Na segunda metade dos anos
70, a vida no país ainda foi uma
queda de braço entre a ditadura e
os movimentos progressistas.
Progressistas eram chamados na época os movimentos de
estudantes, de lideranças políticas
do MDB, setores da imprensa
nanica ou alternativa, de artistas,
de intelectuais e de sindicalistas
que sobraram da repressão e
tinham alguma coragem para
rearticular movimentos de
oposição. No mundo do trabalho,
a iniciativa era designada de
oposição sindical, isto é, a chapa
organizada para enfrentar as
direções “pelegas”.
Mas os anos 70 eram os anos
70. O general Ernesto Geisel havia
assumido a presidência em 1974,
e a repressão do governo Médici
continuava, apesar do bordão de “abertura lenta, gradual e segura”.
Contudo, alguma forma de
oposição já era possível, embora a
violência do regime não arrefecesse:
em 25 de outubro de
1975, o jornalista Vladimir Herzog, é
encontrado morto em um dos
mais temíveis aparelhos de
repressão, o DOI-Codi de São
Paulo. No mesmo lugar, em janeiro
de 1976, é assassinado o operário
Manoel Fiel Filho.
As duas mortes geraram
indignação e tornaram-se símbolos
da luta contra a ditadura. Em abril
de 1977, Geisel fecha o Congresso
Nacional, em setembro a PUC de
São Paulo é invadida pela polícia
militar e cerca de 2 mil estudantes
são presos, mas em dezembro
Geisel promete o fim das “leis de
exceção”. Em maio de 1978, ocorre
uma greve no ABC paulista, quando
1,6 mil operários da Scania
paralisam o trabalho. Em 1975, o
movimento operário no ABC
paulista já começa a reagir,
elegendo na presidência do
Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo uma jovem
liderança que conduziria às greves
de 1978, 1979 e 1980 no setor
metalúrgico. Era Luiz Inácio da
Silva, o Lula.
Movimentos grevistas eram
proibidos na lei, sobretudo os
considerados “atividades
básicas”. Mas na prática, a
ação dos trabalhadores já tinha
de ser tolerada porque a
sociedade reconhecia as greves
como legítimas. Passaram a
ocorrer greves localizadas. Foi
assim com várias categorias.
Com os trabalhadores que
paralisavam o transporte
coletivo na capital do Rio
Grande do Sul. Foi assim com
os bancários de Porto Alegre.
Foi neste contexto que os
professores da rede pública
estadual, liderados pela sua
entidade, o Cpers Sindicato, em
abril de 1979, realizaram a
primeira greve de sua história. Na
pauta, reivindicação econômica e
política: 70% de reajuste salarial e
contratação de 20 mil
concursados sustentaram 13 dias
de greve.
Desde meados de 1978, um
grupo de professores começa a
organizar-se em oposição sindical
e trabalho militante, cobrando
posturas da direção e tentando
influenciar na condução da
entidade. Essa circunstância
garante que o Sinpro/RS
manifeste solidariedade à greve
dos colegas da rede pública e ao
sindicato irmão.
Em 1976, o movimento estudantil
universitário e
secundarista também começava
a organizar-se para retomar suas
entidades, os grêmios estudantis,
os diretórios acadêmicos. A
maioria das palavras de ordem
era específica, contra regras
auto-ritárias nas escolas, por
almoço a preço mais baixo no
Restaurante Universitário (RU).
