Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Cúpula da água
René Cabrales
A chamada cúpula mundial da água foi organizada pela ONU e reuniu dez mil delegados e representantes de governos. Oficialmente, o objetivo do encontro era discutir medidas para que os serviços de abastecimento de água cumprissem os chamados Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio, estabelecidos na Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000, cuja meta é reduzir pela metade o número de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia, passam fome e não têm acesso à água potável até 2015.

Os estudos que nortearam o encontro no Japão e servirão de base para a primeira reunião do G-8 (grupo dos sete países mais ricos do mundo e Rússia) sobre o tema, em junho na França, partiram da premissa que a infra-estrutura existente é insuficiente para o abastecimento da população. O relatório “Financiando Água para Todos”, elaborado sob a chefia de Michel Camdessus (ex-diretor-executivo do FMI), e os planos do Banco Mundial estimam que o investimento anual teria que passar de 75 para 180 bilhões de dólares para alcançar os Objetivos do Milênio.

A declaração final do encontro indica que o financiamento deve ser garantido principalmente pelo setor público nos países em desenvolvimento e complementado pela ajuda internacional e por instituições financeiras. Entretanto, o documento admite que já foram tentados vários modelos de financiamento combinando fundos públicos, privados e doações cujos resultados não foram homogêneos. “O debate sobre parcerias entre (setores) público e privado ainda não foi resolvido”, esclareceu a declaração.

Durante o encontro do Japão, funcionários do Banco Mundial teriam informado que os investimentos da instituição seriam feitos em tecnologia para exploração de águas subterrâneas e no financiamento de projetos no chamado Terceiro Mundo. No Brasil, o banco pretenderia financiar hidrelétricas na Amazônia, obter recursos para a transposição do Rio São Francisco e investir na hidrovia do Rio Paraná.

“Quem negocia nestes fóruns (Kyoto) são os países ricos que acabam decidindo sobre reservas de água que não são deles”, criticou Leonardo Morelli.

A acusação não parece exagerada, pois a cúpula da água ocorreu justamente em meio ao calendário fixado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) que determina prazos para as negociações do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), tratado cujo objetivo é liberalizar de forma progressiva o comércio de serviços. Pela Declaração de Doha - resultado da reunião da OMC realizada no Catar, em novembro de 2001 – os anos de 2003 e 2004 estão destinados à apresentação de propostas e solicitações de liberalização de serviços entre os países-membros.
“A água não pode ser incluída em tratados econômicos que fixam regras para a inserção dos países e determinam os modelos de gestão. A questão da água é muito mais explosiva que qualquer outro fator econômico”, contestou Morelli.

Os representantes de movimentos sociais temem a reprodução de conflitos semelhantes aos ocorridos em Cochabamba (Bolívia), onde a empresa municipal de água foi privatizada como condição imposta para liberação de empréstimos do FMI e Banco Mundial, no final da década de 90. Segundo o Social Watch, as tarifas tiveram um aumento de 200 a 300% e provocaram rebeliões de consumidores que levaram à anulação do contrato de concessão.

Outra experiência negativa da privatização dos serviços de água foi denunciada durante o 3o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. “Com a privatização, quem não podia pagar foi excluído da rede de distribuição de água e as tarifas foram indexadas ao dólar”, explicou Rudolf Amenga-Etego, da Coalizão Nacional contra a Privatização da Água de Gana.
“A privatização da água é muito diferente da privatização de serviços como a telefonia”, resumiu Morelli.

 LINKS
http://www.socialwatch.org - relatório sobre a situação dos serviços essenciais no mundo e os impactos da privatização
http://www.ecoagência.org.br - cobertura do Fórum Mundial da Água
http://www.world.water-forum3.com/ - Site oficial do 3o Fórum Mundial da Água
http://www.wto.org - Site oficial da Organização Mundial do Comércio
http://www.wateryear2003.org/ - Site oficial do Ano Internacional da Água
http://www.forumsocialdasaguas.com.br - Site oficial do Fórum Social das Águas
http://www.ana.gov.br/guarani/ - Site oficial da Agência Nacional de Águas com informações sobre o Aqüífero Guarani


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José Luis Fiori

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