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Nem
pedagogismo, nem politicismo
Divulgação
O
pernambucano João Francisco de Souza é um educador
envolvido com a educação popular quase 24 horas do
dia, há mais de 40 anos. Tudo começou em 1961, na
mesma época em que conheceu o também educador Paulo
Freire, no Movimento de Cultura Popular de Recife (MCP). Professor
do Programa de Pós-Graduação em Educação
do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE) e do Departamento de Fundamentos Sócio-Filosóficos
da Educação, João Francisco é também
Pesquisador Coordenador do Nupep (Núcleo com doutorado
em Sociologia e em Estudos Comparados sobre a América Latina
e o Caribe, pela Universidade de Brasília (UnB) e Faculdade
Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO). Convidado para
palestras mundo afora, em setembro ele estará
em Passo Fundo, no IX Colóquio Nacional de Educação
e VII Colóquio Internacional de Educação Popular,
falando sobre Experiências em Educação
Popular .
Keli Boop
Extra
Classe Essa é a sua primeira participação
no Colóquio Nacional de Educação Popular
em Passo Fundo?
João Francisco de Souza Sim, pela primeira vez
participo do Colóquio. Tenho grandes expectativas, pois,
acompanhei a distância os anteriores que trataram de temas
relevantes para a Educação de modo geral e especialmente
para as temáticas do campo da Educação Popular.
Neste ano, se reveste de um caráter especial tendo em vista
os problemas nos quais estamos envolvidos: a quebra da reforma
econômica da Argentina e do Brasil, a Alca e as eleições
nacionais; ademais por ser uma grande esperança pelo fato
de já ser a nova edição no nível nacional
e sétima de seu caráter internacional.
EC Qual a sua experiência em Educação
Popular?
João Francisco Minha experiência na educação
popular tem início com o próprio começo da
construção da atual visão de Educação
Popular, nos idos de 1961, aos 16 anos. Entrando no curso de Ensino
Médio (à época, denominado curso secundário
na modalidade Científico porque também havia o Clássico
para aqueles que se destinavam às Ciências Humanas
e Sociais), envolvi-me com a JEC (Juventude Estudantil Católica)
através da qual participei das primeiras atividades do
MCP (Movimento de Cultura Popular) criado em Pernambuco por intelectuais
da esquerda católica e do partido comunista apoiados pelo
recém eleito Prefeito de Recife, Miguel Arraes de Alencar,
sindicatos e organizações de bairros. Comecei atuando
nas Praças de Cultura nas quais, além da Biblioteca
Popular, de Grupos de Teatro e de Análise de Programas
de Televisão, incentiva-se a criação de grupos
de vizinhos para lutar pela solução dos problemas
locais.
Como sabemos, até o final dos anos 1950, a expressão
Educação Popular se referia apenas à extensão
da escola, tal a qual existente, aos filhos e filhas de trabalhadores
e trabalhadoras rurais e urbanos. E, para a educação
desses trabalhadores, se usava a expressão Educação
de Adultos. A partir dos sessenta, Educação Popular
começa a adquirir outro sentido no Brasil e por toda a
América Latina. O marco oficial dessa mudança podemos
localizar no II Seminário Nacional de Educação
de Adultos, convocado pelo governo federal e realizado no Rio
de Janeiro em julho de 1958.
EC Na sua opinião, quais os principais avanços
da Educação Popular nos últimos 50 anos?
João Francisco Houve mudanças extraordinárias.
Primeiro, a própria construção de uma educação
que pode fundamentar práticas pedagógicas (escolares
e não-escolares) que respondam às necessidades,
aspirações e desejos dos setores do trabalho rural
ou urbano, os denominados genericamente de pobres. Esses não
foram contemplados no Projeto da invenção da Escola.
Nem eram sujeitos de outros projetos educativos a não ser
como objetos da assistência social, mais ou menos como hoje
através de tantas bolsas: bolsa alimentação,
bolsa escola, PETI, bolsa renda, Agente Jovem, bonus gás.
Até os anos 1950, como me referi acima, esses eram pouco
pensados como sujeitos da aprendizagem escolar, a não ser
por alguns rebeldes ou por vozes isoladas de alguns intelectuais.
No Brasil, em 1942, cria-se o Fundo do Ensino Primário,
semelhante ao FUNDEF atual que era um fundo mais amplo, pois incluía
as criancinhas e os maiores de 15 anos. O de hoje os exclui. Implantado
em 1947, começa a se ampliar a escolarização
no país como responsabilidade também do governo
federal.
EC Então, a Educação Escolar inicialmente
não incluía os (as) trabalhadores (as)?
