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Prosa bem
temperada
Luiz
Carlos Barbosa
O cheiro agradável
da cebola frita recompensa o trabalho de descascá-la e cortá-la.
Mas os aromas domésticos e prosaicos hábitos cotidianos são apenas
pretextos para um prosa também bem temperada de erotismo e insinuações
literárias sem nenhuma jactância. Com estes ingredientes e algumas
pitadas de humor judaico, a jornalista Cíntia Moscovich, 41 anos,
estréia em livro com “O reino das cebolas”. A reunião de contos
lançada pela Mercado Aberto, com a chancela da Secretaria Municipal
da Cultura de Porto Alegre, através do Fumproarte, tem uma escritura
enxuta. Celebra aquela máxima machadiana de que escrever é cortar
palavras. Cíntia ordena orações originais, livre daqueles lugares
comuns que, às vezes, atacam até mesmo escritores experientes.
Salvo alguma desatenção, só encontrei este tropeço: “o corpo preso
à cama de lençóis amarfanhados”, página 26, no conto “Guri”.
Aliás, este conto é um dos mais densos do livro. Porém, sem dúvida,
o que tem escritura mais profunda e instigante é o que abre o
volume, “Volver al Sur”: “Uma compressão aguda iniciou-se no
cotovelo direito e o quadril estourou em fogo. A cabeça fez sucessivos
movimentos de translação sobre o eixo do corpo, enquanto o rosto
recebia ásperas pontadas”. Inclusive, este conto bem poderia
estar na lombada do livro, ao invés de “O reino das cebolas”,
uma vez que a noção de Sul é uma recorrência constante nesta prosa
que se lê com prazer e apetites variados.
VIAGEM
AOS LIMITES
O relato de
viagem é um dos gêneros de leitura mais encantadores. Foi consagrado
nas edições para jovens, sempre interessados neste sentimento
essencial que está plasmado na idéia de aventura. Nas décadas
mais recentes, ressurgiu atraindo leitores de todas a idades.
Pois o jornalista e editor Airton Ortiz, que se revelou um sensível
aventureiro de viagens radicais, oferece agora “Aventura no topo
da África - trekking no Kilimanjaro”, um trabalho que se lê de
um só golpe porque combina expectativa, tensão e induz a pensar
sobre a vida contemporânea. Por conta das páginas em que o autor
reflete sobre as andanças, sobre as pessoas com quem convive e
a relação ser humano-natureza, há instantes de pleno relaxamento,
em uma perspectiva metafísica. Viajando com Ortiz, mesmo aqueles
que conhecem a África e a exuberância vigorosa de sua natureza
hão de descobrir detalhes tocantes. Graças à sensibilidade e à
observação do jornalista sobre as naturezas, inclusive a da alma.
OUTRAS
VIAGENS
Toda viagem
tem um quê de radical e, como essência, a aventura. Mas como recomenda
Andréa Sebben, até mesmo esta experiência requer um preparo em
benefício da própria experimentação. Afinal, melhor o planejamento
do que o voluntarismo. Este é o recado que a autora passa neste
que é mais do que um simples manual de viagem. “Intercâmbio cultural”
é uma plataforma cheia de informações para os jovens que desejam
viajar e viver um período no exterior, conhecer outras culturas
e aprender com prazer. Não deixa também de ser um alívio para
os pais e familiares: mais do que dicas que vão desde os cuidados
de saúde, documentação e até a bagagem, Andréa alerta para as
dimensões sociais do intercâmbio cultural.
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