Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Previdência diminui em 11,3% a pobreza

O debate avança com um olho no caixa e outro no papel social desempenhado pela Previdência. Diversos segmentos da sociedade contribuem por meio de regras diferenciadas graças às chamadas renúncias previdenciárias. No ano passado, por exemplo, as entidades filantrópicas deixaram de injetar R$ 2 bilhões nos cofres do sistema, enquanto as micro e pequenas empresas foram isentadas em R$ 1,5 bilhão. A idéia é promover o bem-estar social e fomentar o desenvolvimento da economia. Outra função social da Previdência é transferir renda da cidade para o campo. Enquanto os trabalhadores urbanos contribuem com R$ 68,7 bilhões para o INSS e ganham R$ 70,95 bilhões em benefícios, os do campo alimentam o caixa com R$ 2,3 bilhões e recebem R$ 17,07 bilhões. O saldo negativo de R$ 14,8 bilhões do meio rural corresponde a 86,9% da necessidade de financiamento total do RGPS.

Por outro lado, o sistema previdenciário é um fator importante de redução da miséria no país. Em 1999, 54 milhões de brasileiros (34% da população) viviam abaixo da linha de pobreza. Não fossem as aposentadorias e pensões, o percentual subiria para 45,3%. Significa que 18,1 milhões de pessoas escaparam de viver em condições subumanas. Ao mesmo tempo, o grau de miséria entre os idosos triplicaria sem a Previdência, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As mudanças que serão implantadas não podem suprimir essas conquistas. Conjugar a viabilidade econômica e a função social do modelo previdenciário é o grande desafio da primeira das reformas estruturais do governo Lula.

Medalha da cueca vermelha aumenta benefício dos militares

Uma pedra no sapato de Lula é o setor militar, que conta com algumas regalias no atual sistema. Entre elas, está a pensão integral e vitalícia para as filhas do servidor, datada da Guerra do Paraguai. Desde 2000, foi extinta para quem está entrando nas Forças Armadas, mas preservada para os antigos militares. Com 30 anos na ativa, a promoção de patente é automática na hora de entrar para a reserva. Por outro lado, medalhas também garantem um posto acima, como a da Intentona Comunista, de 1935, conhecida na caserna como “cueca vermelha”. Para o brigadeiro Mauro Gandra, ex-ministro da Aeronáutica de FHC, a natureza da atividade profissional justifica o tratamento diferenciado. “Uma ordem superior implica risco de vida, que é indissociável da atividade bélica. Além disso, não podemos exercer ofício paralelo, organizar sindicatos ou realizar greves.”

Caso sejam após aprovadas no Congresso, as novas regras poderão ser bloqueadas pela Justiça? Embora critique as mudanças, o advogado trabalhista Buchabqui considera improvável esta hipótese. “Muda a Constituição, cai o direito adquirido. Caso contrário, a escravidão não teria acabado até hoje. Mas é bom lembrar que, se o governo escapar do embaraço jurídico, não poderá fugir do desgaste político.” Contudo, a juíza aposentada Sheila Bierrenbach (que pertence à Justiça Federal Militar do RJ) prevê cinco anos de turbulências, com uma intensa corrida ao Poder Judiciário de servidores que se sentirem lesados. “A reforma não pode ferir o direito constitucional. Afinal, vivemos num estado democrático, que não deve ser violado.”

Professora da Escola da Magistratura do RJ, ela alerta que a máquina do estado pode sofrer sérios prejuízos com a avalanche de pedidos de aposentadoria dos que pressentirem que estão prestes a perder vantagens. Uma solução à vista é a adoção de regras transitórias, que estabeleçam direitos gradativos para os funcionários conforme o tempo de serviço. Os que já completaram o período mínimo seguiriam as normas antigas. Haveria uma faixa intermediária com um pé na velha e outro na nova Previdência. Por fim, os que entraram há pouco tempo no estado teriam poucos benefícios do antigo sistema.


 

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José Luis Fiori

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