JON LEE ANDERSON
O
jornalismo na linha de combate
Foto:
Clléber Passus/Nave/Divulgação |
Em 2008 a invasão do Iraque orquestrada
pelos Estados
Unidos completou cinco anos. O jornalista Jon Lee Anderson
foi um dos poucos a ficar em Bagdá nos dias que antecederam
o fatídico 20 de março, quando explodiram as primeiras
bombas. Contrariou até seu editor, da revista New
Yorker, David Remnick, que ordenou sua partida dias antes
do início da guerra. O resultado dessa experiência
está narrado
no livro A Queda de Bagdá, que no Brasil recebeu o
selo da editora Objetiva. Nos últimos cinco anos, Jon Lee
Anderson voltou ao Iraque dezenas de vezes, acompanhando
de perto a “ocupação americana”.
O correspondente da revista New Yorker também viveu
cinco anos em Cuba, justamente durante o chamado Período
Especial, quando a população enfrentou uma crise
sem
precedentes com o fim da União Soviética. Durante
sua
estadia em Havana, escreveu aquela que é considerada a
biografia mais completa – e honesta – de Che Guevara.
A
confrontação com realidades tão distintas
gerou opiniões
que o jornalista expôs em entrevista exclusiva ao Extra Classe,
durante sua passagem por Porto Alegre, no final de 2007.
Por Naira Hofmeister
Extra Classe – Entre as causas
referidas para o conflito no Iraque
estão a religião, o petróleo e a justificativa
dos Estados Unidos, da democratização.
Como você julga esses
fatores?
Jon Lee Anderson – Essa é uma grande
incógnita. O Iraque
possui possivelmente as maiores
reservas de petróleo do mundo: isso
não é coincidência. Não teriam
invadido Mali ou Paraguai, caso
Saddam tivesse sido ditador nesses
países. Também é verdade que
George Bush Jr quis tomar as dores
do papai pela Guerra do Golfo,
que não foi vencida plenamente.
Parece uma patologia. Primeiro
eram armas de destruição massiva.
Antes da invasão, a mudança de
regime, e depois, a construção da
democracia. Se tivessem apelado
ao público internacional, reconhecendo
sua responsabilidade pelo
que é o Iraque hoje e assumindo que
seus órgãos de inteligência não possuíam
habilidades naquele terreno,
creio que teria sido diferente.
EC – Você concorda com as acusações
de imperialista que os EUA
sofrem?
Anderson – Tem se repetido
muito que os Estados Unidos querem
poder e petróleo, como se chupassem
feito um Drácula. Até certo
ponto sim, mas o governo americano
paga pelo petróleo que extrai,
não rouba. Durante a ditadura
e sob a pressão do conflito iminente,
os EUA estavam comprando
a maioria da produção de petróleo
do Iraque de Saddam através
de intermediários, traficantes
russos. Se um país acha que é seu
direito entrar em outro território e
matar sua gente para salvá-los, assume
uma responsabilidade moral
muito grande. Tudo o que acontecer
depois é sua culpa. E isso ninguém
pensou.
EC – O medo de ataques terroristas é justificativa?
Anderson – Se Saddam conseguisse
restaurar seu poder, a verdade é
que seria uma ameaça. Nos
12 anos que esteve no poder desde
que promoveu o golpe de Estado
em 1969 até o final da Guerra
do Golfo em 1991, matou um milhão
de pessoas. Não só iraquianos,
atacou o Irã e o Kwait. O tipo era
louco: atacou todo mundo. Em
2000, perguntei ao primeiro-ministro
Tariq Aziz o que havia de verdadeiro
sobre as armas de destruição
massiva. Ele disse que as afirmações
eram exageradas, mas não
negou nenhuma delas. Eu mesmo
fiquei em dúvida. Quando eu estava
lá, romperam o bloqueio dos
aviões que durante dez anos não
permitia nenhum vôo. E de repente
pela fronteira passavam milhões
de caminhões cheios de tudo. E os
inspetores da ONU não puderam
saber o que havia nesses caminhões.
E todos ficaram com
uma interrogação.
EC – O que você pensa
da decisão de enforcar
Saddam Hussein?
Anderson – Ele merecia
a morte, mas muitos
anos antes. Especialmente
quando os
EUA o ajudavam. Ele
matou muita gente.
