A
mão invisível do mercado
e da guerra
O ex-presidente do banco central norte-americano, Alan Greenspan,
admitiu em artigo
publicado no jornal Financial Times que a famosa “mão
invisível do mercado” (uma das
premissas básicas dos ideólogos da desregulamentação
da economia e do sistema financeiro)
tem um pequeno problema: não funciona. Greenspan disse que é impossível
saber
quantos meses demorará a atual crise financeira nos Estados
Unidos e que os modelos
econômicos com os quais o sistema financeiro mundial trabalha “são
insuficientes para
determinar os rumos da economia, diante do volume e da complexidade
das variáveis existentes”. “Nunca seremos capazes
de prever as
descontinuidades do mercado financeiro. Elas são necessariamente
uma surpresa”, admitiu. Ele definiu o atual momento como
uma alternância de fases de euforia com momentos de retração.
Marco Aurélio Weissheimer
Ilustração: Rodrigo Vizzotto
crise
financeira que os EUA vivem hoje é a mais grave desde a
Segunda Guerra,
alertou. “A atual crise financeira dos Estados Unidos será verdadeiramente
julgada como a mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Ela só chegará ao fim, acrescentou,
quando o preço dos bens imobiliários
se estabilizar. Até lá deixará numerosas
vítimas. “O sistema de avaliação
dos riscos atualmente em vigor será particularmente
tocado”, admitiu Greenspan, que teme ainda pela sobrevivência
da “auto-regulamentação
financeira como mecanismo fundamental de equilíbrio do setor
financeiro
mundial”. Em seu artigo, o ex-presidente do Federal Reserve
não fez qualquer autocrítica
sobre sua gestão. Ele é apontado como um dos principais
responsáveis por alimentar a
bolha imobiliária nos EUA, ao reduzir continuamente as taxas
de juros, como forma de
manter a aceleração econômica mesmo em fases
desfavoráveis.
Um dos mais recentes capítulos da crise foi o anúncio
da grave situação do banco
Bear Stearns, o que fez com que as bolsas despencassem no mundo
inteiro. O banco de
investimentos concedia financiamentos de longo prazo e fazia aplicações
de curto prazo,
especialmente no mercado de crédito imobiliário de
alto risco. A crise desse setor
atingiu o banco em cheio. Após uma “injeção
de liquidez” do Federal Reserve (o
Banco Central dos EUA), o Bear Stearns acabou sendo vendido para
o JP
Morgan por 10% do valor que tinha na Bolsa de Valores de Nova York. É neste
cenário que o dólar segue derretendo e, no
mês de março, atingiu
um patamar considerado impossível há bem pouco tempo:
para comprar
um euro era preciso desembolsar 1,59 dólares. A partir desses
dados, cresce
entre a maioria dos analistas o temor de uma profunda recessão
econômica
nos EUA.
A
guerra dos 3 trilhões de dólares
O impacto da crise é ainda maior quando
vemos os gastos dos EUA com a invasão
do Iraque, cinco anos após o início da
guerra.
Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia,
e Linda Bilmes, professora de
Harvard, calcularam os custos do conflito
e chegaram a um número impressionante.
A administração Bush afirmou que a guerra
custaria cerca de 50 bilhões de dólares.
No entanto, hoje, os EUA gastam no Iraque
exatamente essa quantia a cada três meses.
Em seu livro A guerra dos três trilhões
de dólares: os verdadeiros custos do conflito
do Iraque, Stiglitz e Bilmes calcularam que,
no mínimo, o custo econômico da guerra
para os EUA será de 3 trilhões de dólares,
e outros 3 trilhões para o resto do mundo,
ou seja, muito mais do que foi estimado
pelo governo Bush antes da invasão. Bush
não apenas enganou o mundo quanto aos
custos da guerra, mas também ocultou essa
informação enquanto o conflito se desenvolvia,
denunciam.
Isso não chega a ser motivo de surpresa,
acrescenta Stiglitz, uma vez que o governo
Bush mentiu sobre todo o resto, desde as
armas de destruição massiva de Saddam
Hussein até a suposta vinculação
do
iraquiano com a Al Qaeda. De fato, destaca
ainda, somente depois da invasão liderada
pelos EUA foi que o Iraque se transformou
em caldo de cultivo para terroristas.
Além do custo político e militar, a guerra
também provoca impacto na economia
norte-americana. Stiglitz contextualizou
esse impacto. Por um sexto do custo da guerra,
os EUA poderiam estabilizar seu sistema
de seguridade social durante mais de
meio século, sem precisar cortar benefícios
nem buscar novas contribuições. O governo
Bush reduziu os impostos dos ricos quando
foi para a guerra, elevando ainda mais o
já elevado déficit orçamentário
do país.
Essa escolha obrigou Washington a enfrentar
os crescentes gastos públicos com a
guerra com mais déficit fiscal. “Esta é a
primeira
guerra na história dos EUA que não
exigiu algum sacrifício dos cidadãos;
na
verdade, todo o custo é transferido para as
gerações futuras”, resume Stiglitz.
Por fim,
há o custo humano da guerra. Segundo dados
oficiais, na véspera do quinto aniversário
da invasão, 3.983 militares norte-americanos
já tinham sido mortos. O número
de feridos é 15 vezes maior, chegando perto
dos 52 mil. Os EUA terão que conceder
indenizações por invalidez a cerca de
40%
dos 1,65 milhão de soldados que já foram
mobilizados. No lado iraquiano, a tragédia é
imensamente maior. Diferentes estudos
indicam que o número de mortes varia de
800 mil a 1 milhão de inocentes desde o
início da guerra. Esse custo é impagável.
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