Carne negra,... de primeira
Elza
Conceição Soares nasceu no dia 23 de junho de 1937,
no Rio de Janeiro. Aos 13 anos de idade começou a participar
do programa de calouros de Ary Barroso, sempre ganhando a nota máxima.
Seu primeiro sucesso veio com o compacto Se Acaso Você Chegasse
(Lupicínio Rodrigues/F. Martins). Depois de gravar seu segundo
disco, Bossa Nova, viajou para o Chile em 1962, como representante
do Brasil na Copa do Mundo, onde se apresentou ao lado Louis Armstrong,
lenda do jazz americano. Em seguida Elza mudou-se para São
Paulo, onde passou a se apresentar em teatros e casas noturnas.
Em 1999, foi considerada pela BBC de Londres, a melhor cantora brasileira
do milênio. O seu último lançamento é
o CD Do cóccix até o pescoço (2002). Nele,
Elza abre caminho para o funk e para o rap, colocando no mesmo repertório
compositores como Caetano Veloso, Jorge Benjor, Chico Buarque, Marcelo
Yuka e Seu Jorge, entre outros.
Elza Soares estará em Porto Alegre, no dia 25 de maio, para
um grande show, no Parque da Redenção, em comemoração
dos 65 anos do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio
Grande do Sul (Sinpro/RS). O evento, que contará ainda com
apresentação do músico/compositor Nei Lisboa
e do Coral do Cecune, já tem o apoio confirmado da Secretaria
de Estado da Educação.
Valéria Ochôa e César Fraga
Extra Classe Por que a carne mais barata é a negra?
Elza Soares Porque é. A gente sabe que pro negro
tudo é muito difícil, é cota para colégio,
cota para ator. Você não vê o destaque do negro
em primeiro, em nada, ele não é protagonista em nada.
Então a carne mais barata do mercado chama-se de carne negra.
EC É protagonista pelo menos na música...
Elza Pelo menos, é alguma coisa, no futebol também,
mas a gente buscou essa música porque é do Marcelo
Yuca (ex O Rappa) e do Seu Jorge (artista emergente do samba-rock),
então achei que era uma música forte e taí
no cd, e eu gosto muito dela.
EC Você ficou bastante tempo nos Estados Unidos,
e a gente está agora com uma guerra acontecendo, como você
vê essa coisa da cultura norte-americana e o apoio da população
à guerra?
Elza Eu acho muito triste. A guerra é sinônimo
de carnificina, acho que matar gente é sempre muito triste.
A morte em geral é muito triste. A guerra é uma coisa
que todo mundo detesta ou deveria. Eu, pelo menos, odeio. Não
convivi com ela, mas só de pensar me causa calafrios. Acho
que o ser humano é muito difícil de entender.
EC A gente vê que os índices de aprovação
do povo americano para a intervenção no Iraque têm
diminuído, mas ainda são favoráveis à
guerra. Você acha que existe muita influência da cultura
do povo americano nesse sentido? Eles vêem as coisas diferente
do resto do mundo?
Elza Só pode ver de forma diferente, porque eu
não vejo isso, eu vejo na guerra só tristeza e não
seria favorável a ela nunca. Eu não sei se por ser
brasileira, por gostar de carnaval, por gostar do amor, por gostar
das pessoas, da alegria, da paz, acho que a guerra é uma
destruição total da paz e não se pode construir
a paz com guerra.
EC Você falou em artistas novos como Marcelo Yuca
, Seu Jorge que têm despontado até como uma forma de
renovação, e, fora da tão falada MPB. Gostaríamos
de saber o que é e quem faz música brasileira hoje?
Se ela existe realmente enquanto música brasileira, ou se
o gênero vive da sua história? Como você vislumbra
o cenário atual?
Elza Eu acho que música brasileira é música
brasileira de qualquer jeito, você cantou no Brasil é
música brasileira. Eu considero o Cidade Negra fazendo música
dentro do Brasil, eu acho que música brasileira é
isso agora. É lógico que tudo tem uma renovação.
