la como poder de barganha”, especula Freitas. Ao pensar numa saída para a região, lembra uma conversa com Getúlio Vargas em 1946, na fazenda Santo Reis, em São Borja. “Perguntei a ele por que não fizera a reforma agrária. Respondeu que ela viria por si mesma com a industrialização. Só que, para a metade sul, não houve industrialização, nem reforma agrária.”

  A METADE SUL EM NÚMEROS
Área - 154.204 km 2 (54% do RS)
População - 2.503.758 milhões de habitantes (25% do RS)
Municípios - 108 (497 no RS)
PIB - R$ 12.250.631.851,00 (18% do RS)
Renda per capita - R$ 4.892,89 (RS: R$ 7.001,10)
 
  Representação Política
Secretários estaduais - 1
Assembléia Legislativa - 8 deputados (de um total de 55)
Deputados na Câmara Federal - 4 (bancada de 31)
Representante no Senado - 1 (total de 3)

  PROJEÇÕES    
 
RS (hoje)
Novo Estado (projeção)
Gastos com pessoal X Receitas Correntes
77%
34%
Secretários e equivalentes
32
10
Desembargadores no Tribunal de Justiça
137
07
Deputados Estaduais
55
33


 

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