O I
Ching das eleições
A
verdadeira comunidade entre os homens deve basear-se em interesses
de caráter universal. Não são os propósitos
particulares do indivíduo, mas os objetivos da humanidade
que criam uma comunidade duradoura entre os homens. (...) Quando
prevalece esse tipo de união, deve-se levar a cabo até
mesmo tarefas difíceis e perigosas, como a travessia
da grande água. Porém, para que se possa formar
uma tal comunidade, é necessário um líder
perseverante e lúcido, que tenha metas claras, convincentes,
que desperte entusiasmo e que possua força para realizá-las.
(Do I Ching, livro de adivinhação
dos antigos sábios chineses)
Paulo César Teixeira
ão consta que os principais candidatos à sucessão
do presidente Fernando Henrique Cardoso sejam dados a leituras
esotéricas. Muito menos que subam montanhas para ouvir
a palavra de arautos que vivem como ermitões. Os políticos
hoje recorrem a magos com outras artimanhas os especialistas
em marketing para ajudá-los a formular as estratégias
de ação. Em vez do embate ideológico, prevalece
a construção meticulosa de imagens com base em
pesquisas de opinião pública. Ao invés
da discussão do conteúdo dos programas de governo,
despontam virtudes pessoais dos que ambicionam chegar ao poder.
Como decifrar o que está por trás do cenário
confuso e incerto de discursos semelhantes, propostas genéricas
e promessas vãs da disputa eleitoral?
Uma das chaves para entender o marketing político
é perceber que ele trabalha com elementos objetivos.
Não se trata de inventar fantasias, e sim de exagerar
e explorar ao máximo traços da personalidade,
do estilo e da história de vida do candidato. Portanto,
é uma construção sobre a realidade,
afirma o professor de Sociologia da Comunicação
de Massa da USP, Álvaro de Aquino Gullo. Um exemplo é
o candidato da Frente Trabalhista (PPS, PDT e PTB), apoiado
pelo PFL, Ciro Gomes, que num primeiro momento desbancou José
Serra, do PSDB, como provável rival de Luís Inácio
Lula da Silva (PT), no segundo turno, depois do horário
gratuito na TV provou do próprio veneno e acabou caindo
novamente. Ciro fala demais, corta no meio as explanações
de interlocutores, é explosivo. A tentativa é
transformar uma peculiaridade do temperamento numa demonstração
de força política, assinala Gullo.
A imagem de destemido e valentão foi reforçada
para alavancar a subida de Ciro nas pesquisas, por sugestão
de Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, que também
assessorou Fernando Collor de Melo na campanha de 1989. Pesquisas
qualitativas teriam mostrado que boa parte dos eleitores preferem
um candidato com o estilo de Collor, sem os defeitos
do ex-presidente. Ciro aparece como um falcão,
que chega para sacudir a poeira. O discurso não é
radical, mas o método é agressivo, sustenta
Aspásia Camargo, professora da Escola Brasileira de Administração
Pública da FGV/RJ. O problema é que ele
tem, de fato, pavio curto e perde a cabeça com facilidade,
acrescenta ela. Com o início do horário eleitoral
na televisão e no rádio, o candidato amenizou
o discurso, temendo perder pontos na verdade, o destempero
programado de Ciro já teria cumprido o papel de ultrapassar
Serra e colocar o candidato trabalhista às portas do
segundo turno, mas nem a agressividade nem a poderação
lhe impediram de perder pontos e empatar com Serra (dados colhidos
até o fechamento desta edição, 1º
de setembro).
Continua:
- Direita se apropria
da campanha de Ciro
- Trator de Serra
não une os conservadores
- Lula:
de sapo barbudo a senhor "bonito e simpático"
- Polarização
no estado é acirrada