João Francisco Incluía-os apenas marginalmente.
Como se sabe, a educação escolar tal como a conhecemos,
para tomar o marco do que aconteceu na Prússia, de 1871,
como sistema público de ensino, como responsabilidade dos
governos nacionais e direito subjetivo dos cidadãos não
incluía em seu projeto original os trabalhadores urbanos
ou rurais. Cidadãos na época eram apenas os setores
médios urbanos que estavam se desempregando. Esses setores
inventaram, então, a Escola para instrumentalizá-los
para a realização de atividades econômicas
regulamentadas. Casaram a escola com a regulamentação
das profissões. A partir de então, só se
pode exercer determinadas profissões com o certificado
escolar (o diploma). E foi um sucesso total. Viraram médicos,
engenheiros, advogados, enfim criaram-se as profissões
liberais, e os quadros para servir à burocracia dos Estados
Nacionais, esses inventados, com sucesso, à raiz da vitória
da Revolução Industrial. Inventa-se, assim, a estrutura
escolar seriada (cada ano letivo, correspondente a um ano civil),
com aprovação e reprovação no final
do ano, um professor por turma até a quarta série
e, a partir daí, um professor por disciplina. Requisito
essencial à certificação da educação
básica para ingresso na educação superior
profissionalizante. Uma diretora e supervisora por escola ou por
grupamento de escolas dependendo do tamanho da mesma.
EC E como funciona nos dias de hoje?
João Francisco A educação popular,
como a conhecemos hoje, ainda que alguns intelectuais e sistemas
de ensino continuem identificando educação popular
com a expansão da escola para os setores populares, começa
a ser inventada na América Latina no final da década
de 1950 início de 1960, especialmente no Brasil com a instalação
do MCP de Recife que se espalhou por outros estados brasileiros,
o MEB (Movimento de Educação de Base) da Conferência
dos Bispos da Brasil em convênio com a Presidência
da República e os CPC (Centros Populares de Cultura) da
União Nacional dos Estudantes (UNE) etc.
A educação popular passa a ser identificada com
uma Proposta Pedagógica, que partindo das aspirações,
frustrações, desejos, projetos e anelos dos diferentes
setores da classe trabalhadora, concretiza-se através das
mais diversas e diferentes atividades sociais, econômicas,
sociais, políticas e religiosas, organizativas, artísticas
e de lazer, inclusive das escolas de educação básica
e superior. Começa, então, a invenção
da Educação Popular, ainda que, por um certo tempo,
tenha se desenvolvido por fora das escolas de educação
básica e superior. A partir da segunda metade dos 1980,
retoma-se a aproximação entre escola e Educação
Popular.
EC Houve algum retrocesso? Qual?
João Francisco Quaisquer movimentos humanos
têm seus avanços e recuos. Diferente não poderia
ter sido com a construção da resposta da educação
popular, inclusive porque a sua identificação com
o movimento socialista da América Latina e contra as ditaduras
militares do continente leva-a a sofrer os reveses que experimentaram
esses movimentos. Mas, o movimento da educação popular
qual Fênix da modernidade/pós-modernidade renasce
de suas cinzas e se afirma como uma das propostas pedagógicas
(teoria, práticas pedagógicas escolares e não-escolares)
mais esperançadoras do atual contexto histórico.
Ainda que muitos lhes rejeitem o batismo (EDUCAÇÃO
POPULAR), assumiram todas as suas intuições básicas
e as teorizações que foram sendo elaboradas ao longo
do seu percurso. Mas, o maior risco é a sua excessiva institucionalização
e apropriação por grupos e governos que não
têm uma perspectiva de emancipação humana,
de construção da humanidade do ser humano e de todos
os seres humanos em todos os rincões da terra e em todas
as modulações humanas possíveis.
Quaisquer
movimentos humanos têm seus avanços e recuos.
Diferente não poderia ter sido com a construção
da resposta da educação popular, inclusive
porque a sua identificação com o movimento
socialista da América Latina e contra as ditaduras
militares do continente leva-a a sofrer os reveses que
experimentaram esses movimentos. |
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EC
E quais os avanços na formação do Educador
Popular? Houve algum retrocesso?
João Francisco O debate sobre a formação
de educadores e educadoras para a Educação Popular
se intensifica a partir da formulação do problema
da qualidade de sua prática pedagógica, bem como
dos possíveis impactos de suas bases teóricas na
educação escolar, e ainda da discussão da
necessidade de garantir a dimensão pedagógica em
suas práticas diferentes.