Com Saddam saíram os
demônios dos sepulcros.
O Iraque era um país
cheio de cadáveres e isso
não fica impune. É natural
que a maioria xiita oprimida
por Saddam vá querer o poder. É
lógico também que o Irã tente
arruinar o projeto norte-americano,
porque Bush falou que poderia
ser o próximo.
EC – E a população do
Oriente Médio, como reagiu?
Anderson – A maioria
dos xiitas está feliz da vida.
Para os sunitas foi uma
ofensa porque houve
demonstração de
sentimento sectário
no enforcamento.
Foi uma inabilidade
deixar
que pessoas dentro do lugar
gritassem lemas, palavras de ordem.
E depois, filmar ele sendo
morto. Saddam enfrentou com valentia
a morte, ele não queria ser
enforcado, era a única forma de
morrer que temia. Mas ele enforcou
muita gente. Em Abu Graib, a
cada quarta-feira, havia enforcamentos
coletivos de até 60 pessoas.
Ele era psicopata.
EC – Atualmente, como está o
Iraque?
Anderson – Segue sendo um
caldeirão de bruxas, mas as mortes
estão diminuindo. Não sei se é temporário
ou não. O mais
preocupante era a carnificina na
rua que ninguém impedia porque
não havia forças de segurança suficientes.
Outra coisa fundamental é
que os sunitas, que antes davam
abrigo à Al Qaeda, mudaram
de lado e agora fazem alianças com
os norte-americanos. Mas possivelmente
vão utilizar essa aliança
contra os xiitas, ou com a esperança
de uma guerra contra o Irã. O problema é
que a guerra não terminou.
EC – Algum sinal de recuperação da
economia?
Anderson – Mas que economia?
O Iraque está sob ocupação americana,
não há economia em guerra. É
um desastre.
EC – E do que vivem as pessoas?
Anderson – Há funcionários
públicos e forças de segurança que
recebem dinheiro suficiente para
sobreviver. Muitos vivem em pequenos
sítios, todos têm um clã ou um
parente em uma granja, onde há comida. Há muito
contrabando. Mais de 3 milhões de pessoas foram
embora. Alguns vivem em dificuldades,
outros com dinheiro minguado.
Não é tão precário como,
por exemplo, Bangladesh, porque o
Iraque é um país rico, tem ingressos
do petróleo. Aumentaram os
salários recentemente, mas vivem
com uma insegurança terrível.
EC – Está mais perigoso agora
do que durante a invasão propriamente
dita?
Anderson – Para os jornalistas,
sim. Existem terroristas que querem
te seqüestrar para te degolar
ao vivo num vídeo. Mais jornalistas
foram mortos no Iraque do que
nas duas guerras mundiais. Não há um só lugar seguro: não é que você vai
a uma trincheira e ali atiram um morteiro... Uma amiga minha
morreu porque um suicida viu uns
mercenários australianos passar,
quis arrebentar-se e levou ela junto.
Ela foi queimada viva. Outro
jornalista morreu quando saía de
casa rumo ao New York Times. Uma
milícia havia se apoderado de seu
bairro e parece que sabiam que era
jornalista. Atiraram nele. Ele ligou
para a mãe e disse que apesar dos
tiros, estava bem. Havia um carro
atrás enquanto ele falava pelo celular:
um homem desceu e atirou
na sua cabeça. Ele tinha 23 anos.
EC – Mas a população também
vive essa insegurança?
Anderson – No Iraque, todo dia
tem um carro-bomba, para qualquer
lado. Vai matar inocentes civis. Se
você é ocidental, os da Al Qaeda
querem te matar. Era um país sumamente
controlado antes porque
vivia a paz dos mortos, ninguém se
atrevia a dizer nada por causa de
Saddam. Durante a invasão, havia
o risco das bombas americanas, mas
a maioria ia a seus pontos. Algumas –
muitas na verdade – erraram
e mataram inocentes. Depois
foi como se as portas do inferno se
abrissem. Hoje ao menos percebemos
uma queda das atrocidades.
EC – Você viveu em Cuba e em
Bagdá. Há semelhanças entre os
governos de Fidel Castro e Saddam
Hussein?