Era o que mobilizava os
estudantes naqueles tempos de
repressão e estímulo à alienação
política e social. Afinal, a
propaganda da ditadura, as
sucessivas mudanças nos
currículos e a reforma da
Educação de 1971, com o
ministro Jarbas Passarinho,
praticamente extinguiram os
conteúdos humanísticos e
incluíram as “disciplinas” de “Educação Moral e Cívica” e “Organização Social e Política
Brasileira”.
| Foto:
Luís Ávila/ Agência RBS |
 |
Mais
de 200 mil pessoas participaram
do comício pelas
diretas em Porto Alegre |
Mas uma palavra de ordem
unificava: “Pelas liberdades
democráticas” era o bordão na
faixa que puxava as passeatas
estudantis no inverno gaúcho de
1977. Seguiram-se as manifestações
pela Anistia em 1978,
quando o general João Batista
Figueiredo era eleito presidente
pelo Colégio Eleitoral. O ano de
1979 começa com uma
intervenção em março no
Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC, mas em maio a juventude
de todo o Brasil está voltada para
Salvador, acontecia o
Congresso
Nacional de Estudantes que
refundava a UNE. Em agosto era
sancionada a Lei da Anistia.
As greves de 1978 e 1979 no
ABC paulista marcaram a
rearticulação dos trabalhadores de
vários setores. Havia interesses
comuns, como construir um
sindicalismo autônomo e independente,
superar o assistencialismo,
romper com o modelo
de atrelamento das organizações
sindicais ao Estado herdado do
populismo. Essa mobilização
levaria a dois desdobramentos
fundamentais para História do
Brasil. A fundação do Partido dos
Trabalhadores, em 10 de
fevereiro de 1980, e a fundação
da Central Única dos Trabalhadores
(CUT), em 28 de agosto
de 1983.
Antes que essas conquistas
se concretizassem, muitas lutas
foram travadas nas fábricas, nos
sindicatos, universidades e
escolas. É o caso dos professores
particulares que, a partir de 1978 –
muitos recém-saídos das lutas
estudantis – organizaram-se em
oposição à direção do Sinpro/RS.
O apoio do Sindicato à greve da
rede pública em 1979 foi um
marco da ação desses militantes,
que passaram a organizar a
categoria pela base, nas escolas,
com a eleição de Comissões
Representativas. Organizaram-se
também nos centros e associações
de professores nas
universidades e escolas. Em 1979
quebrou-se a tradição de negociação
salarial sem conflito,
quando a Assembléia Geral de 250
sócios rejeitou a proposta patronal.
Naquele ano a categoria
conquistou uma antecipação
salarial antes da data base: 20%
para os professores de 1º e 2º graus e 15%
para os professores do Ensino Superior.
| Foto:
Dulce Helfer/ Agência RBS (Republicação) |
 |
Raul
Pont com João Luiz Steinbach e Marcos Fuhr em
conversa com o então presidente Mendes Gendelmann
|
Estava na ordem do dia em
1979 a recuperação de perdas
salariais em função de expurgos
inflacionários decorrentes da
manipulação de índices pelo
governo. Essa era uma pauta que
mobilizava e atraía a categoria para
a luta da incipiente oposição
sindical. Entre os pioneiros deste
tempo estavam os professores
Raul Pont, Júlio César Boeira,
Renato Oliveira, Maria Eunice
Barbiere, Selvino Heck, Roque Dal
Ross, Adeli Sell, Maria da Graça
Bulhões e Marcos Fuhr. Esse
grupo inicial adquiriu forças a ponto de aprovar
em Assembléia
Geral, em 23 de
julho, a constituição
de uma
Comissão
Representativa,
que passou a
acompanhar as
reuniões da
diretoria do
Sinpro, então
presidida pelo
professor Mendes
Gendelmann,
com a direção do
Sinepe. Estava
em negociação um abono
emergencial de 30%. As
mudanças na CLT propostas pelo
governo também mobilizavam a
categoria.
