Guerra pode gerar 1,5 milhão de refugiados
Ana Esteves
Às 11 horas da manhã do dia 19 de março, pouco
menos de 12 horas antes do término do prazo dado pelo presidente
norte americano George W. Bush para que Saddan Hussein e sua família
deixassem o Iraque, as notícias vindas de Bagdá já
anunciavam: centenas de refugiados iraquianos cruzavam a fronteira
do país, rumo à Jordânia, onde se instalariam
em barracas improvisadas. O início da movimentação
em fuga da guerra, mesmo sem ela ter sido oficialmente declarada,
já dava uma prévia do número elevado de pessoas
que deixará o Iraque em busca de asilo fora das áreas
de conflito. Poucas horas depois da primeira bomba atingir Bagdá,
no início da manhã do dia 20 de março, um total
de 275 trabalhadores foram enviados junto com as famílias,
ao acampamento do Crescente Vermelho, perto da aldeia de Ruwaished,
na Jordânia.
Segundo estimativa do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados
(Acnur) de 600 mil a 1,5 milhão de pessoas podem deixar o
território iraquiano rumo a países vizinhos como a
Síria, onde está o campo de El Hol, localizado a 100Km
do Iraque, o Irã com três campos de refugiados instalados
próximo a Ahwaz, e a Jordânia, onde estão os
campos de Ruwaished, localizados a 60 quilômetros da fronteira
iraquiana e de Al Karama.
Conforme o porta-voz do Acnur, Ron Redmond*, a entidade trabalha
em conjunto com esses países com o intuito de proteger e
dar assistência aos refugiados, preocupando-se com a manutenção
da proteção internacional. Solicitamos que eles
mantenham suas fronteiras abertas durante o conflito, para que os
refugiados possam procurar assistência material e proteção
temporária, diminuindo os efeitos do sofrimento humano. Para
isso, provemos comida, abrigo, água, medicamentos, roupas
e material de higiene, declarou Redmond. De acordo com ele,
o Acnur recebeu recentemente US$ 21 milhões em contribuições,
pouco mais de um terço dos US$ 60 milhões que necessita
para as ações durante a guerra. Estamos fazendo
o melhor mesmo com poucos recursos disponíveis, disse.
Mas as atenções do Acnur não se voltam apenas
às pessoas que deixam o Iraque. Existem previsões
de que a guerra possa gerar 2 milhões dos chamados refugiados
internos, ou seja, pessoas que deixam suas casas e regiões,
mas continuam no país. Neste caso, órgãos das
Nações Unidas, como o programa Mundial de Alimentos
temem a possibilidade de uma crise humanitária devastadora
pela falta de recursos e a incerteza sobre como será a distribuição
de comida no Iraque. Antes do início do conflito, 60% da
população do país dependia totalmente do programa
Petróleo por Alimentos, administrado pela ONU e que foi suspenso
em função da guerra. Outro problema é que as
doações internacionais de alimentos são distribuídas
no Iraque pelas redes do governo de Saddan Hussein e
entram no país pelo Sul, rota que os militares americanos
e britânicos usam na invasão.
Para ajudar os governos regionais a fazer frente à migração
de refugiados, o Acnur também está trabalhando em
conjunto com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV),
que, da mesma forma, está preparada para atender, com alimentos
e outros bens ,100 mil refugiados durante a primeira fase da guerra.
Com bases logísticas na Jordânia, no Kuwait e no Irã,
a CV dispõe de materiais médicos para fazer funcionar
hospitais e cuidar de feridos, assim como equipes para reparação
das redes de água.
Refugiados no mundo
Segundo dados da pesquisa Refugiados em Cifras 2002 divulgada pelo
Acnur em meados do ano passado, uma em cada 300 pessoas no planeta
está inserida no grupo de 19,8 milhões de pessoas
consideradas de interesse da entidade: refugiados (num total de
12 milhões), solicitantes de asilo, refugiados repatriados
e refugiados internos. De acordo com a pesquisa, em 2001, o número
de pessoas fora de seus lares, por receio fundado de perseguição
em virtude da sua raça, religião, nacionalidade ou
opinião política, era de 21,8 milhões. A redução
de dois milhões se deve ao fato de que um número ainda
maior de refugiados tem retornado do exílio. Entretanto,
muitos conflitos ainda têm reflexos em diversas partes do
planeta. Cerca de 200 mil afegãos se uniram aos 3,5 milhões
de compratriotas que viviam como refugiados fora do país;
188 mil africanos fugiram para fora de seus países em guerra
rumo a territórios vizinhos e o mesmo fizeram 93 mil cidadãos
da antiga República Ioguslava. Somam-se a isso 511 mil civis
que se converteram em refugiados internos no Afeganistão,
outros quase 200 mil na Colômbia e 122 mil na Libéria.
No Brasil, segundo informações do Ministério
da Justiça, vivem hoje 2.894 refugiados. O maior grupo é
de Angolanos, seguidos pela Libéria, Serra Leoa e República
do Congo. Quanto aos iraquianos, há um grupo de 72 deles
morando no país.
Em abril de 2002, Porto Alegre acolheu cinco famílias de
refugiados afegãos, com base no Acordo Macro para Reassentamento
de Refugiados, estabelecido entre o Governo Federal e o Acnur. Mas,
mesmo longe da guerra, a vida demorou a voltar ao normal: em agosto
eles encaminharam à Assembléia Legislativa/RS uma
carta relatando uma série de dificuldades: Somos recebidos
como refugiados, mas, não temos curso de português.
Estamos sem intérprete, sem trabalho e com o salário
muito baixo, dizia o documento.
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