Anderson – A primeira vez que
fui ao Iraque, em 2000, ainda sob
Saddam, senti ressonâncias de
Cuba. Mas com diferenças muito
grandes, além das questões culturais.
Saddam era um tipo cruel e
sádico. Sua megalomania era
transbordante. Acho que não havia
um líder tão absoluto no mundo.
O que compartilhavam Fidel
e Saddam era haverem criado sociedades
mais ou menos fechadas,
onde eles eram líderes absolutos.
No caso de Fidel, atenuado pelo
fato de que não havia instaurado
um reino de terror. Houve épocas
duras e ele tinha capacidade de
ser cruel, mas não havia fossas coletivas
nem centenas de milhares
de cadáveres enterrados
secretamente em Cuba. Essa é a
grande diferença. Dentro do mesmo
espectro que é a ditadura,
Fidel é light comparado ao que era
Saddam.
EC – Mas há práticas parecidas?
Anderson – Quando o Partido
Comunista de Cuba anuncia uma
marcha contra o Escritório de Interesses
Americanos para resgatar
Elián (Elián Gonzáles Cárdenas)
ou contra o bloqueio, milhões vão
para a rua. Porque seus patrões dizem
que têm o dia livre e devem
ir. E muitos vão porque lhes dão
cerveja grátis ou porque há uma
banda e podem dançar. No caso
de Saddam, era uma coação absoluta.
Mas em Cuba, as pessoas
falam. No Iraque, mesmo ficando
a sós contigo todos eram mudos,
porque o terror era extremo.
Claro: Saddam havia instaurado
a amputação da língua como
pena por criticar a ele ou a seus
filhos.
EC – Para escrever a biografia de
Che Guevara, você foi viver em Havana
com a sua família justamente
durante o Período Especial.
Anderson – Sim, o pior período
do Período Especial. Era difícil viver
lá mesmo tendo acesso ao dólar.
Mas os cubanos são muito familiares.
Tive muitos dependentes
porque as dificuldades eram
inimagináveis. Vivíamos sem á
gua, sem luz. Muitos vizinhos foram
embora de balsa.
EC – Atualmente há uma classe
média em Cuba, que enriqueceu através
do turismo. E também corrupção,
pequenas fraudes no comércio, nos
serviços. Você visitou a Ilha recentemente?
Anderson – Estive lá dois meses
em 2006 e, de fato, esses problemas
eram mais encobertos. Passou
muito tempo e há uma geração perdida,
justamente essa do Período
Especial. Eles chegaram à idade
consciente com uma dupla moral.
Quando a necessidade era muita,
havia cubanos que, na rua, eram
a favor de Fidel e da revolução.
Mas faziam vista grossa quando a
filha saía para se prostituir e voltava
com comida ou xampu.
EC – Isso é resultado da falta de
identificação ideológica entre as gerações
ou conseqüência natural do
tempo transcorrido?
Anderson – A revolução alfabetizou
o povo, mas não necessariamente
o fez culto. É uma ilha, as
tensões funcionam como uma panela-de-pressão. Há muitos
jovens que
não podem viver só de ideologia,
querem conhecer o mundo. É triste
ver que os jovens não estão fazendo
nada, não estão empregados. Muitos
são educados, sabem muitas coisas,
são criativos. São muito
talentosos os cubanos. Mas passam
a vida tomando trago. Os velhos não
souberam como lidar com isso. Não
basta cooptar todos, é preciso aceitar
e abrir o suficiente para que os
que querem ir. Deixá-los ir e vir. E os
cubanos amam sua terra, certamente
voltariam. É como um experimento
social que às vezes sai bem, às vezes
mal. É uma soma de tudo isso.
EC – A aposta no turismo foi
equivocada?
Anderson – Fidel Castro, por ser
o árbitro absoluto do destino dos
cubanos, esteve sempre experimentando.
Abrindo um pouco, fechando
um pouco. E criando uma sociedade
com vários padrões de vida,
não só uma dupla moral. Mas inclusive
quando a revolução estava
em sua época dourada, havia uma
classe média. Muitos barbudos veteranos
da Sierra Maestra viveram
em casas muito boas. Outros não. É
uma meritocracia socialista. Para
dizer em termos formais. Mas na
prática, há de tudo.