Pouca
gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos
poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice.
Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe
a forma da escultura na qual teremos resultado. Estamos preparando
a mostra, a vernissage do nosso rosto definitivo. Seremos, no desfecho
a cara com a linha da coroa e vice-versa, nosso avesso lá
estará, no hidrográfico bordado dos rios do riso e
dos rios do sofrimento.Estamos, em nosso caderno de rosto, grafitando
nosso mapa. Nossos espasmos e anemias, nossos impulsos e paralisias
estarão lá, toda postura do corpo, toda vivência
curva da coluna, todo pescoço engessado, todo medo, todo
peito empinado, toda pélvica e espalhada felicidade estará
na síntese desse rosto.
Estamos preparando a face que testemunhará o que fizemos
de nossas vidas e com ela dormiremos na eternidade. Estamos, durante
a vida, germinando o último espelho. Sem percebermos. Temos
pincéis, tintas, milhares de cores, misturas e matizes na
palheta, amores, goivas, solventes, dores, telas, formões
aquarelas e lápis nas mãos.
Tecelões do cotidiano, estamos urdindo a trama estamos tramando
o nosso rosto final.
Quem sabe não se revele um traço confinando a boca
a um ataúde do contrariado, aquela boca em U
invertido para baixo, com os cantos caídos boca de quem não
protestou em verbo e cuja ebulição zangada e silenciosa
passou para todos apenas como mimo ou mero descontentamento.
Estamos durante o enredo desenhando a testa com preocupações,
ocupações ócios, diversões ou horas
de aconchego. Esculpindo estamos o rosto que será a nossa
cara dos capítulos finais essa cara-identidade, cujo rascunho
valeu e cujo ensaio valerá representará no eternidade
do brilho do olhar nossa capacidade de estréia, nossa habilidade
em diluir rancores, em transformar dissabores em aprendizado. Tempestades
e bonanças ilustram bem a empreitada. Lágrimas só
de dor e desgosto vincam com facilidade o rosto, aquele cujo sujeito,
dono do corpo, eleja o sacrifício às gargalhadas da
alegria vindas do coração. Essas remoçam, coram
as bochechas com um rouge natural, fazem boas marcas em torno da
boca e ainda reforçam o tal brilho do olhar; já o
amor é ótimo pirógrafo, (que palavra oportuna
e linda!), marca nele sulcos de toda sorte.
Noites e dias de um tempo bem passado também contam na construção
do retrato, mas cuidado: fotogênica e triste a amargura produz
vincos fundos tatuando-se fácil na estampa de quem não
soube chorar de alegria, nos olhos de quem não soube perdoar,
no nariz de quem não sentiu o cheiro do amor nos lençóis,
nos temperos, na boca de quem nunca pôde dizer bom-dia. (Quero
para mim, uma simpatia generosa pregada no rosto de minha velhice,
quero olhos vivos de novidades que sorriam sempre, quero rugas de
bons e repetidos gestos de contemplação, indignação,
revolução e contentamento. Quero no meu rosto o bom
retrato falado de cada vão momento: na cama com amor, na
mesa com os filhos, no bar com os amigos, na noite sobre o travesseiro
de macela, nas festas com os cúmplices de caminho, nas decisões
sensatas de trabalho... tudo isso o rosto fotografa e eu quero nele
essas fotografias.)
Seremos nosso porta-retrato e já estamos portando
essa tela. Nela estará certamente uma verdade anterior a
superestimação dos bisturis periféricos da
vaidade que nada podem contra o que se viveu, o como se viveu, pois
o que projeta define e esculpe a face é o que nos cabe diariamente:
a gestão dos nossos acontecimentos, a quantidade de natureza
que se experimentou, as doses de buzinas urbanas, os saldos de banco,
sonhos e mugidos atingidos na longa jornada. Isso é o que
importará, os acontecimentinhos diários, a quantidade
de arroz soltinho que se fez durante a lida, o tempero de alho do
feijão amoroso, o gozo junto com o companheiro, tudo vai
pra conta da cara da velhice, tudo vai pra lá.
Nosso rosto de velhos é o nosso último boletim na
escola da vida, e a expressão que tiver afinal será
nossa obra de arte, nossa prova dos nove, nossa prova real. Com
mais porção disso ou daquilo, de atenção
ou descaso, será com esse espelho final de vitória
ou arraso que desfilaremos sob a ilustre iluminação
do ocaso.
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