Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Previdência no fundo do poço
René Cabrales
O déficit da Previdência Social é um poço sem fundo. Economicamente inviável, o sistema previdenciário abriu um rombo de R$ 70,8 bilhões nas contas da União, estados e municípios, em 2002. A previsão é de que, este ano, ultrapasse R$ 80 bilhões. A cratera cresce assustadoramente – em 1994, era quatro vezes menor. Socialmente injusto, o modelo atual paga benefícios irrisórios de até dois salários mínimos a 77,9% dos aposentados do setor privado. Só 0,1% dos contribuintes do INSS ganha acima de dez mínimos. Como estancar a sangria dos cofres da Previdência e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios da maior parte da população?

Paulo César Teixeira


ste é o dilema do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que depara-se com a urgência de implantar reformas estruturais no país, capazes de desatar os nós que paralisam as ações do estado. A primeira delas é a da Previdência Social – depois, será a vez da Tributária e da Trabalhista –, que deverá ser encaminhada ao Congresso Nacional até o final de abril. Na campanha eleitoral, Lula propôs a adoção do sistema previdenciário universal, ou seja, a unificação do Regime Geral de Previdência Social, que atende aos trabalhadores do setor privado, e dos Regimes Próprios de União, estados e municípios.

Tudo indica que desistiu da idéia. O governo avalia que os custos da conversão seriam inviáveis. A União teria uma despesa adicional de R$ 19 bilhões nos próximos 23 anos (R$ 2,1 bilhões já em 2004). Estados e municípios não ficariam longe disso. Por três décadas, os gastos equivaleriam a 7% do PIB, afirmam os técnicos do Ministério da Previdência Social. Na reunião com os governadores, na Granja do Torto, no final de fevereiro, Lula praticamente descartou a hipótese do regime único.

Mudanças em estudo tiram direitos de servidores

A alternativa que o governo estuda envolve três mudanças essenciais na aposentadoria dos servidores públicos. Entre elas, está a elevação da idade mínima de 53 para 60 anos (homens) e de 48 para 55 (mulheres). Ao mesmo tempo, o prazo de carência seria duplicado – em vez de dez, no mínimo 20 anos de serviço; ao invés de cinco, pelo menos dez anos no cargo. Da mesma forma, os benefícios passariam a respeitar um teto, como ocorre com os aposentados da iniciativa privada. Hoje, este valor é de R$ 1.561,56. Para os servidor público, entretanto, o governo fixaria um teto equivalente ao último salário, descontando 11% a título de contribuição previdenciária. Na prática, a aposentadoria seria igual ao valor líquido do contracheque. Com as medidas, o governo espera economizar, em apenas um ano, a quantia de R$ 1,7 bilhão. Este volume de recursos equivale aos gastos com o Fome Zero.

Antes de votar a reforma, o governo quer submeter ao Congresso o Projeto de Lei no 9, enviado por FHC, no final de 1999, que define as regras da previdência complementar. Com a fixação do teto para os benefícios do setor público, os funcionários que desejarem aposentadorias mais elevadas poderiam recorrer a fundos abertos ou fechados, públicos ou privados. “Infelizmente, a experiência passada do país com os fundos de pensão privados não é muito recomendável. Alguns faliram e deixaram muita gente na mão”, lembra o presidente da CUT, João Felício. À espera do novo mercado, a previdência privada movimenta hoje R$ 192 bilhões no país. Embaladas pelo debate acerca da reforma, algumas empresas, como a Bradesco Previdência, aumentaram em 70% o faturamento nos três primeiros meses de 2003.

Todas as reformas estão sendo debatidas no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que se constitui num órgão consultivo do presidente. “Pessoalmente, sou a favor de uma previdência estruturalmente pública, dotada de regime complementar público e privado, de modo a oferecer opção ao trabalhador. Além disso, é necessário cortar os abusos da legislação atual, que permite aposentadorias de até R$ 40 mil no setor público”, afirma o ministro Tarso Genro, Chefe da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social.

Para debater a Previdência no Conselho, foram chamados cerca de 60 representantes da sociedade civil, entre eles, o presidente da CUT, João Felício, empresários como Jorge Gerdau Johanpetter e Eduardo Eugênio (presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), além de personalidades como a atriz Lucélia Santos e o médico Dráuzio Varella. “O objetivo é discutir a reforma antes que se torne fato consumado. Entretanto, não temos a expectativa de alcançar um grande consenso, uma vez que a representação empresarial é numericamente superior à dos trabalhadores”, reclama Juçara Dutra, presidente do Cpers (Centro dos Professores do Estado do RS).



Proposta do governo: clique aqui e leia na íntegra a proposta apresentada pelo governo ao Congresso Nacional no dia 30/04

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