Ano 8 - nº 70
Abril 2003



Luis Fernando Verissimo:
Teste de História: qual foi a última vez que um país invadiu outro sem provocação, para mudar seu regime e se servir dos seus recursos naturais?



Nei Lisboa:
O conselho que George W. Bush recebeu do escritor alemão Günter Grass e obviamente ignorou, o de que consultasse um psicanalista ao invés de invadir o Iraque, é o máximo...



Elisa Lucinda:

Pouca gente se dá conta, mas estamos preparando sem pensar e aos poucos sem saber e sempre a nossa máscara da velhice. Estamos durante a vida, desde meninos, esculpindo talhe a talhe a forma da escultura na qual teremos resultado.







Guerra pode gerar 1,5 milhão de refugiados

Ana Esteves

Às 11 horas da manhã do dia 19 de março, pouco menos de 12 horas antes do término do prazo dado pelo presidente norte americano George W. Bush para que Saddan Hussein e sua família deixassem o Iraque, as notícias vindas de Bagdá já anunciavam: centenas de refugiados iraquianos cruzavam a fronteira do país, rumo à Jordânia, onde se instalariam em barracas improvisadas. O início da movimentação em fuga da guerra, mesmo sem ela ter sido oficialmente declarada, já dava uma prévia do número elevado de pessoas que deixará o Iraque em busca de asilo fora das áreas de conflito. Poucas horas depois da primeira bomba atingir Bagdá, no início da manhã do dia 20 de março, um total de 275 trabalhadores foram enviados junto com as famílias, ao acampamento do Crescente Vermelho, perto da aldeia de Ruwaished, na Jordânia.

Segundo estimativa do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) de 600 mil a 1,5 milhão de pessoas podem deixar o território iraquiano rumo a países vizinhos como a Síria, onde está o campo de El Hol, localizado a 100Km do Iraque, o Irã com três campos de refugiados instalados próximo a Ahwaz, e a Jordânia, onde estão os campos de Ruwaished, localizados a 60 quilômetros da fronteira iraquiana e de Al Karama.

Conforme o porta-voz do Acnur, Ron Redmond*, a entidade trabalha em conjunto com esses países com o intuito de proteger e dar assistência aos refugiados, preocupando-se com a manutenção da proteção internacional. “Solicitamos que eles mantenham suas fronteiras abertas durante o conflito, para que os refugiados possam procurar assistência material e proteção temporária, diminuindo os efeitos do sofrimento humano. Para isso, provemos comida, abrigo, água, medicamentos, roupas e material de higiene”, declarou Redmond. De acordo com ele, o Acnur recebeu recentemente US$ 21 milhões em contribuições, pouco mais de um terço dos US$ 60 milhões que necessita para as ações durante a guerra. “Estamos fazendo o melhor mesmo com poucos recursos disponíveis”, disse.

Mas as atenções do Acnur não se voltam apenas às pessoas que deixam o Iraque. Existem previsões de que a guerra possa gerar 2 milhões dos chamados refugiados internos, ou seja, pessoas que deixam suas casas e regiões, mas continuam no país. Neste caso, órgãos das Nações Unidas, como o programa Mundial de Alimentos temem a possibilidade de uma crise humanitária “devastadora” pela falta de recursos e a incerteza sobre como será a distribuição de comida no Iraque. Antes do início do conflito, 60% da população do país dependia totalmente do programa Petróleo por Alimentos, administrado pela ONU e que foi suspenso em função da guerra. Outro problema é que as doações internacionais de alimentos são distribuídas no Iraque pelas “redes” do governo de Saddan Hussein e entram no país pelo Sul, rota que os militares americanos e britânicos usam na invasão.

Para ajudar os governos regionais a fazer frente à migração de refugiados, o Acnur também está trabalhando em conjunto com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que, da mesma forma, está preparada para atender, com alimentos e outros bens ,100 mil refugiados durante a primeira fase da guerra. Com bases logísticas na Jordânia, no Kuwait e no Irã, a CV dispõe de materiais médicos para fazer funcionar hospitais e cuidar de feridos, assim como equipes para reparação das redes de água.

Refugiados no mundo

Segundo dados da pesquisa Refugiados em Cifras 2002 divulgada pelo Acnur em meados do ano passado, uma em cada 300 pessoas no planeta está inserida no grupo de 19,8 milhões de pessoas consideradas de interesse da entidade: refugiados (num total de 12 milhões), solicitantes de asilo, refugiados repatriados e refugiados internos. De acordo com a pesquisa, em 2001, o número de pessoas fora de seus lares, por receio fundado de perseguição em virtude da sua raça, religião, nacionalidade ou opinião política, era de 21,8 milhões. A redução de dois milhões se deve ao fato de que um número ainda maior de refugiados tem retornado do exílio. Entretanto, muitos conflitos ainda têm reflexos em diversas partes do planeta. Cerca de 200 mil afegãos se uniram aos 3,5 milhões de compratriotas que viviam como refugiados fora do país; 188 mil africanos fugiram para fora de seus países em guerra rumo a territórios vizinhos e o mesmo fizeram 93 mil cidadãos da antiga República Ioguslava. Somam-se a isso 511 mil civis que se converteram em refugiados internos no Afeganistão, outros quase 200 mil na Colômbia e 122 mil na Libéria.

No Brasil, segundo informações do Ministério da Justiça, vivem hoje 2.894 refugiados. O maior grupo é de Angolanos, seguidos pela Libéria, Serra Leoa e República do Congo. Quanto aos iraquianos, há um grupo de 72 deles morando no país.

Em abril de 2002, Porto Alegre acolheu cinco famílias de refugiados afegãos, com base no Acordo Macro para Reassentamento de Refugiados, estabelecido entre o Governo Federal e o Acnur. Mas, mesmo longe da guerra, a vida demorou a voltar ao normal: em agosto eles encaminharam à Assembléia Legislativa/RS uma carta relatando uma série de dificuldades: “Somos recebidos como refugiados, mas, não temos curso de português. Estamos sem intérprete, sem trabalho e com o salário muito baixo”, dizia o documento.


 

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José Luis Fiori

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