A literatice, obviamente, poderia ser mais categorizada, não tivesse a única função de disfarçar o mau humor, o incômodo, a contrariedade com o rumo das coisas. Sim, porque não há humor que resista, não só pelo rumo das coisas propriamente, mas também pela inércia, pela apatia da sociedade que se entrega, docilmente, feito um condenado inocente, que deseja a hora fatal. O fato é que desconcerta a subversão da noção de modernidade que se impôs à humanidade.
No âmbito da mídia, com inserção praticamente hegemônica no senso comum, as mais decisivas utopias democráticas dos últimos 100 anos, transformaram-se em dogmas retrógrados e estreitos. A temida e reprovável sociedade da barbárie tornou-se sinônimo de modernidade. Nas últimas duas décadas, a reconstrução da democracia no plano político e institucional, no Brasil, não ampliou a mobilidade social, a qualidade de vida, não expandiu nem direitos individuais nem coletivos. Paradoxalmente, correspondeu a um processo de exclusão social e, mais recentemente, de cassação de direitos sociais históricos. Há uma tendência perigosa no padrão da cultura política dominante do não-questionar, como se fosse legítimo afirmar que "o mundo é o que é". Sob o argumento recorrente da globalização, exclusivamente através da internacionalização dos mercados, como um destino fatal da humanidade, justifica-se como inevitável a fome, a miséria, o desemprego.
Sob a antiga e tradicional lógica mercadológica, elevada à centésima potência, considera-se natural que a competição elimine os "despreparados". No caso, os despreparados são os pobres, as mulheres, os negros, os imigrantes, os jovens, os velhos, os países periféricos da América, da Ásia, da África. Enfim, todos àqueles que não têm as mesmas condições e oportunidades para a disputa. Desta forma, ressurgem sob a dissimulação de modernidade, a barbárie do darwinismo social. Adota-se, para "administrar" a sociedade, os mesmos paradigmas da seleção natural. Os fracos, os incompetentes devem desaparecer. Esta é a lei de mercado, que se apresenta como universal e definitiva, é que passa a presidir o mundo do trabalho no Brasil e em tantos outros lugares do planeta. É disso que tratamos na reportagem de capa desta edição, revelando que a barbárie contemporânea faz tábula rasa de uma longa e dolorosa trajetória de lutas sociais que institucionalizou, por um lado, o Estado de Bem-Estar Social e, por outro, o estatuto dos Direitos Humanos. Diante da barbárie, indagamos: modernidade, como assim?