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Educação
popular é tema de colóquios
Keli
Boop
No ano em
que completa a maioridade de sua existência, o IX Colóquio
Nacional de Educação Popular (que ocorre de dois
em dois anos) reúne em Passo Fundo, de 4 a 7 de setembro,
centenas de educadores populares e intelectuais, do Brasil e América
Latina, em torno da discussão premente do atual contexto
neoliberal e da globalização econômica excludente.
Simultaneamente ao encontro bianual, acontece o VII Colóquio
Internacional de Educação Popular. Também
vai estar na pauta do evento, que traz esse ano o tema Experiências
Emancipatórias X Recolonização, a visibilidade
aos avanços das organizações populares.
As discussões mais acaloradas no Cine Teatro Pampa, local
onde estarão sendo realizados os colóquios, devem
ocorrer durante as palestras sobre o posicionamento das organizações
populares em relação à ALCA e às diversas
formas de recolonização. Um ato público está
marcado para o histórico 7 de setembro. A data foi
escolhida propositadamente com o intento de declararmos o tipo
de pátria que desejamos. Uma pátria livre e soberana.
O ato será estadual e ônibus de todo o Estado estarão
sendo deslocados para participar da atividade. Além dos
participantes do evento, outros setores da sociedade estarão
presentes: Movimento Sindical, CUT, escolas, ONGS, partidos políticos,
Comissão Nacional do Plebiscito contra a ALCA, etc,
explica Rozélia Vasquez Ortiz, diretora do Sinpro/ RS em
Passo Fundo e integrante da Comissão Organizadora do evento.
Com promoção da Associação dos Professores
da Universidade de Passo Fundo (APUPF), Centro dos Professores
do Estado do Rio Grande do Sul 7° Núcleo do
CPERS/Sindicato, Faculdade de Educação da Universidade
de Passo Fundo e Sindicato dos Professores do RS SINPRO/RS,
a idéia é que durante os quatro dias de debates
sejam socializadas experiências que apontem para os avanços
e conquistas dos movimentos populares, bem como debatidas questões
da conjuntura atual que desafiam as organizações
populares e as possibilidades de alternativas para os países,
principalmente, os da América Latina, explica Rozélia.
Há dois anos, na sua última edição,
o evento registrou um público em torno de 1.200 pessoas,
com o destaque para países como Chile, Argentina e Peru.
Para esse ano, a expectativa é de 1.500 participantes.
A Argentina e o Panamá já confirmaram presença.
Alberto Roselli fará o relato da Argentina, destaca
Rozélia.
A primeira e hoje histórica edição do evento,
ocorrido em outubro de 1984, teve a ilustre presença do
educador Paulo Freire. Na época, foi inaugurado um ciclo
de discussões das formas de organização e
valorização da cultura de docentes com formas de
educação formal e não-formal. O Colóquio,
desde a sua primeira edição, teve como meta discutir
temas e questões da conjuntura sociopolítica e econômica.
Num momento de intenso avanço da política neoliberal
e da crise paradigmática da sociedade moderna, o Colóquio
objetiva resgatar experiências silenciosas e muitas vezes
não-valorizadas. Queremos discutir e mostrar que as organizações
populares possuem um trabalho consistente e podem ser uma das
sementes de esperança para gestionarmos mudanças
sociais. As mesas temáticas e oficinas estão organizadas
com base nesse eixo, lembra Rozélia.
| Arcari:
Alca no centro do debate |
Entre
os objetivos do IX Colóquio Nacional de Educação
Popular e do VII Colóquio Internacional de Educação
Popular está a construção de espaços
de aprofundamento e de um posicionamento das organizações
populares em relação à ALCA e às
diversas formas de recolonização. Veja,
a seguir, as principais conseqüências do
projeto ALCA para o Brasil na opinião do doutor
em História pela Universidade de São Paulo
e professor do Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo (CEFET), Valério
Arcari, que fará a conferência de abertura
do evento, com o tema Experiências Emancipatórias
X Recolonização:
Extra Classe Para o senhor, quais seriam as
conseqüências da ALCA em relação
Brasil?
