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A pantomima
de Brasília
Luis
Fernando Verissimo
Você,
eu não sei, mas eu tenho feito o possível para acalmar
o mercado. Não há, é verdade, muito que se
possa fazer. Me limito a tentar não derrubar bandejas ou
produzir outros ruídos inesperados, e você jamais
me verá chegar por trás do mercado e gritar Moratória!
no seu ouvido. Mas desconfio de que estes cuidados têm tão
pouco efeito no mercado quanto a iniciativa da grande imprensa
de saudar os US$ 30 bilhões do FMI como a nossa redenção
e os encontros do presidente com os candidatos à sua sucessão
como uma garantia de comunhão e continuidade, ou de que
aqui ninguém é louco. O mercado continua nervoso.
A cobertura dos inéditos encontros do Éfe Agá
com os candidatos em Brasília só mostra, mais uma
vez, como é fácil transformar pseudo-eventos em
notícia, e História, quando interessa ao poder e
a imprensa colabora. Mas se nas reuniões só se disse
o óbvio e se elas não serviram para mudar a cabeça
de ninguém ou acalmar o mercado, foram importantes para
o RP do governo, que merece. O Éfe Agá quer deixar
como a melhor lembrança da sua administração
o que ela teve de melhor: sua própria bonomia e civilidade.
A grande notícia do pseudo-evento de Brasília não
é novidade e não é mentira: durante oito
anos tivemos na Presidência um homem decente que agora tenta
transformar um ato também inédito, no Brasil dos
últimos anos a transferência do poder de um
presidente eleito para outro , numa lição
de tolerância e democracia adulta. A pior notícia
é que esta educação política não
tem nenhuma aplicação prática, no momento.
Infelizmente, não é o RP que decide o futuro da
nossa economia, portanto o nosso. O que houve em Brasília
foi uma bela e inspiradora pantomima, mas uma pantomima.
Pensando bem, nossa presente desesperança vem um pouco
desse desencontro entre boa imagem e conseqüência.
O Éfe Agá e o Malan, outro homem fino e bem-intencionado,
são os antigenerais primários, os antipolíticos
caricatos, os anticucarachas, e mereciam outra consideração.
Mas o mercado não sabe distinguir estas coisas. Ainda mais
no seu atual estado de nervos.
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