A droga mais consumida no
ambiente escolar não está sujeita às
penas da lei. Além
de não ser ilícita, pode ser
adquirida em qualquer
boteco. Embora sua venda
seja proibida para menores
de 18 anos, a falta de
fiscalização abre a porta do
consumo de bebidas
alcoólicas para jovens e
adolescentes.
Por Paulo César Teixeira
Ilustração:
Claudete Sieber sobre fotos de René Cabrales
álcool é a
droga mais nociva em termos
de impacto na saúde, economia e segurança,
em função do preço acessível, da
facilidade de compra e da distribuição em todo
território nacional”, diz Sérgio Dualib, pesquisador
da Unidade de Pesquisa de Álcool e outras
Drogas da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp). “Em todo o mundo, as drogas
mais usadas pelos adultos, pelos pais, são também
as mais usadas por adolescentes, como é o
caso do álcool”, reforça Ken Winters, professor
do Departamento de Psiquiatria da Universidade
de Minnesota, nos Estados Unidos, que
realizou palestra no Colégio Anchieta, em Porto
Alegre, em dezembro passado (leia entrevista abaixo).
O crescimento do consumo de bebidas alcoólicas entre
jovens e adolescentes preocupa educadores, psicólogos, médicos
e autoridades de segurança pública. Em mensagem
dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, em janeiro deste ano, como justificativa
para a Medida Provisória que proibiu a
comercialização de bebidas alcoólicas nas
rodovias
federais, o ministro da Justiça, Tarso
Genro, lembrou que a Organização Mundial
da Saúde (OMS) estima em 2 bilhões o número
de consumidores no mundo. E que o álcool
causa anualmente 1,8 milhão de mortes no planeta.
Estudos internacionais estimam em 6%
do PIB os custos sociais, diretos e indiretos, do
uso nocivo de bebidas.
Gatilho da violência
Em ranking sobre consumo de álcool divulgado
pela Organização Mundial da Saúde, o
Brasil aparece em segundo lugar, com 11,2%
da população adulta sendo considerada dependente,
atrás apenas da Polônia (12,2%). É, sem
dúvida, um dado alarmante. Entretanto, pode
não corresponder à realidade, uma vez que a
própria OMS admite que o relatório é falho.
Em outro ranking da instituição sobre consumo
per capita, o Brasil aparece em 80º lugar. “Não
há dados científicos confiáveis e, além
disso,
cada país tem sua própria metodologia para
mensurar o consumo e a dependência. Alguns
limitam a pesquisa a uma cidade, outros a uma
região, poucos abrangem o território nacional”,
ressalta Heloísa Dantas, coordenadora do Centro
de Informações sobre Álcool e Saúde
(CISA), ONG que desenvolve projetos de prevenção
na rede escolar com a distribuição de
cartilhas e DVDs.
Ainda que não saibamos a exata posição que
o país ocupa no ranking global, dados do governo
federal indicam que o consumo de bebidas
alcoólicas no Brasil aumentou 70% entre as
décadas de 70 e 90. Em 2007, 65 mil brasileiros
foram internados pelo Sistema Único de Saúde
(SUS) para tratamento de alcoolismo. Os gastos
do SUS com tratamento de dependentes
de álcool e outras drogas atingiram, entre 2002
e 2006, a cifra de R$ 41 milhões. Atualmente,
mais de 70% das internações em instituições
psiquiátricas do país estão relacionadas ao
alcoolismo.
Além de enfermidades que vão desde
lesões de pele, gastrite, hepatite e cirrose
até câncer de esôfago, laringe e língua,
o abuso
de bebida alcoólica transforma-se em gatilho
para situações de risco, incluindo homicídios,
estupros, suicídios, violência doméstica,
sexo sem proteção e acidentes de trânsito,
salienta
Dualib, da Unifesp.
De fato, um levantamento da Secretaria de
Segurança Pública do RS realizado em 2007, a
partir de dados do Instituto Médico Legal, constatou
que 25,8% das vítimas de acidentes de
trânsito estavam embriagadas – não custa lembrar
que, a cada ano, cerca de 35 mil brasileiros
perdem a vida em desastres automobilísticos.
No caso de afogamentos, o percentual sobe
para 44,9%. No item homicídios, a porcentagem é
de 19,65%. E 32,31% das pessoas assassinadas
com armas brancas (faca, canivete, etc.)
havia se excedido na bebida. Se estivessem sóbrias,
teriam mais chances de sobreviver. “Oitenta
por cento dos casos de violência contra a
mulher estão relacionados ao abuso do álcool”,
assegura Marco Antônio dos Santos, diretor do
Departamento de Gestão e Estratégia
Operacional da Secretaria de Segurança do RS.
