Mais
produtividade, menos trabalho
Marcio Pochmann*
A vertente do pensamento liberal-conservador
e suas ações
concretas implementadas na
reorientação das políticas públicas
dos governos dos anos 90 criaram,
entre outros, o falso mito
da geração dos inempregáveis,
tendo em vista a dicotomia entre
a perspectiva do determinismo
tecnológico na supressão dos postos
de trabalho e o avanço na oferta
de mão-de-obra. Por conta disso,
pregava-se que o setor industrial
não mais geraria emprego,
assim como o assalariamento estaria
com os dias contados, restando,
em contrapartida, o salvese
quem puder pelo auto-emprego
(empreendedorismo) ou pelos
cursos de qualificação profissional.
À
medida que o Brasil vai se
distanciando da visão neoliberal,
o emprego assalariado volta a
crescer com queda no desemprego.
O país está longe do ideal,
mas, se a economia nacional mantiver
o ritmo de expansão acima
dos 5% ao ano acompanhado de
um novo padrão de políticas públicas,
poderemos reduzir o desemprego
a taxas inferiores aos 3%
da população economicamente
ativa, patamares vigentes até o
início dos anos 1980.
Além dessa possibilidade real
e alvissareira, estamos passando
por profundas mudanças no mundo
do trabalho.
No início do século passado,
o ingresso na vida laboral se dava
aos cinco ou seis anos de idade e
se encerrava somente com a morte,
geralmente em torno dos 35
anos, que representava a expectativa
média de vida dos brasileiros
do início do século 20. Ao se
acrescentar ainda a ausência da
regulação do tempo de trabalho
(48 horas semanais, férias, descanso
semanal, feriados) e de
medidas de aposentadoria e pensão,
o tempo de trabalho podia
equivaler a mais de 5,5 mil horas
de trabalho por ano.
Com o desenvolvimento urbano
e industrial ocorrido a partir
dos anos 30, tornou-se possível
reduzir o peso do trabalho
heterônomo (realizado em troca
de uma remuneração pela sobrevivência)
para um quinto do tempo
de vida.
Isso porque o ingresso no mercado
de trabalho foi postergado
para os 15 anos de idade, após o
acesso ao Ensino Básico, enquanto
a saída para a inatividade se
deu a partir da contribuição por
35 anos ao fundo previdenciário.
Contando com a duplicação da
longevidade ao longo do século
20 (de 35 para 70 anos), percebe-se que o desenvolvimento
nacional permitiu à propriedade
social alargar o tempo de vida,
bem como direcioná-lo à sociabilidade
moderna, com mais educação,
saúde, consumo e investimento
humano.
Agora, no limiar do século 21,
há a perspectiva de elevação da
longevidade para acima dos cem
anos de idade e uma profunda
ampliação da produtividade do
trabalho. Tudo isso motiva preparar,
em novas bases, as ações estratégicas
para o desenvolvimento
brasileiro de longo prazo. Para
quem vai viver cem anos, com a
intensificação da produtividade,
ampliam-se as possibilidades de
ingresso no mercado de trabalho
após os 25 anos de idade – conforme
já ocorre para os filhos dos ricos –
, assim como o tempo de trabalho
em menor escala.
* Presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), professor licenciado do
Instituto de Economia e do Centro de Estudos
Sindicais e de Economia do Trabalho da
Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
O
futuro econômico de Porto Alegre:
uma
questão pouco discutida
José Antônio Alonso*
A interpretação
do desenvolvimento
econômico
de cidades como Porto Alegre
pode, eventualmente,
levar os analistas a equívocos
ao observar o comportamento
dos principais agregados
econômicos. As séries referentes à
participação do parque industrial
porto-alegrense no total
da indústria do estado revela
uma queda relativa expressiva,
de algo em torno de 27% em
1970 para, aproximadamente,
9% em 2005. A mesma tendência é
observada com relação aos
serviços, cuja oferta em Porto
Alegre representava 33,27% em
1970 e 25,62% em 2005. Tal evidência
empírica tem levado
muitos analistas a concluir que
a metrópole gaúcha caminha
inexoravelmente para o esvaziamento
econômico. Essa foi a
avaliação de importante dirigente
municipal na última Conferência
Mundial Sobre Desenvolvimento
de Cidades, ocorrida em fevereiro, em Porto Alegre.
Trata-se de uma leitura
apressada, sem considerar a história, o
desenvolvimento
do capitalismo
e
as respectivas
metamorfoses por
que passam as economias
das metrópoles. As transformações
são de caráter estrutural,
como as mudanças na
composição do produto e do emprego,
e também de caráter
territorial. A perda relativa da
função industrial que Porto Alegre
desempenhou no passado
não significa
que essa
atividade
venha a
desaparecer,
em termos
absolutos, da
capital. Há espaço, sim,
para atividades industriais
que operem com tecnologias limpas, que não
consumam
muito espaço físico, que movimentem
matérias-primas e bens
finais de pequenos volumes, o
que significa baixa pressão sobre
a circulação. Um excelente
exemplo desse tipo de atividade é, sem dúvida,
o Ceitec.
O vislumbre sobre o futuro
econômico da capital gaúcha
exige um olhar mais fino sobre
as mudanças em curso. Com
efeito, a dinâmica de Porto Alegre
vem sendo, progressivamente,
comandada pelo moderno
complexo de serviços que nela se
estabeleceu ao longo da história.
Observe-se que essa é uma característica
das metrópoles contemporâneas,
onde os serviços
ampliaram seu papel e passaram
também a exercer, nesses espaços,
a função de indutores do desenvolvimento.
Todavia, tem se
percebido, em anos recentes, um
suave declínio na oferta de alguns
tipos de serviços na capital quando
comparados com o resto da
RMPA. Esse movimento não implica,
no curto prazo, perda de
hegemonia da economia de Porto
Alegre. Entretanto, numa perspectiva
de longo prazo, impõe-se
acompanhar com mais atenção a
tendência locacional dos serviços
na RMPA.
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