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O
petróleo é deles
René
Cabrales
A
Petrobras, segundo o Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do
Sul (Sindipetrosul), está sofrendo um processo de esquartejamento
por parte do governo federal. A intenção seria quebrar
os pedaços para vendê-la mais facilmente, longe dos
olhos da opinião pública. Uma das primeiras vítimas
foi a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas. De sua
estrutura, 30% foram envolvidos em uma troca de ativos com a empresa
YPF-Repsol, espanhola radicada na Argentina. Além de o
negócio ser, conforme os petroleiros, desvantajoso para
o Brasil, a Petrobras perdeu preciosos R$ 792 milhões só
na desvalorização do peso argentino, no fim do ano
passado. Tentando reverter o caso, foi ajuizada em 2001 uma ação
civil pública, ainda sem resultados conclusivos. A intenção
dos petroleiros é barrar o desmantelamento da empresa,
voltando, quem sabe, aos tempos da construção do
projeto de desenvolvimento nacional e das emblemáticas
campanhas como O petróleo é nosso, do
escritor Monteiro Lobato.
Jéferson Assunção
Desfazendo o negócio
s
petroleiros brasileiros aguardam na justiça a decisão
de uma ação popular que visa desfazer um negócio,
considerado por eles lesivo aos interesses do País. Trata-se
da troca de ativos entre a Petrobras e a argentino-espanhola YPF-Repsol.
Além de acusarem a empresa brasileira de avaliar para menos
sua parte no negócio, os trabalhadores apontam um prejuízo
de R$ 792 milhões, só com a dèbacle da Argentina.
A desvalorização do peso frente o dólar,
em dezembro de 2001, levou junto uma boa parte desse patrimônio.
Se esse é um grande problema, é, no entanto, bem
menor que um outro, apontado pelos trabalhadores. O presidente
do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul (Sindipetrosul),
Dari Beck Filho, afirma: Esse é o modelo que o governo
encontrou para fazer a privatização sem sofrer a
pressão da sociedade. Basta lembrar o que aconteceu quando
queriam trocar o nome da empresa para Petrobrax. A reação
dos brasileiros foi muito forte, explica Beck Filho.
Conforme o sindicalista, há uma identidade muito grande
entre o povo brasileiro e a Petrobras, o que torna a empresa um
dos mais fortes símbolos da indústria nacional e
da soberania do País. Fazer um leilão de uma
empresa deste tamanho seria muito difícil. Até poderiam
vendê-la, mas o desgaste político seria muito grande
devido à comoção da sociedade, sustenta
Beck Filho.
Ele aponta, como indício dessa intenção,
a venda de áreas em campos de exploração
de petróleo nas bacias de Campos, de Santos e no Paraná.
Já ocorreram quatro leilões de vendas de áreas
de exploração desses locais, antes monopolizados
pela empresa pública. No setor petroquímico, a privatização
também já aconteceu. A Petroquisa, subsidiária
da Petrobras, é hoje uma casca vazia, afirma o sindicalista.
A Petrobras, conforme Assessoria de imprensa da Refap. S. A.,
argumenta que se trata da Lei de Petróleo, que teria definido
esta abertura. A Lei número 9.478 de 6 de agosto de 1997,
segundo informa o site da Agência Nacional do Petróleo
(ANP), incentiva através de suas diretrizes o desenvolvimento
tecnológico na exploração do petróleo
no Brasil. Para os trabalhadores, trata-se do resultado de um
grande lobby, que conseguiu abrir o Brasil para empresas de capital
transnacional.
No setor de refino, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), de
Canoas, foi a primeira vítima. Um dos símbolos do
desenvolvimento no Estado, a Refap é fonte de arrecadação
para os gaúchos e emblemático patrimônio.
Afinal, foi no Rio Grande do Sul que o refino de petróleo
começou (leia abaixo). Uma grande parte dela é hoje
propriedade privada. A próxima refinaria na lista
para ser privatizada é a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc),
no Rio de Janeiro. Mas eles ainda não conseguiram nenhum
parceiro¸ informa Beck Filho.
Os trabalhadores afirmam que o caminho da venda aos pedaços
vem sendo trilhado longe dos holofotes e das câmeras de
tevê para evitar a pressão da opinião pública,
até porque o momento é emblemático quando
se trata de petróleo. Base do modelo energético
do mundo todo, o domínio do ouro negro e da
tecnologia para encontrá-lo, extraí-lo e processá-lo
ainda é estratégico para qualquer país. Como
ela é uma empresa muito grande e importante no imaginário
dos brasileiros, o governo precisaria encontrar uma estratégia.
A solução foi reparti-la, alerta o advogado
Cláudio Pimentel, um dos assessores jurídicos do
Sindipetrosul.
| René
Cabrales |
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Questão
de soberania
Não
são muitos os que têm, como o Brasil, o produto e
sabem o que fazer com ele. Os Estados Unidos, por exemplo, que
consomem 25% do petróleo do mundo, estão constantemente
em problemas de ordem política, cultural e até militar
com países exportadores de petróleo como a Venezuela
de Hugo Chavez e o Iraque de Sadan Hussein. Por isso, não
é de hoje que os petroleiros afirmam em suas campanhas
que ter petróleo é uma questão de soberania.
É o que tentam deixar claro também na campanha Privatizar
faz mal ao Brasil, lançada quase ao mesmo tempo que
a ação civil pública para rever o troca entre
Petrobrás x Repsol.
A operação foi, no mínimo, nebulosa. Uma
das nuvens que pairam sobre essa história é o estado
demissionário do então presidente da empresa, Henri
Reichstul. Ele foi uma das pessoas que mais se empenharam em fechar
a negociação, mesmo num momento em que todas as
empresas multinacionais saíam da Argentina. Emblematicamente,
pediu demissão dois dias antes do então presidente
argentino Fernando de La Rúa renunciar, conforme a imprensa
noticiou amplamente.
Desde o início de 2001, dizia-se que a Argentina iria quebrar,
e que a desvalorização do peso viria com um grande
baque na economia da região. Aos poucos, empresas foram
se retirando, bancos fecharam e até mesmo a classe média
alta resolveu abandonar o barco sul-americano em busca de um lugar
seguro, principalmente na Itália, Espanha e Estados Unidos.
Dentro da própria Petrobras já havia propostas de
cautela para evitar prejuízos com o fechamento do negócio,
e os trabalhadores alertavam para os enormes riscos da operação.
A Petrobras seguiu adiante.
Na troca de ativos, os brasileiros deram 30% da Refap, em Canoas,
10% do campo de exploração de petróleo de
Albacoara Leste, no Rio de Janeiro, e mais uma rede de 350 postos
da BR nas regiões Sul e Sudeste. Tudo no valor de US$ 500
milhões. Os trabalhadores afirmam que o patrimônio
vale pelo menos US$ 3 bilhões. Por seu lado, a Repsol deu
US$ 500 milhões em uma rede de 700 postos na Argentina
e uma refinaria em Baía Blanca. Segundo o presidente da
Aepet, Fernando Leite Siqueira, além de a Petrobras
avaliar para menos o que deu na troca, o que a Repsol diz valer
US$ 500 milhões não fica em US$ 400 milhões.
Continua:
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