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Alca:
corrida contra o tempo
Ricardo
Pont
Vai longe o tempo em que debater a Área de Livre Comércio
das Américas se resumia a especular sobre um novo cenário
de cooperação econômica digno de ser explorado
em provas de Geografia de vestibular. Questionar o tratado quase
dez anos depois da formatação proposta pelos Estados
Unidos exige, hoje, habilidade para driblar o calendário.
Termina em abril o prazo para que o Brasil apresente uma lista
inicial com os produtos que deseja importar em menor quantidade
para que a concorrência americana que produz pagando
juros dez vezes menores não leve o mercado doméstico
à falência. É o começo da costura concreta
do acordo, a desafiar o presidente recém-eleito que, até
lá, terá menos de 100 dias de mandato. A fim de
apontar a seta ao sucessor de Fernando Henrique, centrais sindicais
e movimentos populares escolheram a Semana da Pátria para
promover um plebiscito popular, aberto no domingo passado.
Ainda dá tempo de votar. Cerca de três milhões
de cédulas foram distribuídas, só no Rio
Grande do Sul, para que igrejas, portas de fábricas, escolas
e sindicatos recolham em urnas, até o dia 7, os votos de
brasileiros maiores de 16 anos que portarem carteira de eleitor.
A sede do Sinpro é um dos pontos de votação.
Cada participante responde a três perguntas, duas delas
relacionadas ao acordo de livre comércio e uma questionando
o mérito de um projeto que tramita no Congresso cedendo
parte do território do Maranhão para que os EUA
instalem base de experimento militar. A intenção
dos promotores da consulta (apoiada pela CNBB, CUT e MST) é
superar os seis milhões de votos computados no plebiscito
sobre a Dívida Externa, realizado em 2000. Conforme o integrante
do Comitê Estadual de Luta Contra a Alca, Carlos Henrique
de Almeida, a apuração se estende até 14
de setembro (confira o resultado pela Internet: www.sinpro-rs.gov.br).
Três dias depois, coordenadores do processo lideram caravana
até Brasília e repassam o documento ao STJ, ao Congresso
e aos Ministérios da Fazenda e das Relações
Exteriores. Na quarta-feira, 18, promovem plenária nacional
em que pretendem contar com, pelo menos, um representante de cada
cidade ouvida pela consulta.
A vantagem bruta do não sobre o sim
à Alca parece ser o que menos importa. Por não ter
amparo legal, o plebiscito pode parar na gaveta do Planalto, dependendo
do perfil do próximo governo. A consulta popular procura,
mais do que isso, fazer a população entender e discutir
as bases do acordo para que o sinal de alerta seja mantido.
Deixar a Alca passar é como colocar a raposa a cuidar
do galinheiro, resume o assessor do Setor Pastoral da CNBB,
Alfredo José Gonçalves. Segundo ele, quando não
rendem seminários específicos, as questões
que envolvem o tema pontuam missas e catequeses, às vezes
enxertadas no sermão pelos próprios bispos de diocese.
Gonçalves diz que a Igreja entende o plebiscito como uma
forma de pressão resultante de um debate que expõe
um livre comércio de mão única,
que tende a levar à ruína a microempresa e a agricultura
familiar das nações em desenvolvimento.
| René
Cabrales |
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7ª
Marcha dos Sem, em Uruguaiana: pela primeira vez na
história, a caminhada
teve caráter internacional
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Autonomia
em risco
Para o presidente da CUT, João Felício,
da forma como se apresenta, a Alca põe em risco
a soberania de nações cujos mercados não
têm café no bule para enfrentar a economia
globalizada, ditada da Flórida para baixo. Fechar
o acordo sem alterá-lo é amargar a ditadura
eterna de mercado, já que o livre comércio
se sobrepõe à lei trabalhista e às
constituições federais, que acabam tendo
que se adequar ao processo, adverte. Segundo Felício,
o debate gerado pelo plebiscito pode resultar na aprovação
de um referendo nacional sobre o tema, já proposto
no Congresso pelo deputado petista José Dirceu.
Cabe lembrar que o instrumento da consulta popular,
previsto na Constituição, só foi
utilizado uma vez na história brasileira
quando a população decidiu optar pelo
regime parlamentarista. O presidente da CUT também
defende a importância do voto consciente. Professores
- e eu me incluo no grupo - devem aproveitar a discussão
para transformar em lição de vida um período
de Geografia ou seja de que disciplina for, recomenda.