Os
princípios da prevenção na escola
1) Focar a
diminuição dos fatores de risco
e o aumento dos de proteção. 2) Considerar a noção de “porta de entrada” e priorizar álcool
e tabaco. 3) Ser multifacetada e desenvolvida em diferentes locais. 4) Considerar a linha de desenvolvimento de cada turma bem como a cultura reinante. 5) Esforçar-se por vincular os jovens e seus familiares no programa. 6) Preocupar-se em desenvolver as habilidades de convivência social. 7) Ajudar aos pais no monitoramento dos jovens.
8) Ser dirigida por um grupo misto de professores,
pais e lideranças comunitárias. 9) Ser auto-sustentada.
Batismo
de álcool
Em 2007, a Secretaria Nacional
Antidrogas (Senad), em parceria
com a Unifesp, divulgou o I
Levantamento Nacional sobre Padrões
de Consumo de Álcool na População
Brasileira. Foram feitas
3.007 entrevistas com 2.346 adultos
com mais de 18 anos e 661 adolescentes
de 14 a 17 anos, em 143
municípios. Conforme os resultados,
52% dos brasileiros beberam
pelo menos uma vez nos 12 meses
anteriores à consulta. Vinte e oito
por cento da população, equivalente
a 33,6 milhões de pessoas,
beberam no padrão binge (quatro
doses ou mais para mulheres e cinco
doses ou mais para homens) no
mínimo uma vez no último ano.
Entre os adolescentes, 35% consomem álcool
pelo menos uma vez por ano e 24%, uma vez por mês.
A cerveja é a bebida mais
consumida pela garotada (52%),
seguida de vinho (35%), destilados
(7%) e as do tipo “ice” (6%). O estudo
aponta a idade em que os adolescentes começam
a ingerir álcool: 13,9 anos
para rapazes e 14,6 para as jovens. É
evidente a antecipação do primeiro
gole, uma vez que homens
e mulheres adultos declararam ter
começado a beber, respectivamente,
aos 17,3 e 15,3 anos.
O batismo de álcool cada vez
mais precoce é facilitado pela falta
de fiscalização junto ao comércio,
como constataram os pesquisadores
da Unifesp, em investigação
realizada em dois municípios
paulistas. Em Paulínia, na
região abastada de Campinas,
eles verificaram que a lei de proibição da venda
para menores de
18 anos é descumprida em 92%
dos estabelecimentos comerciais,
incluindo postos de gasolina,
bares, lanchonetes e restaurantes,
onde o comerciante não
pede carteira de identidade,
nem faz menção à idade do
comprador. Em Diadema, no
ABC paulista, com PIB bem
menor, o percentual de
descumprimento da legislação é
de 86%. O desacato à legislação é
extremamente danoso: “Na adolescência,
o sistema nervoso não está completamente
formado, o que multiplica
por cinco a chance de a pessoa
virar dependente no futuro”,
explica Sérgio Dualib, médico
do Trabalho especializado em
dependência química.
Bandeiras
populistas
A questão é que a falta de embasamento científico
que prejudica a definição de um ranking mundial do
alcoolismo
afeta também as propostas de combate ao consumo
de álcool, que acabam contaminadas por arroubos
moralistas, conforme a coordenadora do Cisa, Heloísa
Dantas. “É uma discussão em que as pessoas
ficam muito
apaixonadas. Por essa razão, é fácil deixar
a área científica
e empunhar bandeiras populistas”. Segundo ela,
alguns estudos indicam que a proibição da propaganda é benéfica,
enquanto outros apontam que é inócua. “A
publicidade do cigarro foi proibida na televisão, mas os
jovens continuam fumando”. Ao mesmo tempo, o aumento
do imposto pode resultar na migração do consumo
para bebidas mais baratas, como a cachaça, além de
ampliar o mercado ilegal de bebidas, que já existe. “Não
temos na literatura um corpo sólido de evidências
sobre a
medida mais eficaz para reduzir o consumo. Quem descobrir,
talvez ganhe o prêmio Nobel”, afirma Heloísa.
Uma coisa é certa: a ação educadora ainda é a
principal
arma contra o abuso do consumo. E ela passa por desenvolver
entre os jovens e adolescentes a capacidade
crítica de pensar por contra própria e dizer sim
ou não,
em suma, fazer escolhas. “É importante que o jovem
se
sinta em condições de promover mudanças em
seu comportamento
e, para isso, adquira autoconfiança suficiente
para enfrentar pressões – desde a pressão dos
amigos
até a ausência de opções de lazer. Uma
forma de ajudá-los é
trabalhar em parceria com a escola e a família, com uma
linguagem acessível”, afirma Paulina Duarte, secretáriaadjunta
Antidrogas do governo federal.