Valério Arcari O recente acordo com
o FMI tem o significado de um protocolo que acelera
a ALCA e compromete o futuro. A ALCA significará
uma mudança de qualidade no estatuto do Brasil
dentro do Sistema Mundial de Estados e, por isso, se
pode prever, sem exagero, uma anexação
econômica do Brasil, já que a assimetria
e desproporção entre os EUA e as outras
nações, em todos os terrenos, são
abismais. Em algumas décadas, estaríamos
reduzidos à condição de colônia.
Um país com um PIB de US$ 600 bilhões,
como o Brasil, não pode competir, de igual para
igual, com um país, como os EUA, com um PIB de
US$ 9 trilhões, quase um terço da economia
mundial, e que detém uma posição
hegemônica, em função também
de sua superioridade militar, há mais de 50 anos.
Um tratamento igual para os que são desiguais
é sempre um favorecimento do mais forte. Mas
a ALCA não é somente um acordo tarifário
de união aduaneira: existem nove comissões
de negociação, que envolvem temas complexos.
EC Quais seriam?
Arcari Em primeiro lugar: o acesso livre
de capitais ao mercado de serviços, como, educação,
saúde, bancos e seguros, além de meios
de comunicação. Essa condição
teria conseqüências devastadoras para a educação
no Brasil, em função da importância
estratégica da Universidade Pública para
um projeto independente; em segundo: o acesso livre
de capitais ao mercado de licitações e
compras públicas em todos os níveis de
administração. Tanto do ponto de vista
econômico, como social, a abertura do mercado
de compras do Estado seria decisivo para agravar a desnacionalização
da economia brasileira, agudizando a fragilidade estrutural
do País; em terceiro: a unificação
jurídica de um estatuto comum de proteção
de patentes. Uma lei internacional, mais severa do que
as imposições já existentes no
âmbito da OMC, seria um verdadeiro estatuto neo-colonial
para toda a América Latina; em quarto: uma nova
organização jurídica estatal que
contém a condição-exigência
de um Tribunal de Exceção, organizado
sobre o princípio da extraterritorialidade. Esta
imposição ofereceria a garantia estratégica
decisiva para as empresas americanas, porque significaria
o sacrifício explícito da soberania nacional.
EC Mas isso resume tudo? E o significado político
para Brasil e EUA qual é?
Arcari É claro que a ALCA não
se resume a estas questões pontuais. Os EUA conseguiriam
fazer da América Latina uma área de reserva
do dólar, um domínio econômico-político
que poderia ser uma vantagem comparativa essencial para
a preservação de sua posição
hegemônica no Sistema Mundial de Estados. Para
o Brasil, teria o significado que o Tratado de Methen
teve para Portugal, ao início do século
XVIII, um acordo de rendição nacional
que condenou o país à condição
de submetrópole inglesa.
EC E quais as principais conseqüências
do projeto ALCA na educação popular?
Arcari Ou se paga a dívida, ou se
educa os filhos do povo. Não há como fazer
a omelete sem quebrar alguns ovos. Metade da população
brasileira é iletrada, ou não consegue
interpretar um texto. Se implantada a ALCA e, em uma
perspectiva histórica, de prazos longos, a educação
popular estaria muito próxima à realidade
que enfrentam os países da África subsaariana,
nos dias de hoje. Um Estado Nacional, como o nosso,
na periferia da economia mundial, que passaria a ter
a única função de gerar superávits
primários, ou seja, administrado como uma empresa
que tem de obter lucros para pagar credores das dívidas
interna e externa, não pode realizar uma revolução
educacional que o Brasil, por sua vez, não pode
adiar. Educação não é barato
e não dá resultados do dia para a noite.
Exige tempo e investimentos que, por sua vez, só
trarão retorno no espaço de uma geração,
isto é, um quarto de século. |
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