Universidade
para ganhar dinheiro
Depois de quase um século de desenvolvimento
do Ensino Superior voltado
para a formação da elite brasileira, baseado
nos modelos estatal e confessional,
universidades tradicionais se confrontam
com a estratégia empresarial
de faculdades como a Anhanguera, que
recentemente adquiriu cinco unidades
no Rio Grande do Sul.
Por Naira Hofmeister

chegada
do grupo Anhanguera ao Rio
Grande do Sul em setembro de 2007 marca
definitivamente o ingresso do estado
numa nova fase de desenvolvimento do Ensino
Superior. São instituições administradas segundo
a lógica empresarial e cujo regente maior é
o livre mercado.
Com aquisição, em fevereiro deste ano, das
Faculdades Planalto, em Passo Fundo, o grupo
Anhanguera atingiu a marca de 34 unidades
espalhadas pela federação. Pelotas e Rio Grande
também já possuem escolas operando.
“Ao final do ano de 2007, contávamos com
mais de 92 mil alunos matriculados em nossas
unidades, número mais de três vezes superior ao
de dezembro de 2006. Nosso Lucro Líquido Ajustado
foi mais de quatro vezes superior ao de 2006,
atingindo R$ 63,5 milhões”, informa o mais recente
relatório de resultados da instituição.
A expansão da Anhanguera é patrocinada
pela oferta de ações na Bolsa de Valores. No
dia 12 de março de 2007, a empresa abriu seu
capital na Bovespa, atingindo o valor de R$
512 milhões em captação.
“É
assim que essas instituições crescem: tendo
resultados positivos no mercado acionário e
investindo em expansão”, explica o economista
Gabriel Leal, diretor da XP Educação, empresa
voltada à formação de investidores.
A exemplo da Anhanguera, a Estácio Participação
e o grupo Kroton, ambos de São Paulo,
estão listados na Bovespa. A Ulbra também
ingressou no mercado financeiro em 2003, sendo
a precursora na atividade. Comercializou
R$ 205 milhões em debêntures, ou seja, títulos
de uma dívida a ser paga aos compradores em
8 de janeiro de 2012.
“Nos Estados Unidos e na Europa, a Educação é
naturalmente considerada um business.
O Brasil está em rota de crescimento, o que
tem tudo a ver com a consolidação desse mercado”,
projeta Leal.
De fato, entre 1999 e 2006, o número de
instituições de Ensino Superior privadas saltou
de 27 para 92 no Rio Grande do Sul. A grande
investida aconteceu nos anos iniciais do século
21, sob a gestão do ministro Paulo Renato de
Souza, que liberou concessões sem a necessidade
da abertura de escolas.
“Os governos Collor e FHC não priorizaram
a educação pública e deixaram que as privadas
se desenvolvessem com rapidez”, rememora
o professor da Feevale e do IPA, Gabriel
Grabowski, que, além de lecionar, presta
consultoria para faculdades em processo de
expansão através da empresa Ephistheme Pesquisa
e Planejamento.
Mas foi muito antes disso, no final da década
de 1980, que a legislação brasileira se abriu
aos investimentos em Educação. “A Constituição
de 1988 permitiu a exploração comercial
privada, que antes era estritamente sem fins
lucrativos, através das confessionais e comunitárias”,
resgata Grabowski.
A análise de uma pesquisa recentemente
divulgada pelo Dieese mostra os reflexos dessas
políticas. Segundo o estudo, o ano de 2002
marca o crescimento das instituições de ensino
privadas com fins lucrativos no estado, que
atingem um índice de 72%. No ano seguinte,
o número de instituições aumentou em 52%,
e
em 2005, 37%.
“O crescimento em si não deveria ser ruim,
pois teoricamente significa postos de trabalho
para professores, oferta de vagas aos alunos e
melhoria da qualidade de ensino em função
da concorrência”, observa Ecléia Conforto,
economista responsável pelo estudo.
O analista de mercados Gabriel Leal acredita
que nos próximos 20 anos haverá intensificação
no número de instituições privadas no
estado. “Antes de haver fusões entre as empresas,
as pequenas faculdades devem crescer ainda
mais”, projeta.
