Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Sistema está à beira da falência

Num ponto, há consenso: a reforma é inadiável porque o atual modelo está praticamente falido. A questão é saber se Lula terá maioria no Congresso para aprovar a mudança, que encontra resistências dentro do próprio PT, no PC do B e no PDT. “Por ironia, o governo poderá contar com os votos de PSDB, PMDB e PFL no plenário. Se dependesse da oposição, a reforma teria sido aprovada ontem”, diz o deputado Evilásio Farias (PSB-SP), da comissão especial de parlamentares que analisa o tema. Uma das vozes descontentes é da deputada federal Luciana Genro (PT-RS): “Esta é mais uma tentativa de demonizar o funcionalismo público, que perdeu 47 direitos nos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso.” Para o advogado trabalhista Jorge Santos Buchabqui, o governo cometeu um erro grave ao agendar a reforma da Previdência antes do ajuste tributário. Com isso, reduziu a amplitude do debate à questão financeira, abrindo caminho para a eliminação de importantes conquistas do funcionalismo público.

Cabe a pergunta: por que os direitos dos servidores geram polêmica? Dos 22 milhões de aposentados brasileiros, só 3 milhões são oriundos do serviço público. Entretanto, o déficit da Previdência com o funcionalismo é três vezes maior – R$ 54 bilhões contra R$ 17 bilhões. Por que é assim? Enquanto o benefício médio dos trabalhadores do setor privado é de R$ R$ 389,14, a aposentadoria média dos servidores é de R$ 2,8 mil. Para os civis do Poder Executivo da União, chega a R$ 2,2 mil. Os militares ganham R$ 4,26 mil. No Ministério Público, o valor sobe para R$ 12,57 mil. No Banco Central, R$ 7 mil. No Congresso Nacional, R$ 7,9 mil e, no Judiciário, R$ 8 mil.

A despesa com pessoal inativo e pensionistas compromete 15,1% da receita líquida da União e 23,4%, no caso dos estados. “O sistema é extremamente generoso e benevolente para os servidores públicos. Os Regimes Próprios atendem 1,8% da população ao custo de 4,2% do PIB. Obviamente, são inviáveis”, afirma o professor José Márcio Camargo, do Departamento de Economia da PUC-RJ. Ele calcula que, mantendo as regras atuais, a Previdência teria que descontar 30% e não 11% do salário do funcionalismo, a título de contribuição, para tornar-se auto-sustentável.

A questão é polêmica: um estudo elaborado pelo auditor fiscal do INSS/MG, Márcio Soares Pereira, compara os benefícios pagos aos aposentados dos setores público e privado e conclui que, “por incrível que possa parecer, a grande vantagem é para o segurado do INSS”. Pereira leva em conta as aposentadorias dos servidores de baixa renda, que constituem a maioria do quadro estatal. Como eles não tiveram reajuste salarial desde o Plano Real, ao contrário do que ocorreu no INSS, os benefícios previdenciários chegam a ser 100% inferiores. O auditor toma como exemplo um aposentado do serviço público e outro do RGPS que ganhavam R$ 500 em 1995. Hoje, o primeiro recebe pouco mais do que esse valor, se é que obteve algum aumento. Já o segurado do INSS estaria ganhando R$ 998,92, graças aos reajustes conquistados no período.

Conta kafkiana diminui renda dos aposentados

Entretanto, para os inativos do setor privado, o modelo atual também significa confisco. Convém lembrar que, no RGPS, a aposentadoria é calculada pela média de 80% das maiores contribuições feitas desde julho de 1994. As contribuições são atualizadas por critérios determinados pelo governo, que quase nunca correspondem à inflação real do período. Estabelecido o benefício, o INSS aplica o fator previdenciário, que é um redutor expresso em valores percentuais que considera três variáveis: tempo de contribuição e idade do trabalhador divididos pela expectativa de vida que ele tinha ao se aposentar.

Todos os trabalhadores perdem nesta conta kafkiana, mas alguns perdem mais – os que começaram a lhar mais cedo ou se aposentaram com menor tempo de serviço. No caso dos professores de educação básica, o fator previdenciário é calculado com o acréscimo virtual no tempo de contribuição de mais dez (mulher) ou cinco (homem) anos. Com isso, os 25 anos de trabalho de uma professora são considerados 35. “Mas, a medida não corrige a perda, já que as demais variáveis – idade e expectativa de vida – continuam a influir desfavoravelmente no cálculo da aposentadoria”, alerta a diretora da Fepesp (Federação dos Professores do Estado de São Paulo) e do Sinpro-SP, Sílvia Barbara. Na prática, para ter direito a 100% do benefício, a professora de educação básica terá que trabalhar entre 32 e 35 anos e ter, pelo menos, 50 anos de idade.

Um elemento agravante é que o fator previdenciário não é um índice variável, que muda todo o ano, conforme a tabela de expectativa de vida do IBGE – “uma verdadeira caixa preta, que iguala pobres e ricos e altera a estrutura etária da população rapidamente”, segundo a diretora do Sinpro-SP. “Se o objetivo da reforma é fazer justiça social e não atender aos chiliques do mercado e aos interesses das seguradoras privadas, não resta dúvida sobre o destino que deva ser dado ao fator previdenciário, um estelionato de primeira grandeza cometido contra os trabalhadores”, afirma.


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José Luis Fiori

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