| Sem brincadeira, agora é sério! Esta expressão, consagrada no senso comum, revela a tirania do mundo adulto em relação ao impulso da criança em estabelecer relações lúdicas em tudo que faz. Conforme especialistas, a brincadeira não é apenas um modo típico da criança manifestar sua subjetividade, mas principalmente uma forma de se apropriar do mundo, isto é, conhecê-lo segundo seu próprio ponto de vista e necessidades. Canal de resolução de maldades, bondades, medos, superação de desafios, crescimento, brincar integra um processo fundamental na formação saudável do indivíduo. Mas as rotinas disciplinares em casa e na escola tendem a reduzir o espaço lúdico, expressão espontânea e veículo de desenvolvimento afetivo e cognitivo. O resultado disso é um adulto amputado de uma parte essencial do exercício da personalidade. Antes que a sociedade industrial se impusesse como modelo universal e a infância fosse institucionalizada, a brincadeira simplesmente era parte integrante do universo humano, a catarse. O carnaval é um exemplo disso. Paulatinamente, a função pedagógica do brinquedo e da brincadeira vem sendo reconhecida. Porém, nesta perspectiva, passa a predominar a pedagogização da atividade lúdica, quer dizer, seu uso instrumentalizado, mais uma vez orientado para objetivos pré-determinados pelos adultos que, em boa parte, restringem a espontaneidade. Por Dóris Fialcoff |