"Prevenção
é o que se pode fazer"
Professor do Departamento de
Psiquiatria
da Universidade de Minnesota (EUA), Ken
Winters, elaborou um programa de prevenção
de álcool e drogas no ambiente escolar que é a
síntese de cerca de cem projetos bem avaliados
por uma comissão de pesquisadores internacionais.
A seguir, trechos da entrevista
que concedeu ao Extra Classe:
Extra Classe – O senhor afirma que o álcool é uma
das portas de entrada para o consumo de drogas no
ambiente escolar. O que fazer para
bloquear essa passagem?
Ken Winters – Uma prevenção é o
que se
pode fazer, embora nem sempre funcione perfeitamente.
A escola é um excelente local para
uma prevenção que envolva alunos, pais
e comunidade
ao redor. Um ponto importante é que
o programa tem que encantar e conquistar
o adolescente. Estamos aprendendo com a
ciência que o comportamento de adulto e adolescente
difere porque o desenvolvimento do
cérebro acompanha o desenvolvimento do corpo.
Então, o programa de prevenção
precisa
ser divertido... Por exemplo, uma representação
teatral em que o adolescente se coloca no
lugar do adulto. Ele verá o que é ter
um filho
drogado, uma experiência dolorosa. Quem
sabe a encenação de um júri
com a ação de
uma vítima de alcoolismo contra o fabricante
de bebida.
EC – A realidade de quem vive na periferia de
uma cidade brasileira é diferente, por exemplo,
da
realidade de uma família de classe média
de Chicago.
O programa de prevenção que o senhor
propõe pode
ser aplicado indistintamente em diferentes países?
Winters – Os princípios fundamentais funcionam
em diferentes classes sociais. Mesmo sem
muitos recursos, a família pode aprender a tomar
providências e a estar preparada para trabalhar
na prevenção de drogas. Por exemplo,
para tirar a
carteira de motorista, se você for rico ou pobre,
não importa. Basta que aprenda a dirigir um
automóvel.
Quando falamos de um programa de prevenção,
basta que os pais aprendam determinadas
habilidades.
Lei
Seca
No ano passado, o ministro da
Saúde, José Gomes Temporão,
defendeu
a criação de uma taxa sobre
cigarros e bebidas alcoólicas,
cujos recursos seriam destinados
a um fundo de combate às doenças
causadas pelos produtos. A elevação
de impostos é defendida por
mais da metade da população brasileira
(56%), conforme a pesquisa
da Senad. A restrição à propaganda
de bebidas também estaria
nos planos do governo: “No Brasil,
hoje há um código de autoregulamentação
publicitária, mas
no caso das bebidas alcoólicas,
esse código não está cumprindo
sua missão”, afirmou o ministro. “A
propaganda é sempre dirigida ao
público jovem. A indústria não
está interessada em fazer a cabeça
do sujeito com mais de 40 anos.
Se ele não bebe, não vai começar
agora. Se já bebe, não vai beber
em maior quantidade”, diz Dualib,
da Unifesp.
Ainda segundo o levantamento
da Senad, 76% dos brasileiros
são favoráveis à restrição
ao horário
de comercialização de bebidas,
como quer o secretário da Segurança
do RS, José Francisco
Mallmann. “Ninguém bebe moderadamente
depois da meia noite”,
afirma ele. A proposta da Secretaria
de Segurança é a proibição
da venda de bebidas da meia noite às
6h da manhã, nas madrugadas
de sábado e domingo. O foco
são os dez municípios gaúchos
que
concentram cerca de 60% das
ocorrências de homicídios, principalmente
na Região Metropolitana
de Porto Alegre, em Caxias do
Sul e Passo Fundo. Na capital gaúcha,
os alvos seriam os bairros
mais violentos, como Sarandi, Rubem
Berta e Restinga, assim como áreas
de boemia, a exemplo de Cidade Baixa e Moinhos de
Vento.
Em Diadema (SP), com a adoção
da lei seca após as 23h, o índice
de homicídios baixou em 45%, enquanto
o de violência contra a
mulher diminuiu 26%.
Para se transformar em realidade,
a sugestão da Secretaria de
Segurança do RS precisa ganhar
força de lei municipal em cada cidade.
Encaminhada às prefeituras,
não encontrou receptividade. “O
poder Executivo não vislumbra
a importância da medida.
Quando vislumbra, não adota”, reclama
o tenente-coronel da BM,
Marco Antônio dos Santos. Como
a idéia não avançou junto aos
prefeitos,
a intenção do secretário
Mallmann é mobilizar as comunidades
para a criação de uma lei
estadual. A proposta inclui a proibição
da venda de bebidas alcoólicas
em um raio de 200 metros das
escolas.
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