Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Água: um grande negócio
Fotos ABr/Marcello Jr
e Victor Soares
Enquanto desabava uma chuva de bombas sobre Bagdá, governos, agências de financiamento e ambientalistas travavam o primeiro grande embate mundial sobre soluções para a crise da água. Como os tropeços da civilização transformaram a abundância em lixo, o pesadelo da escassez deixou de ser apenas preocupação de ecologistas para virar assunto de homens de negócios. Na linha de fogo, os participantes do Fórum Mundial da Água, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no Japão, e os ativistas que participaram dos Fóruns Sociais da Água em quatro continentes. Eles estão em lados opostos na disputa pelo controle dos recursos hídricos.

Sinara Sandri

e o controle de reservas de petróleo é motivo para a destruição do Iraque, a hipótese de grandes disputas pelo domínio dos mananciais e de um mercado bilionário de prestação de serviços não parece tão irreal. No caso da água, o teatro de operações incluiria os países com grande disponibilidade de água e colocaria o Brasil na alça de mira de interessados na exploração destas reservas.

“Hoje a disputa internacional é por petróleo, em alguns anos, será pelo domínio dos recursos hídricos”, resumiu Leonardo Morelli, coordenador do Fórum Social das Águas da América do Sul, realizado em Cotia (SP), de 16 a 23 de março.

A previsão poderia soar alarmista, mas também pareceu preocupar os participantes do Fórum Mundial das Águas, realizado no mesmo período, em Kyoto (Japão). Uma das propostas feitas durante a chamada cúpula da água foi a criação da Comissão de Água, Paz e Segurança para mediar conflitos existentes ou que ainda possam acontecer na exploração de recursos hídricos, sobretudo nos casos de rios e aqüíferos que ultrapassam fronteiras nacionais.

A escassez de água já era apontada como causa de guerras nos documentos preparatórios à 2a Conferência sobre Assentamentos Humanos da ONU (Habitat 2), realizada em Istambul (Turquia), em 1996. Egito, Etiópia, Síria, Iraque e Turquia eram apontados, naquela época, como focos de tensão por disputas pelos rios Nilo, Tigre e Eufrates.

De lá para cá, as experiências vividas na Bolívia, Oriente Médio e em alguns países africanos tornaram o problema ainda mais explosivo. “A água está na essência da vida e estes conflitos têm sérias repercussões na estabilidade social”, explicou Morelli.

O problema é que as ameaças ambientais e a pressão pelo aumento do consumo tendem a piorar um quadro no qual já existem 1,2 bilhões de pessoas sem acesso à água de boa qualidade e 2,4 bilhões de humanos sem saneamento básico. Todos estão preocupados, mas há divergências quanto às medidas a serem adotadas e muitas propostas da chamada cúpula das águas são consideradas pelos ambientalistas como uma tentativa de privatização dos serviços de abastecimento.

De um lado, os organismos internacionais defendem a necessidade de considerar a água como uma mercadoria com valor econômico e a necessidade de investimentos privados para enfrentar a crescente escassez. Do outro, os movimentos sociais reforçam a necessidade de controle público dos mananciais e entendem que a água é um direito fundamental do ser humano.

A questão é delicada, pois, enquanto a distribuição mundial de reservas de água doce é desigual (ver gráfico), a exploração dos mananciais é economicamente muito promissora. Segundo o Social Watch (coalização mundial de organizações não-governamentais), pelas estimativas de analistas e do Banco Mundial, o mercado mundial de serviços de abastecimento de água representa entre 400 e 800 bilhões de dólares, valores comparáveis ao mercado mundial de combustíveis fósseis.

Neste quadro, os países do Mercosul estão no centro das atenções. O Brasil é o 25o país no ranking mundial de volume per capita de água disponível, mas possui 71 por cento do aqüífero Guarani, considerado até agora o maior manancial de água doce subterrânea do mundo. Com uma extensão de 1,2 milhões de Km2 na região central da América do Sul, a reserva abrange território da Argentina, Brasil (Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná, Goiás, Minas Gerais, Santa Catarina e Mato Grosso), Paraguai e Uruguai.

Formado há 250 milhões de anos pelo acúmulo de água entre as rochas, o aqüífero tem um volume de cerca de 45 trilhões de metros cúbicos de água potável, mineral e térmica que seria suficiente para abastecer a população brasileira por 3.500 anos.

A existência do manancial começa a despertar interesse e foi tratada, pela primeira vez, pelos governadores do Cone Sul, em reunião realizada em 24 de março, em Florianópolis. Enquanto isso, o estudo e gerenciamento da reserva já tiram o sono dos ambientalistas que temem a perda de controle social sobre as reservas.

Desde o ano 2000, o Banco Mundial e a Organização dos Estados Americanos (OEA), através do Fundo para o Meio Ambiente Mundial, fornecem recursos para elaboração do “Projeto de Proteção e Gestão Sustentável” da reserva. A transferência da sede da Coordenação Internacional do Projeto Guarani para Montevidéu, no final do governo Fernando Henrique Cardoso, é apontado por Morelli como uma tentativa de dificultar a participação da sociedade e a manutenção do controle dos países envolvidos. “São informações científicas cujo acesso é dado a corporações interessadas no domínio de nossas reservas de água”, acusou o ativista.

O assunto promete ocupar mais espaço na agenda internacional com a instituição pela ONU do ano de 2003 como Ano Internacional da Água Doce. O objetivo do movimento de defesa das águas é definir um plano de mobilização da sociedade civil que insira os problemas locais em um quadro mundial de disputa pelo controle das reservas.

A idéia é globalizar a resistência e utilizar os mesmos métodos de organização, responsáveis pelas gigantescas manifestações pacifistas que têm sacudido o mundo na luta contra a ofensiva norte-americana ao Iraque. São redes de ativistas de base interligados, principalmente, pela Internet para agir simultaneamente em vários continentes. A fórmula foi utilizada em uma teleconferência no Fórum Social das Águas para fazer um balanço das atividades realizadas em Cotia (São Paulo), Nova Deli (Índia), Florença (Itália), Nova York (EUA) e Gana (África) e receber relatos de ativistas que estavam em Kyoto.

No Brasil, as atividades do fórum priorizaram a participação das crianças e deram ênfase a programas de educação ambiental. A prioridade de ações no país será para a região da Amazônia, Bacia do Prata, Aqüífero Guarani e águas oceânicas. Em 2004, a Campanha da Fraternidade 2004 terá como lema “Água, Fonte de Vida” e os ambientalistas querem ampliar a participação popular nos comitês de gestão de bacias hidrográficas.

“Vamos buscar apoio em movimentos sociais e sindicais e pretendemos envolver as escolas em um sistema de fiscalização ambiental”, explicou Morelli.

Distribuição da água doce no mundo
Fonte: Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos no Mundo


População não-abastecida por serviços de água
Fonte: Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos


Uso e poluição

A agricultura recebe 70 por cento de toda a água consumida no planeta. As lavouras irrigadas ocupam um quinto da área cultivada e recebem 15 % da água de uso agrícola. O setor industrial utiliza 22% e o uso doméstico é responsável por 8% deste consumo. Nos países pobres, a agricultura chega a consumir 82% da água e a indústria leva 59% da água em nações ricas.

Além do uso intenso e das perdas no sistema de abastecimento e irrigação, a atividade humana deixa pegadas e produz diariamente 1.500 quilômetros cúbicos de águas contaminadas por resíduos industriais, químicos, humanos e agrícolas.

Cada litro de água poluída inutiliza oito litros de água doce.


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José Luis Fiori

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Livros:
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