Você não pode querer cantar uma vida toda Noel Rosa,
Cartola, tem que se cantar também, porque é lindo
demais, mas não achar que é só isso. São,
de fato, coisas maravilhosas, mas acontece que não passaram
para nossa juventude essa música, a nossa juventude foi muito
estimulada dentro do Rock and Roll, e eu acho que o samba, a própria
MPB ela tem esse gás, ela tem esse calor, só que a
gente não mandou para eles isso aí. O que se faz hoje
também é música popular brasileira, sim, independente
da sigla.
EC Inclusive o pessoal do Rock?
Elza Inclusive o pessoal do Rock and Roll, eu tenho paixão
pelos Titãs, gosto do Cidade Negra. Eu fiz agora um trabalho
lindo com o pessoal do Pedro Luís e A Parede, isso é
música popular brasileira. Participei agora do carnaval da
Bahia no 2222 com o Gil, então eu acho que a gente tá
fazendo música popular brasileira.
EC E quem são os artistas que apontam para essa
renovação?
Elza O que eu tenho prestado atenção...
como eu tinha dito: Cidade Negra, Pedro Luís e a Parede,
O Rappa. Gosto muito dessa gente. Zeca Pagodinho!! Quer melhor que
Zeca Pagodinho, eu amo esse cara, gosto muito.
EC Como você definiria a fase atual da sua carreira
depois deste disco que, dá para se dizer, é um sucesso?
E como você classificaria o seu trabalho?
Elza É um sucesso, graças a Deus. Olha
eu acho que não sou rotulada, quem tem rótulo é
refrigerante, quem tem rótulo é bebida, eu não
sou rotulada, eu quero cantar. Acho que, quando você é
vinculada a alguma coisa, fica aprisionado num estilo, fica acorrentado.
A escravatura já passou, você tem liberdade para ir
e vir, quando Deus te dá o dom de você cantar, você
tem que usar tua voz.
EC E o disco Do Cóccix até o pescoço
é bem isso, é difícil classificar para qual
prateleira vai o disco da Elza Soares...
Elza É, eu acho que é isso. A gente tá
aí para ousar, eu gosto, eu tenho atitude, eu sou ousada,
eu gosto de brincar com a voz, eu uso a voz que Deus me deu.
EC O fato de estar fora de uma grande gravadora, é
melhor ou pior para a música que você faz?
Elza Eu acho que ser independente é a liberdade
geral, acho que se hoje eu estivesse em uma grande gravadora, com
um cast muito grande é muita gente para trabalhar,
talvez não tivesse condições de dar a atenção
devida para uma artista só.
EC E o processo industrial acaba tolhendo de alguma forma?
Elza Completamente, eles determinam o que cantar, aí
você tem que cantar aquilo que eles querem. Eu não
gosto disso, eu gosto de cantar aquilo que o povo gosta, que eu
quero.
EC Você tem noção da sua importância
e grandeza, não apenas pelo que você faz, mas pelo
que representa sendo mulher, sendo negra, tendo uma voz que é
inimitável? 0 que você se sente em relação
a isso, com uma trajetória como a sua?
Elza
Olha, te juro por Deus que é muito sério falar
isso, eu falo do fundo do coração. Eu nunca parei
para saber a importância que tem a Elza Soares, só
quero ter saúde para continuar fazendo isso. Mas eu nunca
me considerei melhor que ninguém nem pior. Eu não
quero ser mais do que ninguém, só quero ser um pouquinho
melhor que eu. Eu só procuro ser melhor do que eu mesma.
Agora, se eu tenho alguma importância, isso acho que é
meio bobo, a gente pode se perder dentro disso, se apegar nessa
coisa que é provisória, uma passagem e ficar meio
lost in the space (perdida no espaço), eu prefiro ser a Elza
da Conceição Soares, a Elza Soares é no palco.
Prefiro carregar minha humildade sem ser idiota. Tem muita gente
que diz ser humilde e no fundo não tem humildade nenhuma,
acho que a humildade é isso que te passo, eu sou isso, eu
não sou mais que isso, gosto de passar, cozinhar, namorar
à beça... estou casada, felizmente com o Luciano Gando.
A gente vive feliz, às vezes eu levo a comida no prato para
ele, vou para cozinha, acho isso maravilhoso, isso é ser
gente, eu não quero deixar de ser assim.