O professor Marcos Fuhr, que
se associou ao Sindicato em 1978,
lembra que tão complexo quanto
mudar o perfil do Sinpro/RS foi
unir a oposição, cujos integrantes
tinham visões e perspectivas
estratégicas diferentes. Essas
divergências dividiram a oposição
sindical em duas chapas na eleição
de 1980. O professor Paulo
Guedes liderava a chapa 2 e o professor Raul Pont
a chapa 3. Venceu a chapa 1, da situação, com
o professor Mendes Gendelmann,
que manteve a mesma política.
| Foto:
Arquivo Extra Classe |
 |
Diretoria
no final dos anos 70
|
Apesar disso, em 17 de
agosto de 1981, o Sinpro/RS
elegeu delegados para a
1ª Conferência
Nacional da Classe Trabalhadora. A Conclat foi
realizada de 21 a 23 de agosto de
1981 na Praia Grande (SP),
reunindo 5.030 delegados de todo
o país. Desta primeira grande
reunião intersindical realizada no
Brasil desde 1964, saiu a
Comissão Pró-CUT.
Questionada e confrontada
com a realidade social, pouco a
pouco a política assistencialista do
sindicato começou a esgotar-se.
Marcos Fuhr recorda que os
remanescentes das duas chapas
de oposição continuaram atuando
na oposição, motivando os
professores para a associação ao Sindicato e a participação
nas Assembléias, que ocorriam na Sala
400 do Colégio do Rosário. Em
1981, a oposição conseguiu filiar
820 sócios.
A oposição foi acumulando
forças no movimento e conseguiu
que em Assembléia Geral do
Sinpro/RS fosse eleita uma
delegação para acompanhar o
Congresso de fundação da CUT,
em 28 de agosto de 1983, embora
sem o indicativo de filiação à entidade
intersindical. Nessas lutas
e com um exaustivo debate, a
oposição construiu a unidade
mínima para concorrer unificada na
eleição de 1983. Na cabeça de
chapa a professora Maria Eunice
Barbieri, da Escola João XXIII, Raul
Pont (Unisinos) como tesoureiro e
Júlio César Boeira (PUC) como
secretário-geral. Mas a força desta
frente que reuniu militantes do PT,
do PMDB, do PDT e do PCB não
foi suficiente para vencer a chapa
de situação do professor Mendes
Gendelmann. Porém, a vitória
ocorreu
somente em
segundo
turno, por
maioria
simples, com
uma vantagem
de
apenas 91
votos.
A experiência acumulada de
1978 a 1983 mudou o quadro no
movimento sindical brasileiro
como também a política sindical
no Sinpro/RS. A negociação
entre a entidade dos trabalhadores
da Educação e a
patronal deixou de ser uma
conversa amistosa. Após a
disputa eleitoral, o grupo de
oposição ligado ao PT intensificou
o trabalho de base e organizouse
com coordenação política,
arrecadação financeira e, com um
boletim periódico, passou a
intervir na perspectiva da próxima
eleição, que ocorreu em 1986.
Pela primeira vez, em 1984,
a categoria rejeitou a proposta
patronal e o dissídio foi para
julgamento na Justiça do
Trabalho. Iniciou-se mobilizações
por escola por melhores salários.
Os professores do Colégio
Anchieta fizeram um dia de
paralisação em 19 de setembro,
reivindicando o reajuste salarial de
100% do INPC, o índice que
media a inflação.
Em 1985, no ano em que se
realizou o
1º Encontro Estadual
do Magistério Particular, foi
desencadeada uma campanha
pela reposição salarial de 30%:
o sindicato patronal ofereceu
apenas 5%. Mobilizados pela
ação da oposição, em 19 de
setembro, 90% dos professores
e funcionários paralisaram as
atividades. Sob chuva
torrencial, 4 mil trabalhadores
do ensino privado se
concentraram na Praça São
Sebastião, ao lado do
Colégio Rosário, e seguiram
em passeata até a
Esquina Democrática para
um ato público.
| Fotos:
Agência RBS (republicação) |
 |
Primeira
paralisação foi um marco na história
do Ensino Privado gaúcho
|

Continua:
1985 - 2008
Oposição
resgata luta sindical e assume direção
da entidade
Anterior:
1938 - 1958
Uma
carta de intenções para o futuro
De
Getúlio a JK
1958 - 1978
Do
desenvolvimento aos anos de chumbo