Essas questões explicitam a necessidade de melhor formular
e resolver o problema da formação de educadores
e educadoras que possam tanto interferir nos movimentos sociais
populares quanto nas práticas educativas escolares e na
formulação de políticas públicas de
educação que garantam qualidade de vida para as
maiorias latino-americanas.
Assim sendo, a formação dos profissionais da Educação
Popular emerge como o desafio mais importante para suas atividades.
Não que ela, por si só, seja capaz de resolver todos
os problemas da educação, mas sem uma formação
adequada dos educadores e das educadoras pouco se conseguirá.
As perspectivas emergentes consubstanciam as exigências
acima indicadas e devem ser preocupação e ocupação
dos envolvidos com idéias, processos e práticas
de Educação Popular. Entre essas exigências
está a convicção de que a formação
inicial e continuada de educadoras e educadores não pode
se restringir a momentos pontuais, mesmo que seguidos. Há
necessidade de se conceber um Curso sistemático e orgânico
que garanta uma sólida formação a ser desenvolvida
de maneira permanente. A formação implica, portanto,
tanto o processo intelectual e prático quanto a profissionalização
de educadores e educadoras: perspectivas, exigências e desafios
que ficaram consagradas na formulação da missão
do CEAAL (Conselho de Educação de Adultos da América
Latina) em sua IV Assembléia Geral da seguinte maneira:
Fortalecer as capacidades e a formação integral
dos educadores e educadoras populares, para que possam incidir
na ação de pessoas, grupos e movimentos sociais,
nos diversos âmbitos de sua prática educativa, na
promoção de processos socioculturais emancipadores
e na elaboração de agendas e políticas públicas
em favor da transformação democrática de
nossas sociedades e da conquista da paz e dos direitos humanos
.
Essa missão se propõe atingir fundamentalmente a
questão da formação/capacidade do educador
na suposição de que repercutirá tanto na
sua atuação junto às pessoas, grupos e movimentos
sociais quanto nas suas reflexões, sem, portanto, perder
a perspectiva libertadora apostando que esta pode ser efetivada
na transformação democrática de nossa sociedade
como condição de efetivar a paz e os direitos humanos.
Na dimensão pedagógica se identificam, entre outros,
três grandes problemas além da formação/capacidade
da educadora e do educador: a própria teoria educacional
(Educação Popular), a qualidade e o resultado dos
processos educativos e a relação pedagógica.
Problemas que estão necessitando de maior compreensão
não apenas dos educadores populares, mas dos educadores
de qualquer modalidade educativa. É a educação
em todas as suas dimensões e modalidades que se encontra
em face de uma necessidade de reinvenção.
EC Como e quando conheceu o educador Paulo Freire?
João Francisco Conheci o Prof. Paulo Freire,
no idos de 1961, no Movimento de Cultura Popular de Recife (MCP),
quando ele se encontrava experimentando o que viria a ser conhecido
posteriormente como o Sistema Paulo Freire de Educação.
Naquele momento ele coordenava a Divisão de Pesquisa do
MCP. E logo, em seguida (1963) passou a coordenador o Serviço
de Extensão Cultural (SEC) da Universidade de Recife, a
hoje UFPE. A partir do SEC, coordenou a primeira realização
massiva de seu sistema em Angicos, Rio Grande do Norte. A partir
dessas experiências, forjou a proposta pedagógica
que continua sendo a mais completa e consistente teorização
da Educação Popular. Essa afirmação
não implica que não necessite de confrontação
com os problemas atuais que enfrentam os processos educativos
escolares e sociais.
EC Qual a influência dos ensinamentos de Paulo
Freire na sua vida e no seu trabalho?
João Francisco Essa é uma pergunta difícil
de responder. Avaliar a influência de uma pessoa e de um
pensamento na nossa vida e no nosso trabalho não é
coisa simples. Deixemos que outros tentem fazer essa avaliação.
Acho muito estranho alguém se denominar freireano, gramsciano,
marxista; além de pretensioso, é arriscado. No entanto,
posso dizer o que mais me impressiona em Paulo Freire. Primeiramente,
sua estatura humana, sua capacidade de respeitar, de ouvir e de
prestar atenção no outro. Intelectualmente, sua
capacidade de questionar-se, de refletir, de fazer os outros pensarem,
seu desejo de rever seu próprio pensamento, de refletir
sobre sua prática teórica e sua ação.
Se, por acaso, isso aprendi dele, já teria aprendido demasiado.
EC Em seu trabalho Atualidade de Paulo Freire:
contribuição ao debate sobre a educação
na diversidade cultural, analisa as implicações
da diversidade cultural ou pluriculturalidade para a prática
pedagógica. Que implicações seriam essas?
