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Eles não cansam de inventar algo

Casos de quem desafia a lógica

Quadro de inventos

Universidades criam centros de intermediação e facilitam negócios com empresários

Universidades preferem a ciência

A universidade é, sem dúvida, o lugar que mais transpira ciência no Brasil. Depois dela, estão os centros de pesquisa e pólos tecnológicos e, bem abaixo, a ínfima parcela da iniciativa privada disposta a investir na capacidade intelectual dos seus compatriotas. Tanto pesquisadores ligados a alguma instituição quanto os conhecidos como inventores individuais precisam ter como e onde aplicar suas descobertas - para não ficarem engordando arquivos e banco de dados, distantes do mundo real. Porém, o fato de as universidades ainda dedicarem a maior parte de seus esforços à ciência, e não à tecnologia, continua fazendo escola.

Ana e o sobrinho - criadores do cortador de comprimidos - puderam sentir isso na pele. Estavam tão certos de que o seu produto resolveria o velho problema de partir precariamente os remédios sobre a pia da cozinha que de cara mandaram fazer 50 mil unidades para comercializar. Porém, apesar da patente concedida no final de 1996 e do Prêmio Inovação do Sebrae em 1997, eles lamentam a falta de apoio no estado. Depois de tentativas frustradas de conseguir parcerias com empresários gaúchos, fundaram uma empresa - a Mezzo&Mezzo (meio-a-meio em italiano) - para colocar no mercado o invento.

Ana garante que o produto é muito bem aceito pelo público, o que pôde constatar em uma pesquisa: “Entrevistamos 500 pessoas e apenas uma disse que não lhe interessava, pois não tomava remédios. As outras acharam fantástico”, comemora, contando ainda que, certa vez, quando expôs o invento na Festa da Uva, em Caxias do Sul, viu um ônibus estacionar em frente à sua casa. Eram turistas, à procura de mais cortadores de comprimidos. “Na semana passada, quatro médicos ligaram para saber onde comprá-lo em São Paulo porque eles adoraram”.

Por falar em médico, um chute mal dado em uma partida de futebol de areia fez muito mais do que obrigar o empresário Valmir Antônio de Lemos, de Porto Alegre, a ficar de perna para cima o resto das férias. Sua mente inventiva, somada à inconformidade -que, aliás, é a mola propulsora de qualquer cientista, resultou no Proter-Pé, um acessório que, como diz o nome, protege os pés durante a prática de esportes, tanto os mais leves quanto os de alto impacto.

Com o tempo e algumas adaptações de materiais, o invento de Valmir, além de ser utilizado na prevenção, também passou a responder positivamente como complemento terapêutico na recuperação de algumas lesões. Um laudo técnico do seu uso por atletas das categorias júnior e juvenil do Sport Club Internacional é a maior prova disso. O fisioterapeuta César De Agosto diz que o Proter-Pé estava sendo utilizado pelos jogadores para substituir outras proteções usadas anteriormente (tornozeleiras elásticas, por exemplo), “com resultados satisfatórios na função de estabilizar o tornozelo, evitando entorses”. Mesmo assim, o Proter-Pé, que já teve uma aparição rápida no mercado quando era comercializado por menos de R$ 30 -não emplacou, ainda que esteja, hoje, sendo analisado pelos técnicos da Nike, nos Estados Unidos. O que mostra que o Brasil levou muito a sério a irônica expressão santo de casa não faz milagre.

Sorte que existem aqueles que pensam no futuro. A Heimer Complementos, por exemplo, empresa localizada em Cachoeirinha que atua na área de peças técnicas, eletrotécnicas e automobilísticas e que ainda não completou quatro anos. Jovem, sem dúvida, mas também obstinada, que não só aceita como procura desafios. Uma noite, os proprietários Henry e Ivone Rheinheimer assistiram na televisão uma entrevista com Valmir Antônio de Lemos, que inventou também - além do Proter-Pé - um apagador-aspirador de giz para quadro-negro. Sem pestanejar, os empresários decidiram investir naquilo que poderia ser a solução para os problemas alérgicos de muitos professores.

Como acontece com a maioria dos inventores no Brasil, encontraram Valmir ainda sem parceria para comercializar o produto. “A nossa empresa se caracteriza por ter um planejamento estratégico que se propõe à inovação de produtos, e esse era um caso típico”, explica Henry, que acredita que no próximo milênio só conseguirão sobreviver as empresas que apostarem no conhecimento adquirido e, como conseqüência, na criação. Para justificar a filosofia da Heimer, Henry exemplifica que “automóveis todas as empresas mais poderosas vão fabricar. As de pequeno porte não têm como competir, mas se tiverem um serviço que elas próprias desenvolveram, que só elas têm o conhecimento, aí sim podem disputar mercado”.

O resultado dessa ousadia é que os quatro anos de trabalho de Valmir para finalizar o seu invento já patenteado - Suki, apagador-aspirador portátil, logo estará nas lojas a um custo de aproximadamente R$ 20 e, mais do que isso: evitando espirros, tosse, coceiras, ressecamento das mãos e outros problemas que os profissionais do ensino e da saúde conhecem tão bem. Aliás, Valmir adverte: todas as suas criações passam por avaliação de especialistas.

O pediatra e imunologista Mário Cavalheiro Coelho Filho, por exemplo, sustenta que mais de cem pacientes selecionados em escolas por alergias respiratórias apresentaram melhora significativa das lesões de pele e dos quadros asmáticos e alérgicos após evitarem contato com giz. “Dou plena aprovação ao uso profilático deste aparelho”, diz o médico.

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