EC No Cóccix há a participação
de várias gerações, pessoas de vários
estilos, queria saber onde começa o trabalho de um (Zé
Miguel), e de outro (Elza Soares). No repertório ou é
difícil saber?
Elza Acho que é difícil saber, ali houve
um casamento, uma integração, um respeito a gente
se familiarizou maravilhosamente bem. Houve um respeito mútuo,
o Zé Miguel me dizia uma coisa e eu respeitava, às
vezes eu perguntava, Zé o que você acha disso?... eu
acho normal essa troca. E foi assim que a gente fez um trabalho,
esse trabalho. Foi assim que saiu o disco Do Cóccix até
o Pescoço.
EC E essa abordagem moderna nos arranjos com mistura de
instrumentos acústicos com eletrônicos, Rap, MPB, Chico
Buarque... Partiu do que essa idéia?
Elza Isso sempre foi um sonho meu, eu sempre quis fazer
justamente uma coisa assim bem louca, acho que pode ser ainda muito
mais louco. A música popular brasileira é muito rica,
e, se você começar a buscar, vai encontrar coisas maravilhosas,
você pode ousar tudo, usar e abusar.
EC E esse abuso todo a gente já pode esperar para
o próximo trabalho. E o que vai ser o próximo trabalho?
Elza Pode esperar, ainda não sei se fico de cabeça
para baixo ou não. Tudo é possível. Ainda não
é hora de falar sobre isso.
EC Então vai ser uma surpresa?
Elza Eu acho, ainda tem muita coisa para se fazer.
EC Já está pensando nele, já tem
alguma coisa engatilhada?
Elza Não, por enquanto eu penso no Do Cóccix
até o Pescoço. Ainda não deu para desvincular,
está muito recente, mas ainda penso em ousar muito mais,
penso em ser mais criativa. (nota do redator: em off os produtores
nos adiantaram que há previsão de início dos
trabalhos no novo disco para o segundo semestre com direção
artística de Zé Miguel Wisnick)
EC Gostaria que você fizesse uma avaliação
do seu momento agora, a sua vida, a sua história é
cheia de lutas, vitórias, perdas. Queria saber como a Elza
se sente hoje?
Elza Me sinto com os pés no chão, com cabeça
no céu, eu acho que sempre fui vitoriosa apesar das porradas,...
das grandes pancadas. Eu nunca escondi as pancadarias que tomei
da vida, mas acho que também que bati bem. Apesar de tudo,
sou uma vencedora, e como vencedora não tenho muito que reclamar
não, só tenho que pedir mais forças a Deus
para continuar lutando e vencendo quando possível e não
perdendo tanto quanto o possível.
EC O que é a música para você?
Elza A música para mim é um sedativo, meu
remédio. Cantar ainda é um remédio bom. Quem
deu o título do livro Cantar para não enlouquecer
em meu livro (biografia de Elza Soares) fui eu, porque foi quando
eu perdi meu filho. Quando eu canto, eu esqueço todas as
dores, quando canto, é a medicina cantada. Quando você
faz aquilo que você gosta e que você sabe fazer, você
faz com muito afeto, muito carinho, e a música é uma
religião, é uma prece, uma oração que
você está fazendo.
EC E quando você canta, canta para quem?
Elza Quando eu canto, canto para todos os que estão
presentes, canto para todos mesmo. Quando estou amando, eu canto
muito para quem estou amando também, mas primeiro canto para
Deus.
EC Qual é a tua avaliação do momento
atual do País?
Elza Acho que a minha experiência é a de
muitos brasileiros. Com o Lula, o Brasil ficou com cara de Brasil,
ficou menos americanizado. Muita gente se vestiu de brasileiro e
vejo hoje todo mundo falar em acabar com a fome. Mas primeiro você
tem fazer o cidadão acabar com a hipocrisia. A gente precisa
de pessoas honestas. Não há muita gente honesta, precisamos
de mais empregos, só assim você dá um aspecto
melhor ao país, porque povo melhor do que este não
existe, um povo que suporta tudo com resignação. Hoje
eu já vejo o país buscando mais, as pessoas se integrando
mais em prol de uma coisa melhor.