O preço
do crescimento
Convém observar que o
público-alvo dessas novas
instituições pertence a uma
classe social que há alguns
anos sequer tinha Ensino
Médio completo. “A maioria
de nossos alunos são jovens
de média e média-baixa renda
que trabalham durante o
dia e estudam à noite, um
segmento não atendido plenamente
pelas instituições
de Ensino Superior do Brasil”,
relata um documento
apresentado aos candidatos
a acionistas da Anhanguera.
O relatório deixa claras
as motivações das classes C
e D quando ingressam no
Ensino Superior: “aumentar
perspectivas de desenvolvimento
profissional” e, conseqüentemente,
de renda.
“É
óbvio que o nicho de mercado
que se abre é o das classes
populares. No Brasil, quem tem
dinheiro já tem instrução. Essa é a
principal transformação que trazem
essas empresas”, acredita o
economista Gabriel Leal, da XP
Educação.
Mas um estudo conduzido pela
Ephistheme Pesquisa e Planejamento,
do professor Gabriel
Grabowski, demonstra que essa
parcela da população não suporta
mensalidades acima de R$ 300,00. “Há 4,5
milhões de estudantes universitários
no Brasil. Outros 2 milhões
querem ingressar na faculdade
mas não têm como pagar”,
completa.
A economista Ecléia Conforto
concorda que a fatia hoje ocupada
pelas filantrópicas, comunitárias
e confessionais está esgotada. “Mesmo
a classe média hoje não tem mais
como pagar R$ 1,5 ao mês por um
curso de Administração”.
Por isso a opção de escolas como
a Anhanguera é por mensalidades
muito mais baratas, que variam
entre os R$ 300,00 sugeridos por
Grabowski e R$ 600,00. Mas qual
a fórmula para manter o prometido “ensino
de qualidade”, aliado à
economia de recursos?
“Como têm que reduzir custos
obrigatoriamente, promovem demissões
para evitar planos de carreira,
diminuem o valor da horaaula
e aumentam o número de alunos
por professor”, relata Ecléia.
Cursos de dois anos de duração e
recursos como educação a distância
e matriz curricular também são
comuns a essas instituições.
O resultado é previsível: baixa
qualidade na formação dos alunos. “Me
apresente um professor que
consiga atender plenamente 80
alunos numa aula”, desafia Ecléia.
“Segundo
essa lógica, o padrão
educacional será ditado pelo mercado.
E quando foi que um serviço entregue ao controle do livre
mercado melhorou”?, alfineta
Grabowski, referindo-se às privatizações
dos governos neoliberais.
“Relatos de turmas com 120 ou
130 alunos são recorrentes em escolas
cujos professores – inclusive
com doutorado – recebem R$ 23,00
a hora-aula”, denuncia Amarildo
Pedro Cenci, membro da Executiva
da Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Estabelecimentos
de Ensino (Contee) e diretor do
Sinpro/RS. A organização lançou
recentemente a segunda fase da
campanha “Comercializar estudantes é
crime”, que critica o sistema
de ensino com fins lucrativos.
Não é novidade que o brasileiro
ainda encara a Educação como
um custo e não um investimento.
Atraídos pelos valores reduzidos
dos cursos, alunos de baixa renda
ajudam a engordar a carteira de
clientes das faculdades.
“O investidor quer ver o resultado,
que nesse caso é contabilizado
também pelo número de
unidades e de alunos”, exemplifica
Gabriel Leal. Por isso, nas apresentações
aos acionistas, a Anhanguera
descreve assim a compra
da Faplan: “Em 15 de fevereiro
de 2008, a Companhia adquiriu
a Sociedade Educacional Garra
Ltda., mantenedora das Faculdades
Planalto – Faplan. O valor
pago pela Faplan foi de R$
10,3 milhões. O número de alunos
de Ensino Superior previsto
pela Faplan para o primeiro semestre
letivo de 2008 é de 2,5
mil alunos, o que representa um
múltiplo por aluno de R$ 4,1
mil”.
“Quando a Educação vira um
negócio de ações, tem seu objetivo
desvirtuado. Educação deve
ser tratada como bem público,
não explorada comercialmente
como um tênis ou um celular”,
enfatiza Grabowski.
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Para Gabriel Leal, o papel das
empresas de Educação é preencher
um espaço vazio na formação
profissional que não foi suprido
pelo poder público e que, agora, pode representar
uma ameaça ao
desenvolvimento do país. “Temos um Ensino
Médio e Técnico muito
fraco. Se o Brasil continuar a crescer 5% ou 6% ao
ano, vai faltar
mão-de-obra qualificada”, projeta.