João Francisco O pensamento de Paulo Freire
nos vacina, espero que de uma vez por todas, contra o pedagogismo
e o politicismo nos processos educativos, propugnando pela politicidade
e pedagogicidade da educação, ao tempo que assume
uma perspectiva inter/multicultural crítica para as sociedades
da pós-modernidade/mundo como feição de uma
democracia que combine representação com participação.
Essas perspectivas político-pedagógicas proporcionarão
as condições para que os processos educativos garantam
sua contribuição à formação
do sujeito humano que exige colocar a extraordinária competência
científico-tecnológica conquistada pela humanidade
a serviço da competência humana de todos os seres
humanos, nas mais diversas expressões culturais. A competência
humana implica eficiência e eficácia econômica
e simbólica, em outras relações de poder
e de saber.
A pedagogia do oprimido, do saber, da esperança, da autonomia,
ou seja, a obra de Paulo Freire propõe uma compreensão
integral do ser humano e de sua cultura, da sociedade e da história,
como possibilidades e não fatalidades, que engloba as ações,
as idéias, as emoções de todos os homens
e mulheres em todas as idades e condições, inclusive
a luta pela construção da humanidade do ser humano
em sua integralidade individual e coletiva, econômica, política
e gnosiológica. Propõe uma educação
pensada e, sobretudo, praticada, não apenas no nível
da formação do sujeito humano individual, mas também
do humano coletivo, de tal maneira que garanta a liberdade, constitutiva
do ser humano sujeito na construção de si mesmo,
e a justiça entre os seres humanos que, organizadamente,
conformam novas relações sociais, necessárias
ao contexto da pós-modernidade/mundo-inter/multicultural
e crítica.
EC - O Brasil é uma país com diversidades culturais
dentro das próprias regiões. Quais são as
conseqüências disso na Educação?
João Francisco - Uma educação, na perspectiva
em que acabo de desenhar algumas características, se faz
necessária, em todas as nações, apresentando-se
mesmo tão necessária quanto urgente, desafiante
pela complexidade dos cenários atualmente existentes. Implica
uma democratização ampla, radical, profunda, consistente
e criadora das condições de promoção
da competência humana de todos os seres humanos em todos
os quadrantes da Terra. Faz-se de modo especial necessária,
dado o aprofundamento e as sutilezas das dominações,
desigualdades econômico-sociais e exclusões culturais
predominantes, em todas as dimensões do ser humano e das
relações sociais. Uma democratização
fundamental implica uma democratização cultural;
ou melhor, uma nova feição e um novo dinamismo para
a cultura que, por sua vez, não pode se concretizar sem
uma atenção especial aos déficits quantitativos
e qualitativos de nossa educação escolar que
impedem, dificultam ou contribuem para a criação
de uma mentalidade democrática, como defende Paulo
Freire.
A questão da diversidade cultural evidencia, portanto,
o problema das possibilidades e/ou impossibilidades da convivência
inter e intragrupal das diferenças étnico-culturais,
de gênero, de religiões, de perspectivas políticas,
redução das diferenças econômico-sociais
e da superação das inclusões perversas. No
limite, tratar-se-á de uma democracia ou processo de democratização
cuja expressão seria uma sociedade pluti/inter/multi-cultural
crítica. Os problemas a serem enfrentados diuturnamente,
inclusive nos processos educativos, serão:
- Como as singularidades individuais e grupais vão conviver,
sem ser essa convivência uma mera justaposição
(pluriculturalidade), mas a conformação de uma comunidade
humana em sua singularidade convivendo (multiculturalidade) pelo
diálogo (interculturalidade) de tal maneira que todos ganhem
e possam se enriquecer material e culturalmente?
- Então, como conceber e manejar o problema das identidades
socioculturais que, ao configurar as singularidades, geram as
diferenças e, muitas vezes, as desigualdades econômico-sociais?
Inicialmente, é importante salientar que não se
está a buscar uma convivência sem conflitividade;
mas a entrar em uma luta pela redução, ao máximo,
das desigualdades econômico-sociais e exclusões culturais,
provocadoras de violências e antagonismos que estão
se tornando insuportáveis. Portanto, temos que pensar uma
identidade cultural, seja de um indivíduo ou de uma coletividade,
não importa o tamanho, como uma construção
a partir da convivência com as diferenças singularizadoras
e não desequalizadoras de todas e quaisquer naturezas.
EC - A diversidade cultural tem como conseqüência
diversos conflitos: ideológicos, étnico-religiosos,
de classe, de gênero, entre outros. Mas há, muitas
vezes, no conflito, potencialidades e descobertas enriquecedoras.