É a idéia que move o também professor
Antônio Campagnolo, que decidiu inserir o debate
sobre livre comércio nos planos de aula da coordenação
pedagógica da Escola de Ensino Fundamental Antônio
Alves Ramos, de Santa Maria. O primeiro passo foi familiarizar
os professores com o assunto. A iniciativa foi amadurecendo
até culminar, em 31 de agosto, com a confecção
de textos produzidos por alunos de 10 a 16 anos, que
levaram o debate família adentro, envolvendo
pelo menos mil pessoas nas cercanias do bairro Patronato.
Diretor da escola, Campagnolo afirma que a adesão
ao projeto teve o voto favorável de quase todo
o corpo docente.
O exemplo de Santa Maria se assemelha a uma série
de outras iniciativas incentivadas pelas delegacias
regionais do Sinpro. A participação do
sindicato na campanha foi definida em seminário
realizado em julho, e reforçada a partir de dois
de agosto, quando uma delegação foi a
Uruguaiana para participar da 7ª Marcha dos Sem.
Pela primeira vez na história, a caminhada teve
caráter internacional: além da CUT, a
argentina CTA e a uruguaia PIC/CTN uniram bandeiras
perto da Ponte Internacional, tendo a Alca como um dos
eixos de combate. O coordenador da Secretaria de Organização
do Sinpro, Cássio Bessa, explica que a campanha
pela revisão do acordo comercial fortalece a
posição histórica do sindicato
de defender o interesse público em um cenário
onde a escola privada, por exemplo, deve seguir sendo
uma opção.
Não é bem isso que prevê a Alca.
Economistas antecipam que a instituição
do acordo de livre comércio derrubaria, em tese,
a garantia da gratuidade do ensino oferecido pelo Estado.
Na prática, o atual formato do tratado permite
que uma escola privada que se sinta prejudicada pela
concorrência pública abra processo acusando
o Município ou o Estado de impedir o livre investimento.
O argumento tem garantido ganhos de causa similares
no México, desde a adesão do país
ao Tratado de Livre Comércio da América
do Norte (Nafta), em 94. |
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Comissão
divulga resultados
Chefiada pelo deputado pernambucano Aldo Rebelo (PC do B), a Comissão
de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Congresso
pretende elaborar, até março, um balanço
com os resultados de audiências públicas sobre a
Alca, programadas para ocorrer nas principais capitais brasileiras.
Para Rebelo, o plebiscito popular será peça importante
em campanha que tem como trunfo um levantamento da Fiesp que estima
em US$ 1 bilhão o déficit anual na balança
comercial brasileira, caso a Alca passe sem as concessões
americanas. Os maiores perdedores seriam os exportadores brasileiros
de cana-de-açúcar, álcool, suco de laranja,
calçados, aço, soja e algodão. É no
lobby desses setores que sustentam economias inteiras de
cidades ou de regiões do País que Rebelo
aposta para convencer a maioria do Parlamento a fincar o pé.
No Ministério da Agricultura, o alerta se volta para o
chamado TPA, protocolo aprovado em julho pelo parlamento americano
que dá ao presidente George Bush 5 anos de autonomia para
negociar acordos de comércio sem que precise do aval do
Congresso. O secretário de Produção e Comercialização
do Ministério, Pedro Camargo Neto, explica que, desta vez,
a autorização inclui cláusulas protegendo
setores da economia americana considerados sensíveis
e afetando, justamente, a comissão de frente da exportação
primária brasileira. Ainda assim, o executivo entende que
deixar de participar do acordo não é a melhor solução.
O nervosismo dos mercados frente ao dólar e
o peso do PIB norte-americano em relação ao do Brasil
não deixam dúvidas de que virar as costas para um
tratado comercial envolvendo os Estados Unidos é praticamente
inviável. O plebiscito vem para tornar claro, porém,
até que ponto o País se dispõe a ser, na
prática, só mais um anexo em bloco com 33 asseclas
e uma chefia bem definida posição chinfrim,
diga-se de passagem, para uma economia que responde por 40% de
tudo o que se produz do México para baixo.
Também:
- O petróleo
é deles
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