A ampliação do número de vagas
proporcionada por essas escolas
acontece em áreas já densamente ocupadas,
o Direito e a Administração.
São cursos de manutenção pouco
onerosa, que não dependem
de investimentos em tecnologia ou laboratórios.
Enquanto
isso, sobram postos de trabalho em áreas técnicas. “O
Brasil sofre
com a carência de engenheiros. Petrobras, Gerdau
e Vale não têm
de onde tirar profissionais”, exemplifica Grabowski.
Para suprir a falta de escolas com foco nessas profissões,
as maiores
empresas brasileiras começaram a criar universidades
próprias,
caso da Petrobras e do Banco do Brasil.
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A formação acadêmica
voltada para a necessidade local, tradicionalmente é
papel cumprido pelas universidades comunitárias. “Uma
instituição de Ensino Superior é mais
do que procedimentos e
pessoas. É o que possibilita experiências
diversas com a comunidade”,
defende Gilmar Antonio Bedin, reitor da Unijuí e
presidente do
Consórcio das Universidades Comunitárias
Gaúchas (Comung).
Confessionais e comunitárias, durante anos
se sustentaram através
dos benefícios da filantropia. “É uma
troca de impostos por serviços:
em vez de repassarem ao governo, eles mesmas investiam
em
clínicas, escolas, atendimento à população
carente”, relata
Grabowski. São essas pequenas instituições
as que devem sentir
diretamente os efeitos dos novos concorrentes. “Recuamos
nossa
estrutura para atender um número reduzido
de alunos”, lamenta
Bedin.
A pesquisa do Dieese mostra que os professores estão
migrando
das instituições tradicionais para
universidades recém-criadas ou
adquiridas por grandes grupos do país. Entre
2005 e 2006, o número
de docentes nas filantrópicas caiu 3,49%,
ao passo que nas privadas
comerciais cresceu 12,48%.
Bedin não se abate e garante que as comunitárias
vão disputar a
sua fatia do mercado. “Vamos nos adaptar ao
novo ciclo”, aposta. A
estratégia é direcionar as escolas
para cursos de pós-graduação,
pesquisa e desenvolvimento local. “Não
vamos entrar em competição
por preço, mas sim por qualidade”. A
estratégia é apoiada por
Grabowski. Ele acredita que as comunitárias
devem servir à região à
qual pertencem. “Essa vinculação
submete as pequenas instituições
a um controle social direto e as obriga a manter
um alto patamar
de qualidade”.
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Terra estrangeira
Além da desqualificação dos
cursos universitários, o alerta da
Contee é para a inevitável presença
de investidores estrangeiros nas
instituições que abrem seus capitais
na Bolsa de Valores. “É uma
visão de mundo diferente, não necessariamente
em sintonia com os
interesses da nação”, avalia Cenci.
Além da Contee, a União Nacional
dos Estudantes (UNE) também é
crítica ao processo de abertura
de mercados. “É inaceitável a ingerência
de especuladores estrangeiros
nos assuntos educacionais
do país”, alerta o site da entidade.
O controlador da Anhanguera, o
Fundo de Educação para o Brasil —
FIP, detém 78% das ações com
direito a voto da empresa. “Tradicionalmente
esses fundos são compostos
por capital estrangeiro”, diz
Leal.
As promessas de expansão agradaram
os investidores internacionais.
A surpreendente elevação
dos papéis de R$ 17,00 para R$
39,00 em poucos meses deixou o
mercado eufórico. Agora, lentamente,
o valor das ações da
Anhanguera se estabilizam entre
R$ 22,00 e R$ 24,00. “O que importa
nesse mercado é cumprir o
prometido. Para eles faturarem R$
215 milhões no lançamento, a garantia
não foi um projeto com meia
dúzia de unidades”, pontua Leal.
E a expectativa foi tão bem suprida
que no dia 10 de março a
Anhanguera registrou o pedido
para uma nova emissão de ações
na Bolsa de Valores. Por isso, enfrenta
o período de silêncio imposto
pelo mercado e não pode fornecer
nenhuma informação pública
sobre seus negócios.
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