Você poderia citar exemplos de experiências em educação
popular em que o conflito oportunizou novos caminhos?
João Francisco - Todas as experiências sérias
de Educação Popular têm se desenvolvido nesse
confronto. No mínimo se dá um conflito entre os
intelectuais e os populares que participam de diferentes culturas
(uma predominantemente escrita e a outra predominantemente oral).
Mas, talvez, as mais importantes sejam aquelas que constituíram
os movimentos sociais populares nas quais se deu o confronto entre
intelectuais e populares.
As tensões entre intelectuais e populares têm resultado,
entre outras razões, das diferentes conformações
e racionalidades de classe, de diferentes níveis de escolaridade
e de diversas perspectivas de vida e ideológicas: entre
os populares, pela busca de espaço, disputa de liderança,
suspeição; entre as organizações de
assessoria por divergências ideológicas e busca de
poder e prestígio.
Os membros dessas assessorias, que têm sido promotores do
começo dos movimentos sociais populares, como revelam e
reconhecem alguns dirigentes, numa pesquisa comparativa que realizei
entre o Brasil e o México, em determinados momentos da
trajetória, têm sido alvo de muitas maledicências.
As relações se tornam desagradáveis entre
eles, conforme pude constatar, porque põem em risco a autonomia
da organização popular ou a própria continuidade
do trabalho. Às vezes, a sua preocupação
política os leva a aparecer abertamente ao lado das organizações
populares, oportunizando críticas muito severas de governos
de turno e/ou de intelectuais de direita.
Mas, atualmente, as instituições de assessoria e
também as organizações populares, tanto da
área urbana quanto rural, parceiras da pesquisa, vivem
uma transformação nessas relações
e as reconstroem num nível de cooperação
mais horizontal. Também estão construindo seus próprios
horizontes. Estão as assessorias se conformando num amplo
movimento social de "classe média", com perigos
e potencialidades. Desde que continuem se vendo como pólos
inseparáveis das organizações populares,
no processo de democratização, do processo de transformação
social, de inovação cultural e de produção
de saberes, é uma perspectiva politicamente importante.
Cada segmento social tem seus interesses específicos a
promover, além da inserção na construção
dos interesses comuns. E, como tais, têm que ir construindo
suas especificidades e as inter-relações necessárias,
sob pena de prejudicar o próprio processo que desejam construir.
Estão essas assessorias procurando conformar redes para
unificar trabalhos, recursos humanos e financeiros, e adequar
sua forma de vinculação com os movimentos sociais
populares, urbanos e rurais, buscando organizar, juntos, projetos
para a cidade, para o campo, para a capacitação
dos membros dos movimentos que entram nas administrações
municipais, na elaboração, no apoio e monitoramento
das políticas sociais, iniciativas de caráter legislativo,
questões técnico-ambientais . Mas, conforme estou
argumentando, é fundamental a intensificação
das relações entre intelectuais críticos
e organizações populares, urbanas e rurais.
Depoimentos de vários dirigentes dos movimentos sociais
populares identificam a importância de sua relação
com as IAMOPs, valorizam sua contribuição. Percebem
as causas das dificuldades em suas relações, na
falta de clareza dos papéis específicos e, sobretudo,
na luta pelo poder, no interior dos movimentos. Cito, só
para exemplificar, o depoimento de um dirigente do MST aqui mesmo
do Rio Grande do Sul:
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Ajudar-nos
a relacionar a prática com a teoria é um negócio
complicado. Quem já trabalhou mais isso e acredita
na nossa ação tem a obrigação
de nos ajudar. Tem que apoiar o trabalhador para que ele evolua
no conhecimento. O assessor já domina certos conhecimentos
que o trabalhador ainda não tem. O conhecimento é
uma coisa que tu não podes ficar com ele só
para ti. Tem que passar para os outros. Então, o assessor
tem uma tarefa importante, fértil: semear esse conhecimento.
Mas tem que ter jeito de trabalhar com o camponês. Só
a teoria não vai. Tem que levar de uma forma bem-adequada.
Há uma grande necessidade de ligação
da teoria com a prática e da prática com a teoria.
Só o intelectual não vai fazer mudança.
Ninguém faz mudança sozinho. Os trabalhadores
têm que ir mudando sua cultura, aumentando seu entendimento,
aprendendo. |
Começam
a formular essa relação como uma confrontação
necessária, tanto na produção do saber como
na construção de um poder social mais desconcentrado
e descentralizado. Essa confrontação não
é apenas o diálogo de lógicas diferentes,
mas de compromissos de vida e de perspectivas ético-políticas
diversas e, às vezes, divergentes.
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