Concorrência acirrada
As escolas que mais sofrem com a crise são as tradicionais,
estabelecidas no mercado há mais tempo, perdendo terreno
para novas instituições que surgem com estruturas
mais enxutas e marketing agressivo junto ao público. Sabemos
que muitas escolas que abrem não têm muito investimento
na formação de professores, nem custo com qualificação,
pois já contratam profissionais que estão no mercado,
o que torna seu produto mais barato. E é fato que ensino
básico e fundamental, com uma estrutura mais enxuta abate
os custos. Algumas trabalham no limite do que exigido pela legislação
trabalhista e acordos coletivos, ao contrário de escolas
mais tradicionais, que geralmente remuneram melhor os professores
e possuem uma estrutura mais complexa, explica a técnica
do Dieese.
A redução do número de alunos na educação
básica privada se deve também à questão
demográfica (famílias com número menor de filhos)
associada à redução da capacidade de pagamento
da classe média. O Sinpro/RS tem consciência desta
redução do número absoluto de alunos, diferente
do que acontece na educação superior em que houve
um crescimento vertiginoso no número de alunos, diz
Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS. Outra variável
que vem sendo monitorada desde de 1996 é o custo do ensino
privado, para isso feito um monitoramento anual. Trata-se de um
dado que passa a ter uma importância mais significativa na
medida em que se tem um histórico dessa evolução
dos preços. Nós temos condições, com
base nesse trabalho, de dizer que, certamente os aumentos das mensalidades
acima da inflação contribuem para a fuga de alunos
do ensino privado, argumenta.
O diretor do Sindicato, que é ex-conselheiro do CEEd, também
levanta um outro fator, que causa alguma polêmica: o da concorrência
desleal praticada por algumas das instituições que
estão emergindo no setor. Para ele, há realmente uma
redução do número absoluto de alunos da rede
privada de ensino, por outro lado, mais significativo que a perda
de alunos seria a redistribuição dentro do próprio
ensino privado. Uma boa parte dessa concorrência que
está aí colocada no mercado, é desleal. Nós
temos a certeza de que muitas vezes tem faltado rigor por parte
do poder público na análise de algumas propostas de
ofertas de ensino apresentadas pela iniciativa privada. Inclusive
temos apontado nossa preocupação ao Sinepe sobre a
necessidade de uma regulação do mercado, porém
nunca conseguimos sensibilizar os dirigentes das escolas sobre o
assunto, conclui Fuhr.
Sobre o tema o representante do Sinepe/RS afirma: Somos contra
qualquer espécie de deslealdade. Especialmente no Rio Grande
do Sul, sabe-se da qualidade, da solidez e da tradição
do ensino privado, que preza por um ensino sério e em permanente
evolução. Desta forma, o Sinepe/RS tem se empenhado
em qualificar o setor, promovendo cursos e encontros que pretendem
mobilizar gestores, professores e o quadro técnico-administrativo.
Já o superintendente estadual da Campanha Nacional de Escolas
da Comunidade (CNEC-RS) Júlio César Lindemann acredita
que a situação é preocupante, considerando
o fechamento anual de unidades Cenecistas. Os motivos predominantes
para isso são o reduzido número de alunos e as dificuldades
financeiras da comunidade escolar. Uma saída é a inovação
constante das escolas particulares, formando parcerias, intercâmbios,
trocas, capacitação do corpo docente. Mas concordamos,
no entanto, com todas as iniciativas e procedimentos que visem à
regularidade, bem como à legalidade do processo educacional.
O Sinpro/RS é um grande parceiro quando se preocupa em coibir
essas práticas irregulares, afirma.
|
Salários
e mensalidades
do ensino privado
|
 |
Fonte:
Banco de Dados da FETEE-SUL
Elaboração: DIEESE - Subseção
FETEE-SUL |
|
Evolução
do número de alunos
|
 |
| Fonte:
MEC/INEP |
|
Variação
da educação superior (%)
|
 |
| Fonte:
MEC/INEP |
Saídas para a crise
Para Flávio Reis, do Sinepe/RS,a recuperação
econômica do país é primordial, sobretudo para
que as famílias possam voltar a investir em educação.
Segundo ele, as instituições têm feito esforços
para buscar alternativas administrativas que não permitam
cair a qualidade do ensino. Especialmente no ensino superior,
sabemos que o fomento de bolsas de estudos é forte aliado
para as instituições particulares. Nas escolas de
ensino fundamental e médio, a manutenção de
bolsas é crucial para conter a evasão de alunos. Há
escolas com 40% dos alunos não pagando a integralidade da
mensalidade. Porém, mesmo fazendo todos os ajustes, há
um mínimo de custos necessários para manter as instituições.
Em muitas escolas, a perspectiva é fechar as portas ou recomeçar
de outra forma, com novos parâmetros, justifica.
Para Júlio Lindemann, do CNEC, só a inovação
constante das escolas particulares, formando parcerias, intercâmbios,
trocas, capacitação do corpo docente, implementando
estratégias, pode enfrentar as dificuldades do momento.
Marcos Fuhr, do Sinpro/RS, por sua vez, entende que deve-se fazer
da Convenção Coletiva de Trabalho um instrumento regulador
do mercado, pois com garantias de remuneração justa
para os professores e a regulamentação de algumas
questões em aberto na Convenção criar-se-iam
obstáculos naturais ao surgimento de aventureiros no setor.
Para ele, é preciso evitar que a crise seja exportada para
os professores e alunos devido a um possível inchaço
do mercado. Isso afetaria não só os salários
dos professores, como também a qualidade do ensino, por conseqüência.
Mais Educação:
O
ensino privado cresce no Estado
Dinamismo
x evasão