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Eles não
cansam de
inventar algo

Universidades
preferem a ciência

Quadro de
inventos

Universidades
criam centros
de intermediação
e facilitam
negócios com
empresários

Casos de quem desafia a lógica

Já imaginou poder aprender a tocar piano de forma doze vezes mais fácil? Pois é, esse é o sonho realizado do psiquiatra aposentado Antônio Celso Ferreira, de Porto Alegre. E, mais do que isso: realizado por ele, quando inventou um novo sistema de teclado, o Uniscala. Para quem não entende de música, é bem complicado explicar como funciona, mas Ferreira garante que seu teclado faz tudo que o tradicional faz, porém de maneira mais fácil.

O Uniscala, como já diz o nome, se caracteriza por ter uma escala só, ou seja, uma mesma dedilhação para todas as escalas maiores e também apenas uma para as menores. “O desenho da música é o mesmo para todas as tonalidades, portanto, em vez de estudar em 12, aprende-se em uma só”, explica Ferreira, justificando por que afirma que o seu teclado apresenta uma relação de um para doze em facilidade.

Como ele mesmo diz, “um inventor é aquele sujeito que não se conforma com as coisas como estão”. Quando começou estudar piano, há cerca de nove anos, tinha muita dificuldade para tocar em tons diferentes. Incomodado, passou a imaginar esquemas diverisificados de teclado para tentar facilitar a sua vida. Dois meses depois, quando achou que já tinha a solução, comprou um acordeão e adaptou o sistema que se baseia em uma distribuição mais lógica das teclas, nesse caso quadradas, sobrepostas às originais. Bingo! Funcionava. Tanto que, há dois anos, ele teve patente concedida ao seu invento.

Segundo o criador, sua obra faz bastante sucesso em feiras e exposições, inclusive com as crianças. Em junho de 1995, uma das principais revistas especializadas em teclados, a americana Keyboard, publicou uma matéria revelando o Uniscala. Isso rendeu telefonemas do mundo todo de pessoas interessadas em comprar a invenção. Ferreira, entretanto, não produz os teclados, pelo menos por enquanto. Apesar de haver uma empresa gaúcha acenando com a possibilidade de parceria para produzir e comercializar, o autor sabe que é difícil conquistar a confiança das pessoas e fugir do preconceito, afinal, são 400 anos de erudita tradição. “E eu não tenho pretensão nenhuma de competir com o teclado original, apenas é mais fácil de aprender a tocar”, avisa, admi-tindo que está nos seus planos montar uma escolinha para ensinar o seu sistema.

Fora dos institutos de pesquisa e universidades, os inventores no Brasil têm de caminhar com os próprios pés. Existem algumas poucas entidades que os representam, assim como a Associação Nacional dos Inventores, fundada, em São Paulo, no ano de 1992, que, segundo a assessoria de imprensa - tem o objetivo de garimpar e encaminhar boas idéias, acelerando e fortalecendo os elos entre inventores e empresários. E agora, o Rio Grande do Sul também está prestes a ter o seu Instituto Nacional de Inventores e Propriedade Intelectual para organizar a classe, afinal, como diz Valmir Antônio Lemos, um dos mentores da idéia, “Não há política correta para isso”. Ele informa que no Instituto o inventor encontrará apoio e orientação, inclusive a respeito dos procedimentos para solicitar as patentes. Até agora, estão trabalhando com uma comissão formada por sete pessoas, de áreas variadas. Mas, quem quiser colaborar, que fique a vontade.

Esse movimento acerca dos criadores, além de dinamizar a situação dos que já tiraram suas idéias e projetos da gaveta, servirá para incitar os outros que, por vários motivos - inclusive o preconceito da sociedade -não tiveram coragem de mostrar seus achados. Sem falar naqueles que, como muito bem lembra Valmir, “estão criando coisas sem se dar conta”.

Muitas vezes, no país, inventores são vistos como gente esquisita, diferentona, excêntrica. Não raro, principalmente na imprensa, só conseguem espaço quando têm algo muito engraçado para exibir. “Aqui, nós somos Professor Pardal - personagem de histórias em quadrinhos de mente inventiva e idéias estapafúrdias -, lá fora os inventores são considerados cientistas”, protesta Valmir, explicando: “cientista é aquele que consegue defender uma tese e provar que funciona”.

Assim também pensa outro cérebro criador de Porto Alegre, Flauri Nunes de Freitas. Ele acredita que essa visão da sociedade ridiculariza a figura dos inventores, o que acaba desencorajando muitos a chegar nos empresários para oferecer soluções para muitas de suas dores de cabeça. Na verdade, essas pessoas são mesmo diferentes. Flauri, por exemplo, assume que, quando criança, se destacava dos demais. Tinha suas idéias e até faturava com elas, vendendo-as. Como profissional, é técnico em Eletrônica e em Comunicações, além de 23 cursos de especialização em várias áreas. Uma vez aposentado, resolveu montar, há cinco anos, o seu próprio negócio, a Nazca Tecnologias. A empresa, que define como fábrica de idéias, existe para buscar problemas. Com ela, Flauri quer viabilizar projetos próprios e de terceiros, afinal, há também aqueles que têm brilhantes idéias, mas precisam de ajuda para desenvolvê- las. Mais um detalhe interessante: a Nazca é uma espécie de cooperativa, que busca pessoas de alta qualificação técnica, vítimas da discriminação pela alta idade. “São pessoas de muita competência, que vivem o apogeu do seu potencial”, justifica Flauri, defendo que “é justamente nessa época que já se descobriu todos os atalhos”.

Essa equipe Sênior já soma muitos inventos. Só Flauri tem mais de 70, isso sem contar os que já desenvolveu para outras empresas. Hoje está criando efeitos especiais para filmes do Maurício de Souza (A turma da Mônica), está trabalhando em um aparelho detetor de apnéia (momento em que a pessoa pára de respirar involuntariamente), dosadores de medicamentos, um sistema para um novo conceito de filtro de ar para automóveis e por aí vai.

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