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Cama, mesa e urna
Nei
Lisboa
Marca
da campanha eleitoral deste ano, o uso e abuso de namoradas, esposas
e congêneres na caça ao voto feminino aponta também
para uma busca de afirmação da masculinidade dos
candidatos. No imaginário popular, querem crer os marqueteiros,
o macho com uma vice-loira à disposição para
agrados e adulações é potente e esperto o
bastante para merecer o cargo que pleiteia. É uma pena
que não se reserve esse tipo de julgamento exclusivamente
para o pódio da Expointer, qualificando a administração
pública e o legislativo por outros critérios.
Numa versão local e diferenciada, mas de similar apelo
ao eleitor, o candidato Antônio Britto parece preocupado
em fixar uma imagem de paternidade que lhe sublinharia o discurso,
sempre afeito a lirismos e votos de reconciliadora união
da família riograndense. Quero deixar claro que dispenso,
nessa matéria, especulações sobre a intimidade
de quem quer que seja, em geral a reboque da boataria vil que
oportunamente se instala em períodos eleitorais e a qual,
de resto, todos os concorrentes estão sujeitos. Ao contrário,
interessa examinar aquilo que publicamente está posto,
em sua dimensão política e midiática.
E aí, diga-se, é o próprio candidato ao Governo
do Estado que conjuga o anúncio de filhos por nascer com
cerimônias partidárias, programas eleitorais com
referências à neta querida, o amor que nutre por
seus rebentos com o equivalente que teria por aquele a quem pede
seu voto. À parte o gosto duvidoso de tais sentimentalismos
em dois turnos, o paralelo é sintomático e condizente
com uma concepção centralizada da administração
pública, que se vê ou se anuncia como carinhosa e
benevolente, mas a quem não ocorre a idéia de que
àqueles a quem trata como filhos já aliás
bem crescidinhos na democracia , à população
como um todo, caiba o papel de verdadeiro pai da criança.
Paternidade e paternalismo, eis a confusão, ou ato falho,
em que incorrem a imagem e a proposta de Antônio Britto.
Nada de inédito, dentro de uma perspectiva histórica
do poder associado a feudos familiares e seus compadrios financeiros
e empresariais. Mas já experimentamos coisa diferente por
aqui, em que mesmo os equívocos e percalços são
vividos e discutidos no âmbito de uma participação
direta, como frutos de nossas próprias decisões
e responsabilidades. Difícil retroceder o povo à
platéia depois de ele sentir o gostinho do palco. Ainda
mais quando se sabe o que pretendem e para tal fim prestam-se
as eleições tornadas concursos de testículos
e já tentaram fazer alguns com o Estado, aquela
preliminar indispensável, digamos, ressalvadas as inseminações
artificiais, para engravidar alguém ou, como no caso, deixá-lo
em grave estado.
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