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Eles não cansam de inventar algo

Casos de quem desafia a lógica

Universidades preferem a ciência

Quadro de inventos

Universidades criam centros de intermediação e facilitam negócios com empresários

Eles nunca defenderam uma tese, mas podem provar que suas engenhocas funcionam. E mais: que podem dar lucro a quem acreditar no seu potencial

Dóris Fialcoff

A dificuldade na rotina de partir os comprimidos, buscando a dose recomendada para os problemas cardíacos de sua mãe, acabou fazendo Ana Longuide Camillis, de 44 anos, virar inventora. Em meio à correria do dia-a-dia - além de mulher de negócios, ela também é casada e tem uma filha de 17 anos - Ana não tirava da cabeça a idéia de criar um cortador de comprimidos. Sem saber como desenvolvê-lo, socorreu-se com um sobrinho projetista. Foi parceria certa. Logo que o projeto ficou pronto, mandaram fazer a matriz, uma espécie de protótipo, e encaminharam o pedido de patente ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Muitas outras pessoas como Ana estão, neste exato momento, matutando soluções para problemas simples, mas que perturbam -infernizam, em alguns casos - a vida de muita gente. Quando têm algo em mente, eles não conseguem dormir e, sem sossego, vão ativando os neurônios. E haja criatividade para, ainda por cima, driblar a falta de dinheiro e apoio. Em geral, no Brasil, inventores só viabilizam seus projetos tirando dinheiro do próprio bolso.

Por um lado, é o orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia caindo cerca de 48% - no período de 1997 a 1999, passou de US$ 1,2 bilhão para US$ 700 milhões; por outro, a iniciativa privada que, descrente, prefere comprar o que vem de fora. E mais: a menina dos olhos daqueles que investem em pesquisa, sobretudo nos países de Terceiro Mundo, é a ciência pura. Ou seja, a ciência que não se enxerga, que não tem aplicação prática.

Para o secretário de Ciência e Tecnologia do estado, Adão Villaverde, a dependência, principalmente no que se refere à tecnologia, é um dos grandes entraves ao desenvolvimento de projetos alternativos. “A maioria dos países periféricos têm um avanço razoável no campo da ciência, mas no da tecnologia a lógica e os modelos de desenvolvimento conferiram à política científica um modelo de transferência, de importação”, analisa.

Villaverde, também presidente do Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Ciência e Tecnologia, diz que no período de 1993 a 1999 os gastos brasileiros com licenças para exploração de patentes cresceram cem vezes; os de transferência de tecnologia, 20 vezes; e os de software, oito vezes. “O resultado é um déficit enorme no balanço tecnológico do país: US$ 1,5 bilhão, em 1997, e US$ 3,4 bilhões acumulados no período que vai de 1993 a 1997”, quantifica. “O modelo deu as costas para a indústria nacional e privilegiou a entrada do capital volátil, esse que cria a dependência. Hoje o país e alguns de seus setores estratégicos vivem a desindustrialização, estão em processo de desmonte, de quebra”.

Para Roberto Nicolsky, professor de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no país a idéia de pesquisa confunde- se quase sempre com a ciência básica, isto é, com a busca de novos conhecimentos essenciais para publicação na literatura internacional e divulgação em conferências. Atecnologia, porém, utiliza os conhecimentos científicos já existentes para desenvolver produtos e processos inovadores, que são protegidos por registros oficiais (patentes). “Logo, se não for criada no país, (a tecnologia) terá que ser adquirida no exterior, a custos elevados”, completa.

De acordo com Nicolsky, o crescimento da cultura pela chamada pesquisa pura nos países não-desenvolvidos ocorre pela convicção de que viabiliza a publicação de artigos (papers) no exterior, o que dá prestígio e habilita seus autores ao apoio financeiro dos órgãos e programas de fomento. Já a pesquisa tecnológica não se dá por meio de papers, mas pela geração de patentes. O físico alerta que “no mundo globalizado, um país que produz ciência, mas não desenvolve a sua própria tecnologia, está em verdade contribuindo para o avanço tecnológico das economias que forem competentes no uso dos conhecimentos científicos disponíveis”.

Segundo dados do Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), em 1998 o Brasil gastou US$ 215 milhões com exploração de patente, US$ 594 milhões pelo fornecimento de tecnologia e mais US$ 1 bilhão em serviço de assistência técnica.

Para se ter uma idéia da defasagem entre a ciência e tecnologia nacionais, estatísticas publicadas na revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), edição de junho, mostram que, nos Estados Unidos, entre 1980 e 1993, o Brasil teve 47.184 artigos publicados em revistas indexadas pelo Institute of Scientific Information e apenas 751 patentes concedidas. A assessoria de imprensa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) informa que, das bolsas de estudos e de pesquisa concedidas em 1998, 39% foram destinadas à modalidade de iniciação científica e 5% para iniciação tecnológica e industrial. Os doutorados foram alvo de quase 22% da verba. É necessário lembrar que, geralmente, as teses não defendem projetos de inovações tecnológicas, mas descobertas científicas. E também que boa parte das patentes são concedidas a inventores individuais, não ligados a nenhuma instituição de ensino ou pesquisa.

Pesquisa exige investimento alto

A pesquisa para elaboração de novos produtos requer, na maioria das vezes, grandes investimentos. Proteger o produto a partir de uma patente significa prevenir-se de que competidores o copiem e vendam a um preço mais baixo, uma vez que eles não foram onerados com os custos do desenvolvimento. A patente é, portanto, um valioso instrumento para que a invenção e sua industrialização se torne um investimento rentável. A patente e o Registro de Desenho Industrial são títulos de propriedade temporária concedidos sobre uma invenção, modelo de utilidade ou desenho industrial, outorgados pelo Estado aos inventores. Estes, em contrapartida, são obrigados a revelar detalhadamente todo conteúdo técnico do que será protegido. Durante o prazo de vigência da patente ou registro, o titular tem o direito de excluir terceiros de atos relativos ao produto patenteado, sem prévia autorização, ou seja, fabricação, comercialização, importação, uso etc. A Patente de Invenção deve conter os seguintes requisitos: atividade inventiva, ser novidade (aferida em relação ao estado da técnica nacional e internacional) e aplicação industrial. O Modelo de Utilidade, por sua vez, implica em um menor grau de inventividade, caracterizando-se pela introdução de algum aperfeiçoamento em objetos ou ferramentas conhecidas para que desempenhem melhor sua função. É considerado Desenho Industrial a forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possam ser aplicados a um produto, proporcionando um resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial.

 

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